Na Bett Brasil, especialistas reforçam que sem conectividade, dados organizados e formação docente, a IA e outras tecnologias não transformam a educação pública
Tania Caliari
Na Plenária da Bett Brasil 2025, o painel “Quando a Visão Sistêmica e a Conectividade Abrem Horizontes para a Inovação Educacional_”_ reuniu Julia Sant’anna, diretora do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), e Tiago Maluta, gerente de Inovação da Fundação Lemann, que atuam conjuntamente em vários projetos que unem organizações do terceiro setor voltados para a melhoria da educação no país.
Julia Sant’anna, que já foi Secretária de Educação do Estado de Minas Gerais, começou sua apresentação perguntando para a plateia quantos dos presentes eram de escolas públicas, e apontou que 83% dos alunos do Brasil estão matriculados nas redes públicas de ensino. Na pergunta seguinte para a audiência, a palestrante pode constatar que tanto as escolas públicas como as privadas ainda não estão plenamente contempladas pelo acesso às tecnologias digitais em suas escolas.
“Quando a gente fala da importância da tecnologia na educação, a gente fala de três vertentes: conectividade com a internet nas escolas; formação em competências digitais de professores e gestores; e soluções digitais para a gestão”, disse a diretora do Cieb, esclarecendo que essa visão sistêmica é fundamental para viabilizar a incorporação das tecnologias digitais nas escolas com qualidade.
Juliana Sant’anna destacou uma ferramenta de autoavaliação de competências digitais do Cieb, disponível a todos os educadores. A partir dos resultados, é possível buscar trilhas formativas, disponibilizadas pela Fundação Telefônica Vivo, para o desenvolvimento de habilidades para o uso de recursos educacionais digitais.
Outro ponto levantado na palestra foi a importância de se iniciar a implementação do uso de tecnologias digitais nas escolas pelo setor administrativo. “Como vamos conseguir fazer um trabalho de organização e planejamento que use inteligência artificial se eu ainda estou fazendo a gestão no papel, no caderno?”, questionou Juliana. Tiago Maluta, da Fundação Lemann, destacou um exemplo prático: “Se você quiser usar o chat GPT para escrever uma mensagem para as famílias sobre o desempenho dos alunos, como fazer isso se não tiver os dados das notas e da frequência digitalizados e organizados?”.
Maluta apontou para as diferenças regionais no acesso à conectividade e a recursos digitais nas escolas brasileiras, e lembrou que a IA deixou de ser um luxo, uma tecnologia futurista para poucos. “O MEC, mesmo quando anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, reservou R$ 817 milhões para iniciativas de educação utilizarem IA. Se a gente olhar o retrato da sala de aula, segundo uma pesquisa da Nova Escola, 62% dos 15 mil professores consultados veem a IA como uma oportunidade”, disse.
Segundo Maluta, é preciso evitar que professores e gestores sofram do que chamou de “paralisia por análise”, quando o excesso de informação trava as possibilidades de boas práticas. Sugere, ainda, um primeiro passo para a adoção e conhecimento da IA: formar um núcleo de estudo na escola com os professores mais entusiasmados; depois, definir um problema prático a ser resolvido com IA; escolher uma ferramenta de IA e fazer um estudo piloto, usando o princípio “humano no loop”, que é a revisão e ajuste dos resultados; medir o quanto a IA está acertando nas suas recomendações; e, finalmente, expandir a experiência só depois de ter evidências de que as soluções propostas pela IA funcionam para aquele ambiente escolar.

Nova geração desafia escolas na era da IA
A Roda de Conversa “Nova geração de nativos algorítmicos viverá em simbiose com IA” reuniu, para um bate-papo instigante_,_ o jornalista e expert em mídias digitais Caio Túlio Costa, Marcel Costa, professor e diretor da Integral Mind, e Stephanie Jorge, publicitária e cofundadora da Torabit. O trio falou sobre a geração imersa em intensa interação com os algoritmos, que moldam cada vez mais nossas decisões e refletem sobre os comportamentos e formas de aprendizado.
Caio Túlio, um nativo analógico, viveu parte da vida sem internet, celular, ou IA, e precisou se adaptar ao digital. O jornalista alertou para uma das grandes mudanças contemporâneas: as pessoas estão adquirindo conhecimentos de novas formas, e as escolas podem se tornar obsoletas se não encontrarem novos jeitos de ensinar.
Foi uma experiência semelhante à de Marcel Costa. Ao observar a experiência de seus alunos de cursinho, criou uma nova metodologia de ensino e um curso próprio para entregar o que cada estudante precisa — tarefa facilitada, hoje, com a IA.
“Eu consigo fazer o aluno conversar com a IA. Isso alimenta a avaliação que a IA faz de seus conhecimentos. É a grande evolução educacional no âmbito do cursinho. No caso do reforço escolar para crianças e adolescentes, estamos ajudando a ensinar a pensar, pois cada vez mais essa geração vai ter ferramentas que resolvem várias coisas para elas na ponta dos dedinhos”, disse.
Para Stephanie Jorge, as crianças podem mesmo perder sua capacidade de questionar o que vem das máquinas. “E isso é algo muito grave do ponto de vista educacional. Um educador, um pai, uma mãe têm que ter essa ciência para a preparação desse novo ser humano”, disse Stephanie ponderando, porém, que os educadores também não estão preparados para isso.
A especialista destacou, ainda, questões éticas sobre o uso de IA na educação. O risco do aumento das desigualdades educacionais e sociais no mundo se as ferramentas não forem democratizadas; a inibição do processo de aprendizagem baseado no erro e no acerto, tolhendo a possibilidade de ser aprender com erros; e adoção como verdade das respostas das IAs que, desenvolvidas por humanos, podem replicar seus preconceitos e vieses foram alguns dos pontos levantados.

Inovação na escola: mas o que é isso?
Andrezza Amorelli, educadora especialista em desenvolvimento humano; Giselle Fouyer, empreendedora do ensino de inglês e de português como língua estrangeira, e Jones Brandão, fundador da EAI Educa, empresa de soluções na área de educação socioemocional, estiveram no Aquário da Bett para debater com o público “O Que Está Impulsionando (ou Travando) a Inovação na Sua Escola?”.
Giselle, como mediadora, indicou que o título do evento era a pergunta norteadora da discussão, levando Jones Brandão a questionar o que se entende por inovação. Para ele, mais do que inventar algo que nunca existiu, ou ser algo extremamente criativo, a inovação seria a capacidade de dar respostas diferentes para as perguntas de sempre.
“A escola é cheia de ciclos. Todo ano fazemos planejamento, Dia das Mães, entregamos provas, resultados, fazemos formação para professores… Como dar respostas diferentes para essas rotinas? Eu acho que quem consegue fazer isso está inovando”, disse.
Lembrando com humor de quando todas as escolas achavam que ter um projetor faria seus professores se tornassem inovadores, Andrezza Amorelli disse que inovação é gente, é mentalidade, e que há diferente tipos de inovação, como a disruptiva e a processual. Amorelli prefere trabalhar a inovação processual nas escolas, “que não precisa derrubar paredes”, mas cria uma tensão criativa quando pessoas tentam entenderem e resolver algo, vendo outras possibilidades de responder às velhas perguntas. “O Dia das Mães é um desafio nas escolas!”, disse Amorelli, concordando com Brandão.
Interagindo com professores que se revezavam nas poltronas do palco circular do Aquário, Brandão afirmou que a perspectiva da inovação é fundamental para dar respostas à atual complexidade da sociedade e da educação. “A escola pode ser um laboratório, mas temos medo do erro, temos medo de fazer testes”, disse, apontando que este pode ser um dos entraves para a inovação.