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Presidente da Abraspe, Mario Ghio, faz uma reflexão neste Dia Internacional da Educação sobre como a educação pode se beneficiar da Era do Conhecimento para a Era da Inteligência

Mario Ghio*

Segundo John Naisbitt (1929-2021), escritor que ficou conhecido por falar sobre tendências globais, em seu best seller Megatrends, os Estados Unidos passaram a ter, já em 1957, mais pessoas trabalhando em cargos técnicos, administrativos e em escritórios do que no campo ou nas indústrias conjuntamente. Segundo ele, estava inaugurada a Era do Conhecimento, caracterizada pela geração de valor e riqueza sobre o conhecimento conquistado e aplicado pelos profissionais de uma sociedade.

Quase 70 anos depois, estima-se que mais de dois terços do PIB americano (que equivale a 14 vezes o PIB brasileiro de 2022) estão relacionados diretamente ao capital cultural da sociedade americana, da capacidade de inovar, criar e produzir coisas novas. Para ficar em um exemplo esclarecedor, o Iphone não é produzido nos EUA, mas seu design, sistemas, métodos produtivos e patentes, sim.

Ainda segundo Naisbitt, este movimento se replicaria em todos os países que fossem capazes de cultivar o conhecimento e desenvolver o capital humano de suas sociedades. Aqueles que não fossem, estariam fadados a viver de atividades agrícolas, extração de commodities e manufatura de produtos que o mundo desenvolvido não queria em seus territórios.

Mas o que essa reflexão tem a ver com o Dia Internacional da Educação, comemorado em 24 de janeiro?

As constatações apontadas por Naisbitt e evidenciadas no cenário global atual trazem à tona um indicativo que impacta diretamente o desenvolvimento de um país: a falta do capital humano tem relação direta com o crescimento de uma nação e os impactos sobre suas futuras gerações. Embora, no Brasil, tenhamos feito um trabalho memorável de universalização do ensino após a constituição de 1988, aumentando significativamente a escolaridade média desta geração, ainda estamos buscando formas de melhorar a qualidade das escolas e do aprendizado.

Mas é aí que a Inteligência Artificial (IA) pode nos ajudar a acelerar esse processo. Hoje, as tecnologias de IA já estão maduras o suficiente para atuarem como assistentes em todos os setores da sociedade, inclusive nas escolas. Um exemplo bastante eloquente está relacionado a exames de imagem para a detecção de tumores. Médicos experientes têm por volta de 92% de acerto e algoritmos bem treinados têm por volta de 88% de acerto, mas a combinação de ambos, isto é, o médico analisa o exame e determina uma análise complementar da inteligência artificial, está atingindo 99% de acertos!

Aterrissando nas escolas, os professores brasileiros precisam de apoio, pois lidam com inúmeros desafios que professores em outras sociedades não precisam enfrentar, inclusive uma formação profissional deficiente. São nestes contextos que a Inteligência Artificial, em conjunto com a humana, pode ser muito útil.

Hoje em dia, todo professor possui um celular que pode servir de sensor para diversos processos de análise e sugestões de interferência com os estudantes, propostos por inteligência artificial.

Por exemplo, ao fotografar o que os alunos escrevem, os algoritmos são capazes de identificar em que estágio da alfabetização cada um está, diagnosticar deficiências e propor novas atividades específicas para cada aluno. Não se trata de tentar substituir o professor, mas de auxiliá-lo. É uma das maiores dificuldades que professores inexperientes enfrentam, pois tendem a considerar como erro aquilo que denota apenas um estágio de desenvolvimento do aluno.

O Governo Federal, por meio do projeto Escola Conectada, está difundindo a conexão em 5G para todas as escolas do país. Se desenvolvermos e utilizarmos a IA como assistentes de nossos professores e diretores escolares, poderemos acelerar enormemente o aprendizado de nossos estudantes em todos os níveis.

Todos os países que focarem a IA no apoio aos profissionais para solução conjunta de problemas complexos, em todos os setores, serão os líderes globais do futuro. O Brasil é o líder mundial no setor agropecuário porque soube combinar investimentos públicos no conhecimento gerado na Embrapa, por exemplo, com produtores rurais cada vez mais conectados, sofisticados e produtivos. Podemos fazer o mesmo em todos os setores, em especial, a educação, que precisa tanto do olhar atento dos tomadores de decisão e de toda a sociedade. Arrisco dizer que a Era do Conhecimento, amplamente estudada por John Naisbitt, está dando lugar à Era da Inteligência!

*Empresário, investidor, conselheiro de diversas organizações não-governamentais (ONGs) dedicadas à melhoria da educação pública e presidente da Abraspe (Associação Brasileira dos Sistemas e Plataformas de Ensino)

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