Na análise do colunista Celso Niskier, o avanço das graduações experimentais reflete uma resposta estrutural às novas demandas sociais, profissionais e tecnológicas do ensino superior
No dia 28 de abril de 2025, matéria publicada pela Folha de S.Paulo abordou uma importante transformação pela qual a educação superior brasileira tem passado nos últimos anos: a expansão das graduações experimentais, ou seja, cursos que incorporam inovações aos seus projetos pedagógicos e ao perfil dos egressos, visando alinhar a formação profissional com as demandas do mercado de trabalho.
Conforme destacado na reportagem Graduações experimentais duplicam com ensino à distância, o fenômeno, que ganhou força a partir de 2018, representa uma ruptura com o modelo tradicional de educação superior. Em apenas quatro anos, o número de cursos classificados como experimentais praticamente dobrou no Brasil, sendo a maioria ofertada pelo setor privado e por meio da educação a distância (EAD).
Para se ter ideia, das 4.469 graduações experimentais oferecidas atualmente, 48,9% foram criadas a partir de 2018. Desse total, 84% estão em instituições privadas de educação superior e 65% são ofertadas na modalidade a distância. O marcador temporal tem uma razão de ser: a publicação do Decreto 9.057, de 25 de maio de 2017, que regulamentou a educação a distância e conferiu maior flexibilidade para a estruturação desses cursos.
Contudo, esse crescimento não é reflexo apenas da legislação favorável e das novas possibilidades tecnológicas, mas também da demanda crescente por uma formação mais flexível, personalizada e conectada às transformações do mundo do trabalho. E, apesar de serem cursos dotados de maior flexibilidade, em geral, eles não possuem qualidade inferior à verificada nas graduações tradicionais.
Como expliquei ao jornalista, a checagem da qualidade das graduações experimentais é realizada pelo Ministério da Educação (MEC), por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), mesmos mecanismos aplicados aos demais cursos. Dessa forma, o órgão governamental tem garantido que a inovação curricular ocorra dentro dos padrões de qualidade exigidos pela política educacional brasileira.
Um ponto que não foi abordado no texto jornalístico, mas que gostaria de ressaltar aqui, diz respeito à necessidade de se intensificar o combate ao preconceito que ainda existe em relação à educação a distância. Durante muito tempo, a EAD foi vista como uma alternativa inferior à modalidade presencial. Contudo, como há anos tenho enfatizado, essa visão é equivocada e ultrapassada. A qualidade do ensino não está na modalidade, mas na seriedade com que o projeto pedagógico é conduzido, na qualificação dos professores e no compromisso institucional com a formação dos alunos.
A educação superior brasileira tem diante de si a oportunidade de se reinventar e tornar-se mais inclusiva, sem abrir mão da qualidade. O modelo presencial tradicional, em muitos casos, não atende mais às necessidades de uma população diversa, que trabalha, cuida da família e precisa conciliar diferentes responsabilidades com os estudos. A EAD, com sua flexibilidade, é uma ponte possível para muitos estudantes, enquanto as graduações experimentais oferecem um espaço privilegiado para pensar currículos mais conectados com a realidade do século 21.
Outro aspecto que merece destaque é o papel da inovação pedagógica nesse cenário. Graduações experimentais, quando bem estruturadas, permitem metodologias ativas de ensino, uso intensivo de tecnologias educacionais, avaliação formativa e desenvolvimento de competências socioemocionais – elementos essenciais para a formação de profissionais preparados para atuar em um mundo complexo e disruptivo.
Finalizo reiterando a importância de construirmos, juntos, uma cultura de valorização da EAD e das graduações inovadoras. A matéria da Folha de S.Paulo ajuda a trazer luz para um debate urgente e necessário. A educação superior do Brasil está em transformação – e temos a responsabilidade de garantir que essa mudança seja para melhor, com mais acesso, mais qualidade e mais compromisso com a formação cidadã.

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e secretário executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro de Educação Particular, além de membro do Conselho Consultivo da Bett.