Na Coluna Tecnologia que Humaniza de abril, Guilherme Cintra discute como a IA desafia a criatividade humana e destaca o papel da autoeficácia na formação de sujeitos criadores
Qual o espaço da criatividade humana em um mundo onde a IA cria por nós?
Em 2019, fui a Singapura estudar o sistema educacional do país. A cada cinco anos, o país faz uma revisão completa do currículo nacional, com discussão que envolve não só o Ministério da Educação, mas também o de Desenvolvimento Econômico e Planejamento. Em todos os cantos, via escrita a palavra “criatividade”. O raciocínio era direto: em um país olhando para frente, os trabalhos que resistiriam à automação seriam justamente os que dependem da capacidade criativa que só nós temos.
Só que, em novembro de 2022, o ChatGPT foi lançado. E desde então os modelos de IA generativa avançaram em velocidade impressionante, demonstrando capacidades que se assemelham muito às nossas habilidades criativas. O que isso significa para nós? E, mais importante, para quem nasce já exposto a essas tecnologias desde o início da vida?
Pai de uma menina de um ano, essa pergunta extrapola o campo da política pública e preocupações teóricas para algo muito mais próximo e familiar. Como alguém que é apaixonado pela possibilidade de criar, acredito que há valor intrínseco na possibilidade de construir algo a partir de nossa própria inventividade. Há algo profundamente existencial no imaginar. E, no entanto, me vejo cada vez mais usando IA como apoio nesses processos. Qual o limite?
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Estamos começando a ver algumas primeiras respostas sobre o que significa existir em um mundo onde IA cria algo, ao menos aparentemente, novo. E uma palavra chave surge para apontar os caminhos da preservação da criatividade humana: autoeficácia.
Um estudo publicado em 2024 na Scientific Reports testou diferentes formas de colaborar com IA em tarefas de escrita criativa. Quando as pessoas recebiam um poema gerado pela IA para editar, sua criatividade era menor do que quando escreviam sozinhas. Mas quando cocriavam com a IA, mantendo-se como protagonistas do processo desde o início, o déficit desaparecia.
O conceito não é novo: Alberto Bandura descrevia autoeficácia, em artigo de 1977 e em 1997, reformulava da seguinte forma: “Crença nas próprias capacidades de organizar e executar os cursos de ação necessários para produzir determinadas realizações.” E um dos elementos fundamentais para construção da autoeficácia é a obtenção da maestria que vem da experiência de passar por uma tarefa difícil e assim conseguir, por seus próprios meios, ultrapassar o obstáculo posto.
Editar é terceirizar a maestria. Cocriar, com o aluno no comando, preserva a experiência de autoria, que é onde a crença de capacidade se forma.
Se fricção cognitiva é necessária para construir autoeficácia, a resposta parece óbvia: limitar o que a ferramenta faz, garantir que o aluno ainda precise pensar. Faz sentido. Só que não sabemos se é suficiente.
Em evento em Stanford, o pesquisador Guilherme Lichand apresentou o estudo (ainda não revisado ou publicado) “GenAI can harm learning despite guardrails”, realizado com Sachin Allums e Karine Roncette. Em um experimento com cerca de 530 alunos no município do Rio de Janeiro, os estudantes realizaram tarefas que demandavam criatividade. O grupo de controle conduzia tudo sozinho. O grupo de tratamento usava IA, mas com limitações que buscavam garantir que a tecnologia fosse apenas um suporte e não a resolução completa. Posteriormente, foram realizadas novas tarefas que demandavam criatividade. Mesmo com salvaguardas, os estudantes do grupo de tratamento tiveram resultados muito piores.
O mecanismo que explica? Os efeitos negativos foram concentrados nos alunos que, ao longo do experimento, passaram a concordar mais com a ideia de que a IA é mais criativa do que eles próprios. Não é só uma questão de prática ou dependência operacional: é uma questão de crença sobre si mesmo.
Um aluno que, por diferentes motivos já não tenha autoeficácia criativa, ao se deparar com uma ferramenta que nunca hesita, nunca trava e nunca tem medo da página em branco, provavelmente não sairá dessa experiência acreditando mais em si mesmo…
Bem, então só nos resta banir essas ferramentas, certo?
Não acredito que esse seja o caminho. É necessário preparar o terreno, construir o senso de que o aluno é um criador.
Essa identidade não se declara. Ela se acumula em experiências onde a pessoa parte do zero, enfrenta o desconforto da página em branco, faz escolhas sem assistência, e chega a algo que reconhece como seu. São essas experiências, e só elas, que formam a base interna a partir da qual qualquer colaboração com ferramenta pode acontecer sem custo identitário. Quem já sabe que cria consegue usar a IA como extensão de si. Quem ainda não sabe corre o risco de usar a IA como substituto de si.
Isso tem uma implicação direta para a escola. É necessário garantir que existam momentos regulares e protegidos em que o aluno cria por conta própria, sem andaimes, sem atalhos. Não porque a dificuldade é boa em si, mas porque a experiência de superar a dificuldade é insubstituível para a construção da crença. Depois de consolidada essa base, a cocriação com IA pode de fato ampliar o que o aluno faz, sem diminuir quem ele é.
Podemos também extrair aprendizados de quem vê de dentro os desafios ao desenvolver essas ferramentas. Em uma entrevista recente com um dos fundadores da Anthropic, um dos maiores laboratórios de desenvolvimento de modelos de IA generativa, falou o que tem feito para estimular seus próprios filhos a desenvolverem seu senso de criatividade e identidade: escreverem, em papel, seu próprio diário. A partir de suas frustrações, ansiedades e alegrias, são capazes de desenvolver de forma independente seu senso autoral e de identidade. E aí usar as ferramentas e não serem completamente moldados por suas relações com estas.
Enquanto isso acontece em meu entorno, eu vejo minha filha, sem a menor noção do que seja IA, construindo o seu próprio mundo. Ela inventa brincadeiras o tempo todo, ri com as vozes e caretas que fazemos ao ler seus livrinhos, pede para repetirmos 15 vezes e observa curiosa cada pequeno detalhe do mundão que a cerca. Como pai, tudo que quero é preservar a capacidade criativa inacreditavelmente rica que uma criança tem. Que ela leve esta para sua vida toda. E que aí sim, use IA para a ajudar a construir o mundo que imagina.

Guilherme Cintra é Diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann. Economista formado pela PUC-RJ, iniciou sua trajetória na educação aos 18 anos como professor de matemática para jovens de comunidades próximas à universidade. Atuou em fundos de investimento e tornou-se sócio do Gera, focado em educação. No Grupo Eleva, foi diretor de unidade escolar, liderou uma rede de escolas e cofundou o Pátio, área de novos negócios (hoje Grupo Salta). Trabalhou na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro como Coordenador de Inovação e Tecnologia, onde criou os Ginásios Experimentais Tecnológicos, a Olimpíada Carioca de Matemática e sistemas de gestão escolar. Atualmente, dedica-se a escalar qualidade educacional por meio da tecnologia em estados e municípios do país.










