Educador português defende que transformação da educação depende do fortalecimento docente e de uma nova visão sobre o trabalho pedagógico
A inteligência artificial, as mudanças no comportamento dos estudantes e a expansão das tecnologias digitais colocaram a educação diante de uma nova pergunta: como transformar a escola sem perder sua essência? Para António Nóvoa, uma das principais referências do pensamento educacional contemporâneo, a resposta passa pela valorização do professor como agente central da mudança.
A reflexão ganha força no Mês do Professor, período em que redes de ensino costumam discutir os desafios da profissão docente. Para o educador português, porém, reconhecer professores não significa apenas celebrar sua importância, mas reconstruir o lugar da docência nas decisões sobre o futuro da escola.
Integrante da Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação da Unesco, que elaborou o relatório Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação, Nóvoa defende que a escola precisa ser compreendida como espaço público de conhecimento, convivência e formação democrática.
Em palestra recente no Colégio Rio Branco, em São Paulo, no dia 3 de agosto, o pesquisador retomou uma de suas principais críticas: a escola avançou em inclusão e diversidade, mas ainda precisa transformar profundamente suas práticas pedagógicas para garantir aprendizagem a todos os estudantes.
“Já conseguimos cumprir a promessa histórica de ter todos os alunos na escola, mas ainda não fomos capazes de cumprir a promessa histórica de educar todos os alunos.”
A análise de Nóvoa dialoga com desafios atuais dos gestores educacionais. A chegada da inteligência artificial às escolas, a revisão dos currículos e a busca por novas metodologias exigem mais do que ferramentas. Exigem professores preparados para interpretar mudanças e construir novas experiências de aprendizagem.
António Nóvoa e o desafio de transformar a escola
O pensamento de António Nóvoa parte de uma ideia central: a escola mudou, mas o trabalho pedagógico ainda precisa avançar. No relatório da Unesco, o educador participou da construção de uma proposta que defende um novo contrato social para a educação, baseado no conhecimento como bem comum e na responsabilidade coletiva pela aprendizagem.
Durante sua palestra, Nóvoa reconheceu avanços importantes nas instituições de ensino, especialmente em inclusão, diversidade e relação com os estudantes. Ao mesmo tempo, apontou uma contradição que considera decisiva para o futuro da escola.
“Vi uma escola totalmente transformada, uma escola muito diferente da escola do meu tempo. Mas vi também uma escola totalmente igual à escola do meu tempo dentro da sala de aula.”
Para o pesquisador, o desafio não está em abandonar a escola construída historicamente, mas em reorganizar seus espaços, tempos e práticas. A proposta envolve substituir modelos centrados apenas na transmissão de conteúdos por experiências baseadas em cooperação, estudo e produção coletiva de conhecimento.
Essa visão se aproxima da proposta da Unesco de uma educação como bem comum. O relatório, disponível para consulta pública, defende que os sistemas educacionais precisam responder às transformações sociais, ambientais e tecnológicas sem reduzir a aprendizagem a uma relação individual com ferramentas digitais.

Professor volta ao centro da transformação educacional
A valorização docente ocupa um dos principais pontos da trajetória intelectual de António Nóvoa. Para o educador, nenhuma mudança estrutural na educação será sustentável sem uma reflexão sobre o próprio trabalho dos professores.
“Falta-nos uma reflexão mais profunda sobre o trabalho pedagógico. E dizer que nos falta um maior investimento no trabalho pedagógico é dizer que nos falta uma reflexão mais profunda sobre os professores”, disse.
Essa defesa coloca o professor como produtor de conhecimento profissional, e não apenas como executor de políticas ou metodologias criadas externamente. Para Nóvoa, a docência envolve saberes construídos na prática, na pesquisa e na colaboração entre pares.
O debate ganha novos contornos com a inteligência artificial generativa. Ferramentas capazes de produzir conteúdos e apoiar tarefas escolares ampliam possibilidades, mas também exigem critérios claros de uso. A tecnologia, na visão defendida por Nóvoa e pela Unesco, deve fortalecer a ação pedagógica, não substituir a relação humana que sustenta a educação.
Para gestores, o desafio passa por criar condições para que professores participem das decisões sobre inovação, recebam formação adequada e tenham espaço para desenvolver novas práticas. A transformação digital da escola depende menos da quantidade de ferramentas disponíveis e mais da capacidade institucional de utilizá-las com propósito.
Ao recolocar António Nóvoa no debate sobre o futuro da escola, o Especial Mês do Professor 2026 do educador21 amplia uma discussão essencial: inovação educacional não acontece sem profissionais preparados para conduzi-la. O futuro da educação será definido não apenas pelas tecnologias incorporadas às escolas, mas pelo papel que elas atribuirão aos professores.










