Na Coluna Engenharia Educacional deste mês, Marcel Costa discute o papel do professor como arquiteto de experiências de ensino
Em alguns processos chamados de metilação do DNA, nossos genes são ligados e desligados. Imagine que o DNA é uma casa cheia de lâmpadas (genes). Essas lâmpadas podem estar acesas (gene ligado) ou apagadas (gene desligado). A metilação do DNA funciona como uma fita isolante no interruptor. Quando a região promotora do DNA de um gene está muito metilada, é como se alguém tivesse colocado fita isolante no interruptor. O fio está lá, a lâmpada existe, mas não é possível acendê-la. O gene fica desligado. Quando há pouca ou nenhuma metilação, o interruptor está livre, e a lâmpada pode ser ligada.
Na sala de aula, algo semelhante acontece. O aluno tem energia, tem inteligência, tem vontade — mas muitas vezes está “metilado” por bloqueios invisíveis: ansiedade, medo de errar, falta de propósito, distrações que roubam foco. O fio está lá, a lâmpada também, mas o circuito não se completa. O papel do professor não é aumentar a voltagem nem forçar a lâmpada a brilhar mais, e sim ajudar a retirar essa fita isolante que impede a luz de se acender.
Maximizar o potencial, portanto, não significa encher o estudante de mais horas de aula ou de exercícios repetitivos. Significa perceber onde estão os bloqueios e removê-los com precisão. O aluno já tem luz própria — o que falta é criar as condições para que ela apareça. Quem já viveu isso em sala de aula sabe como pequenos ajustes podem transformar completamente um estudante: da apatia à participação ativa, do silêncio inseguro à confiança serena.
Esse contraste fica ainda mais nítido quando olhamos para os modelos tradicionais. Há quem insista que basta aumentar carga horária, apostilas e simulados. O resultado? Alunos exaustos, com rendimentos decrescentes, como quem tenta forçar uma lâmpada coberta de fita a brilhar mais forte. Já uma abordagem mais refinada aposta em menos desperdício e mais qualidade: menos peso, mais retenção, mais equilíbrio. Não é a quantidade de esforço que transforma, mas a qualidade do processo.
E se o DNA revela o potencial, a arquitetura mostra a execução. O professor que entende isso age como arquiteto: não se contenta em acumular tijolos (conteúdos), mas organiza cada peça em estruturas que façam sentido. Ele sabe que só há construção verdadeira quando projeto e execução se encontram e, se bem-feito, têm um olhar que vai do minucioso ao quadro total, o sublime se revela.
Na IntegralMind chamamos isso de Engenharia Educacional. Mas, para além do nome, o que importa é a prática: o professor que assume essa postura aprende a identificar e remover os bloqueios que silenciam seus alunos. Cada vez que isso acontece, uma nova lâmpada se acende — e a sala inteira fica mais iluminada.
Numa realidade em que o aumento da carga horária tradicional frequentemente resulta em retornos decrescentes, a Engenharia Educacional* refuta a ideia de que apenas sacrifícios extremos levam ao sucesso. Em vez disso, promove uma cultura de desempenho ancorada no equilíbrio emocional e no propósito individual.
- Estudos realizados entre 2023 e 2025, na IntegralMind, mostraram uma melhora impressionante de 94% na retenção de conteúdo, com alunos relatando satisfação notável e autonomia que ecoa em todas as áreas de suas vidas.
O Papel Transformador do Professor
O educador deve transcender o papel tradicional e se tornar um curador de emoções e conhecimento. Professores ajustam, dinamicamente, o ritmo das aulas com base em leituras emocionais ao vivo da turma. Maria, uma de nossas professoras de História, transformou sua sala de aula em um espaço de acolhimento emocional onde os alunos, pela primeira vez, descreveram aprender como uma experiência “florida” em vez de “sofredora”.
Há 20 ou 30 anos, isso poderia parecer estranho, idealista, utópico. Hoje, o emocional tem relevância como componente adicional e complementar do intelectual. A Engenharia Educacional não apenas melhora a performance acadêmica, mas forma seres humanos resilientes e socialmente responsáveis.
Por isso mesmo, não é nada utópico o nosso objetivo de escalar esse modelo para um âmbito global. Aliás, isso já está em andamento. Basta adaptar a metodologia para atender a diversos contextos culturais, garantindo que mais estudantes possam vivenciar essa (r)Evolução educacional.
A cada sucesso dos nossos alunos, testemunhamos o verdadeiro poder de uma educação integrada, em que aprender é não apenas um salto acadêmico, mas uma jornada emocional rica e equilibrada.
Assim, estudantes detêm o poder de seus próprios processos de “metilação”: ligam suas emoções e desligam a produção da exigência intelectual excessiva. No DNA do professor está o código para conduzir isso, auxiliando seus alunos e alunas nos momentos necessários para ligar ou desligar. Não por conveniência, mas por compreender que, em essência, ele aprende ensinando e ensina aprendendo — sem permitir que cobranças externas (e pressões de diversos tipos) desempenhem o papel de uma fita isolante no interruptor.

Marcel Raminelli Costa é CEO da IntegralMind, professor e engenheiro formado na Poli-USP.