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Em artigo, Fernanda King destaca que o uso ético e criativo da IA deve fortalecer o pensamento crítico e o papel humanizador do educador

Fernanda King*

A Inteligência Artificial está cada vez mais presente no cotidiano escolar, oferecendo novas possibilidades de ensino, mas também gerando preocupações sobre o futuro da educação e o papel dos educadores. É urgente discutir a importância do letramento digital, da aplicação prática da IA em sala de aula e das questões éticas envolvidas.

Com o avanço tecnológico, crianças e adolescentes estão mais expostos às telas e plataformas digitais. Embora elas possam oferecer oportunidades incríveis de aprendizado, o uso excessivo da tecnologia tem revelado um efeito colateral preocupante: a diminuição das habilidades criativas e do pensamento crítico. Esse uso prolongado pode levar à dependência digital, comprometendo o desenvolvimento socioemocional. A exposição contínua a conteúdos prontos, sem o incentivo à reflexão e à criação, impacta negativamente a capacidade de pensar de forma independente.

A criatividade é fomentada pela capacidade de imaginar, experimentar e resolver problemas de maneira original. Quando o cérebro está constantemente ocupado com estímulos prontos — vídeos, jogos e redes sociais — perde-se a capacidade de criar de forma autônoma. Em vez de inventar histórias ou solucionar desafios, as crianças se tornam consumidoras passivas de conteúdos prontos, o que compromete habilidades como a empatia. Esse cenário reforça o papel essencial dos educadores em proporcionar experiências que estimulem a autonomia e a capacidade de pensar criticamente.

Pesquisas indicam que atividades como leitura, brincadeiras ao ar livre e jogos de tabuleiro são fundamentais para o desenvolvimento da criatividade. Esses estímulos incentivam o pensamento divergente, fortalecendo conexões sociais e interpessoais. A interação presencial e o contato humano são essenciais para que crianças e adolescentes desenvolvam a empatia e aprendam a lidar com as emoções dos outros. O fortalecimento dessas habilidades se torna ainda mais relevante em um cenário onde a IA está cada vez mais presente.

Para pais e educadores, o desafio está em equilibrar o uso da tecnologia com atividades que estimulem a imaginação e o contato humano. Propor momentos off-line, incentivar hobbies artísticos e atividades em grupo são formas eficazes de preservar a criatividade. Mas e o papel das escolas? Como podem atuar estrategicamente para promover um ambiente que valorize o contato humano, o pensamento crítico e a criatividade?

O letramento digital vai muito além do uso de dispositivos eletrônicos. Envolve a capacidade de compreender, analisar e usar ferramentas tecnológicas de forma crítica e consciente. Em sala de aula, isso pode ser implementado com atividades como:

  • Criação de assistentes virtuais simples
  • Análise de algoritmos e sistemas de recomendação
  • Discussões sobre privacidade digital, com estudos de casos reais

Programas de capacitação para docentes são essenciais para prepará-los para lidar com novas tecnologias sem medo da substituição. A abordagem prática do letramento digital não apenas prepara os alunos para um mundo digital, mas também os educa para o uso responsável dessas tecnologias.

Ética no Uso da IA

Com o avanço da IA, surgem preocupações éticas, como a manipulação de dados, a perpetuação de preconceitos e a invasão de privacidade. Na Alpha School, no Texas (EUA), a substituição de professores por IA já é uma realidade. Os alunos estudam apenas duas horas por dia, com conteúdo personalizado pela IA, enquanto “tutores” trabalham questões socioemocionais, além da supervisão das crianças, é claro.

A personalização de conteúdos pedagógicos pode ser benéfica, especialmente nos casos de pessoas com necessidades específicas, pois a realização de adaptação de currículo costuma ser uma queixa frequente dos educadores. Mas a falta de interações significativas com professores humanos compromete o desenvolvimento socioemocional, entre outros prejuízos. Questões como supervisão dos algoritmos e controle de dados também ainda são pouco exploradas, além da ausência de regulamentações claras a respeito.

Reduzir a Ansiedade dos Professores:

A sensação de que a IA poderá substituir os educadores é uma preocupação crescente. No caso da Alpha School, professores foram substituídos por sistemas automatizados, gerando polêmica sobre a desumanização do ensino. A questão é: a tecnologia pode replicar a capacidade humana de inspirar e mediar conflitos? E não seria uma escola essencialmente sobre relações entre PESSOAS, acima de qualquer conteúdo?

O Papa Leão XIV alertou em um dos seus primeiros discursos: “A IA pode facilitar a vida, mas não deve nos afastar do nosso propósito essencial: sermos humanos.”

Essa reflexão nos leva ao aumento das desigualdades no Brasil, que é um país de dimensões continentais e extremamente diverso. Muitos educadores não têm acesso ou conhecimento sobre IA. Em grandes centros urbanos, o uso da tecnologia é comum, mas em regiões mais afastadas, o acesso ainda é precário. A implementação da IA deve buscar um equilíbrio entre inovação e ética, garantindo que a tecnologia seja uma ferramenta complementar, e não substituta do papel humano essencial dos educadores.

A educação precisa manter seu caráter humanizador, integrando o potencial da IA sem abrir mão do contato interpessoal e do desenvolvimento integral dos alunos. A inclusão de programas de capacitação tecnológica para professores é urgente, visando nivelar o acesso às ferramentas digitais e evitar o aumento das desigualdades. Além disso, é essencial que as instituições ofereçam suporte psicológico aos educadores que enfrentam o medo da substituição – além de tantos outros da atualidade, ajudando-os a desenvolver novas habilidades e a enxergar a IA como uma aliada, não uma ameaça.

Fica aqui uma dúvida crucial e uma reflexão ao leitor: para você, o futuro da educação é humano?

_*Gestora Educacional, especialista em Educação, Palestrante, Neuropedagoga e CEO da _Petit Kids Cultural Center

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