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Mensalmente, Mario Ghio aborda temas de grande relevância para o setor, sempre fundamentados em dados, na Coluna X da Educação

No mês de junho tirei uns dias de férias e visitei Amsterdã. Como de costume, antes de conhecer um local, procuro ler sobre autores, filósofos ou pensadores locais e depois visitar espaços na cidade que foram representativos em suas obras. Amsterdã é repleta de personagens fundamentais e, entre eles, René Descartes e Baruch Spinoza. Descartes era francês, mas viveu uns bons anos em Leyden, cidade próxima a Amsterdã. Lá publicou seu Discurso do Método, como a célebre frase “Penso, logo, existo”. Já Baruch Spinoza (na minha opinião o maior filósofo português) ou Bento Spinoza, como era conhecido na comunidade de judeus portugueses que fugiram da Inquisição em Portugal, nasceu em Amsterdã e morreu ali perto, em Haia, ambas na Holanda.

Penso que os dois são pensadores centrais do racionalismo moderno, embora com projetos filosóficos distintos. Descartes parte da dúvida metódica e da separação entre mente e corpo, propondo um dualismo claro que fundamenta o conhecimento científico em bases certas e indubitáveis. Spinoza, por outro lado, recusa o dualismo cartesiano e defende uma integração rigorosa: uma única substância divina (Deus ou Natureza). Para ele, o conhecimento racional e científico não é apenas um método, mas o único caminho ético e justo para a liberdade, pois compreender as causas é libertar-se das paixões irracionais.

O método cartesiano, com sua ênfase em clareza, distinção e fundamentação rigorosa, serviu de modelo para o desenvolvimento das ciências experimentais. Já a visão de Spinoza, que integra mente, corpo e natureza numa única substância, inspira abordagens mais sistêmicas e interconectadas, como as neurociências contemporâneas, que evitam explicações puramente mecanicistas.

No entanto, apesar do trabalho de ambos e todo o esforço da busca pela verdade e das causas e efeitos, a negação à ciência persiste em várias formas atuais: teorias conspiratórias sobre vacinas, negacionismo climático, rejeição à evolução biológica são exemplos gritantes. Em contraste com o ideal cartesiano de fundamentação e o ideal spinozano de compreensão racional das causas, esses movimentos apelam à emoção, à desinformação e a uma concepção fragmentada e instrumental do conhecimento, em que dados científicos são descartados quando inconvenientes para interesses políticos, econômicos ou, pior ainda, apenas para ser aceito em uma comunidade.

Essas negações da ciência aparecem também em áreas menos óbvias, como nos debates sobre alfabetização. A recusa ao método fônico por parte das Universidades, de alguns formuladores de políticas educacionais e grupos pedagógicos é um exemplo claro de negação de evidências científicas. Estudos internacionais, como os resultados das avaliações EGRA (Early Grade Reading Assessment) em diversos países, mostram ganhos substanciais de leitura quando a instrução sistemática de relações grafema-fonema, ou foco na decodificação, é adotada: por exemplo, projetos no Gana e na Libéria dobraram a fluência em leitura em poucos anos com metodologias fônicas estruturadas. No Brasil, os municípios com melhores resultados na alfabetização são exatamente os que adotam o método fônico. Aliás, os estudos sobre EGRA também apontam que países de baixa e média renda são os mais prejudicados com a adoção de outras metodologias de alfabetização.   Apesar disso, no Brasil, persiste a defesa de abordagens exclusivamente construtivistas que negligenciam o ensino explícito do código alfabético. Esse tipo de rejeição às evidências empíricas se aproxima do negacionismo em saúde ou no clima: ao ignorar resultados robustos, impede-se o avanço educacional necessário e se perpetuam desigualdades.

Por aqui, suspeito que muitos acadêmicos que ainda atacam o método fônico, ou simplesmente se calam no debate, buscam apenas a aceitação da comunidade universitária indiferente ao destino das crianças.

René e Bento devem revirar-se em seus túmulos diante de tanta irracionalidade…

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