Experiências de professores da América Latina mostram como projetos de ciência e tecnologia estão mudando a relação com os estudantes e a própria prática docente
Outubro reúne duas datas que colocam a docência no centro do debate: o Dia Mundial dos Professores, celebrado em 5 de outubro, e o Dia do Professor no Brasil, em 15 de outubro. Entre elas, o educador21 dedica o mês à discussão sobre os caminhos da profissão e o novo lugar do professor diante das transformações na escola. Algumas dessas mudanças aparecem na prática de educadores que passaram a compartilhar com os estudantes a investigação, as perguntas e a construção das respostas.
Experiências do Samsung Solve for Tomorrow em diferentes países da América Latina mostram esse movimento. No programa, professores orientam estudantes na identificação de problemas de suas comunidades e no desenvolvimento de soluções com ciência, tecnologia e criatividade. A proposta altera também a posição do educador: em vez de definir sozinho as etapas e os caminhos do trabalho, ele passa a acompanhar processos em que os alunos formulam hipóteses, testam possibilidades e aprendem com os resultados.
Presente na região desde 2014, o programa informa ter alcançado cerca de 450 mil professores e estudantes em 21 países. As experiências reunidas pela iniciativa mostram que essa mudança não acontece apenas na relação dos jovens com o conhecimento. Ela também exige dos professores novas formas de conduzir projetos, ouvir perguntas e reconhecer capacidades que podem permanecer pouco visíveis em modelos mais centrados na transmissão de conteúdos.
A trajetória de Henrique Pereira, professor de Biologia da rede estadual de São Paulo, exemplifica esse processo. Ao desenvolver projetos de pesquisa com estudantes, ele percebeu que precisava abrir espaço para perguntas e escolhas que antes partiam principalmente do professor. No projeto Macafiltro, os jovens investigaram o uso de sementes de macaúba para remover agrotóxicos e passaram a olhar para problemas da própria comunidade como questões que também poderiam investigar e enfrentar.

Foto – 1 – Professor Henrique junto ao seu grupo de jovens alunas que desenvolveram um filtro com sementes de macaúba, planta abundante em sua comunidade

Foto – 2 – Professora Coronel apresentando seu grupo de estudantes e celebrando a conquista no Solve for Tomorrow Bolivia pelo protótipo do biodigestor que converte resíduos em biogás, água de irrigação e fertilizante
Da resposta pronta à construção conjunta
Para Henrique, a mudança ficou evidente quando os estudantes passaram a assumir maior responsabilidade pelas pesquisas. “Eles passaram a entender que os problemas existentes em sua própria comunidade não precisavam ser simplesmente terceirizados para outras pessoas ou instituições. Eles também poderiam investigá-los e tentar encontrar soluções”, falou. Em 2026, a dinâmica avançou: os próprios estudantes apresentaram ideias de pesquisa, enquanto os professores escolheram quais projetos gostariam de orientar.
Essa inversão alterou a percepção do professor sobre seu próprio trabalho. “Hoje, os próprios estudantes chegam com suas perguntas e suas ideias, e nós, professores, ajudamos a transformá-las em projetos. Portanto, acho que essa foi uma das maiores contribuições do Solve for Tomorrow para a minha prática: o Prêmio me ensinou a confiar mais na capacidade dos estudantes de pensar, propor e construir seus próprios caminhos”, afirmou. Depois de anos acompanhando projetos de pesquisa, Henrique resume o efeito da experiência sobre sua trajetória: “Aquela mudança não aconteceu apenas nos meus alunos. Ela aconteceu também em mim.”
Na Bolívia, Liliam Rocio Coronel Botello também identifica uma mudança na forma de conduzir o trabalho com os estudantes. Professora há 31 anos, ela acompanhou o projeto Biotransformadores, no qual jovens desenvolveram um biodigestor capaz de converter resíduos em biogás, água de irrigação e fertilizante. O processo fez com que a educadora revisse sua posição diante da turma. “Aprendi a escutar. Como professora, evoluí bastante para o papel de guia, de acompanhante”, disse.
A transformação apareceu também entre os estudantes. Jovens que inicialmente tinham dificuldade para se expressar passaram a apresentar ideias, colaborar com os colegas e ganhar confiança ao longo do projeto. “Esse é o meu orgulho: vê-los crescer como estudantes e ganhar confiança em si mesmos”, afirmou Liliam, que se prepara para a aposentadoria após 31 anos de docência. Mesmo com a proximidade desse momento, ela afirma que pretende continuar apoiando jovens sempre que tiver oportunidade.

Foto – Professora María Alejandra Zerpa e seus estudantes que desenvolveram o projeto Solar Pack, uma mochila solar que oferece iluminação portátil
Professores também aprendem com as perguntas dos estudantes
Na Argentina, a professora de Informática María Alejandra Zerpa, docente responsável pelo projeto Solar Pack, viveu processo semelhante. Os estudantes desenvolveram uma mochila solar para oferecer iluminação portátil, mas a experiência também levou a educadora a rever a maneira como enxergava sua função. Ao permitir que os jovens apresentassem ideias, testassem possibilidades e encontrassem diferentes caminhos para um mesmo problema, María passou a reconhecer com mais clareza o potencial existente na turma.
“Muitas vezes, como docentes, acreditamos que temos todas as respostas, e não é assim”, afirmou María. Ao longo do projeto, ela observou mudanças que ultrapassaram o desenvolvimento da solução tecnológica. Os estudantes fortaleceram curiosidade, empatia, pensamento crítico e capacidade de trabalhar em equipe, além de reconhecer habilidades que ainda não percebiam em si mesmos.
A experiência desses professores está relacionada à metodologia adotada pelo Solve for Tomorrow, que combina treinamentos e mentorias com metodologias ativas, como Design Thinking e Aprendizagem Baseada em Projetos. Para Helvio Kanamaru, diretor de ESG e Cidadania Corporativa da Samsung para a América Latina, os educadores ocupam uma função central nesse processo.
“O Solve for Tomorrow só é possível graças à dedicação e ao compromisso das professoras e professores das redes públicas de ensino. Eles são verdadeiros catalisadores de ideias, conectando os conteúdos curriculares a habilidades socioemocionais e inspirando os jovens a transformar a criatividade em soluções que impactam suas comunidades”, disse.
A proposta também levou à criação de uma plataforma regional voltada à troca entre professores da América Latina. O espaço reúne referências pedagógicas desenvolvidas por docentes e busca ampliar a circulação de conhecimentos entre profissionais de diferentes países e contextos. As experiências do programa mostram, assim, que trabalhar com projetos de ciência e tecnologia pode modificar tanto a participação dos estudantes quanto as estratégias utilizadas pelos professores.
Para a docência, a mudança representa uma ampliação do papel de quem ensina. O professor continua responsável por orientar o percurso pedagógico, mas passa a dividir com os estudantes parte da investigação e da construção das respostas. Em uma escola atravessada por novas tecnologias e diferentes formas de aprender, essa capacidade de orientar, escutar e criar condições para a autonomia dos alunos ganha espaço como parte do próprio trabalho docente.
No Especial Mês do Professor do educador21, essas experiências ajudam a iluminar uma questão central para a profissão: o novo lugar do professor não significa perder sua autoridade pedagógica, mas transformar a forma como ela é exercida. A docência passa a combinar conhecimento, orientação, escuta e abertura para aprender também com quem está na outra ponta da sala de aula.










