Expansão dos cursos profissionalizantes e diversidade de estudantes ampliam o papel do professor na preparação para o mercado de trabalho
A educação profissional brasileira registrou cerca de 3,19 milhões de matrículas em 2025, ante 1,89 milhão em 2021, crescimento de 68,4% em cinco anos. Os dados do Censo Escolar mostram a expansão de uma modalidade que atende públicos com objetivos distintos: jovens em busca da primeira qualificação, adultos interessados em mudar de carreira e profissionais que desejam desenvolver novas habilidades. Essa diversidade também transforma o trabalho docente e aumenta a importância de aproximar o conteúdo ensinado das situações que os estudantes encontrarão no mercado.
Nesse cenário, o ensino baseado na experiência ganha espaço. Uma pesquisa citada pelo Instituto Gourmet aponta que quatro em cada dez estudantes brasileiros gostariam de ter aulas mais práticas, que combinem teoria e aplicação. A demanda ajuda a explicar a valorização de metodologias que colocam o aluno diante de situações concretas, com espaço para experimentar, testar soluções, reconhecer erros e desenvolver autonomia. O desafio, porém, não se resume a substituir explicações por atividades: é fazer da prática um caminho para compreender conceitos e construir competências profissionais.
Na educação profissional, essa mudança também exige rever o papel de quem ensina. O professor precisa considerar diferentes experiências de vida, objetivos e ritmos de aprendizagem, além de conectar os conhecimentos técnicos a problemas reais. A gastronomia oferece um exemplo dessa dinâmica, pois aprender a cozinhar envolve compreender ingredientes, dominar procedimentos, repetir técnicas e tomar decisões durante o preparo. Nesse processo, a experiência prática do educador pode ajudar o estudante a relacionar o conteúdo às exigências da profissão.
Aprender fazendo exige orientação pedagógica
No Instituto Gourmet, rede de formação em gastronomia com unidades em diferentes regiões do país, as aulas priorizam o contato com a cozinha e a execução de preparos desde o início dos cursos. A proposta permite que os estudantes experimentem procedimentos e desenvolvam habilidades progressivamente, em atividades próximas às situações que encontrarão no trabalho. A experiência ilustra como a formação profissional pode articular conhecimento técnico, aplicação e confiança para executar tarefas.
Para Claudia Genaro, consultora pedagógica do Instituto Gourmet, a diversidade dos alunos exige uma relação mais próxima entre ensino e experiência. “Hoje, o aluno não busca apenas aprender uma técnica. Ele quer entender como aquele conhecimento pode ser aplicado na vida real e quais caminhos pode seguir a partir dali. Isso faz com que o professor também precise se adaptar, ouvir mais e trazer experiências práticas para a sala de aula. Ensinar passou a ser uma troca muito maior”, afirmou.
Essa troca não elimina a responsabilidade pedagógica do professor. Ao contrário, exige que ele selecione conteúdos, explique fundamentos, demonstre procedimentos e acompanhe as dificuldades dos estudantes durante a execução. A atividade prática ganha valor educativo quando permite compreender por que determinada técnica funciona, avaliar resultados e corrigir erros, em vez de se limitar à reprodução de instruções. Cabe ao educador transformar a experiência em aprendizagem, respeitando os objetivos de cada curso e os diferentes pontos de partida da turma.
Tecnologia amplia o acesso, mas não substitui a mediação
A presença de vídeos, plataformas digitais, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial também modifica a dinâmica das aulas. Os estudantes podem chegar à formação com informações obtidas por conta própria, tutoriais e demonstrações disponíveis na internet. Nesse contexto, o diferencial docente deixa de estar apenas na apresentação de informações e passa a incluir a capacidade de avaliar a qualidade do que circula, corrigir equívocos, contextualizar conhecimentos e orientar sua aplicação.
Na gastronomia, essa mediação é especialmente relevante porque assistir a uma demonstração não equivale a dominar uma técnica. O estudante precisa praticar, observar os efeitos das próprias decisões e receber orientações para ajustar procedimentos. A experiência do professor ajuda a identificar dificuldades que nem sempre são evidentes para quem está começando e a relacionar os fundamentos ensinados às situações encontradas na rotina profissional.
O perfil dos alunos acrescenta outra camada ao trabalho pedagógico. Parte deles concilia os estudos com emprego, responsabilidades familiares e outras atividades; outros procuram uma nova fonte de renda ou desejam transformar um interesse pessoal em profissão. Para atender a expectativas tão diferentes, o professor precisa compreender as necessidades da turma e criar condições para que os conteúdos façam sentido sem perder a consistência técnica.
Para Gláucio Athayde, CEO do Instituto Gourmet, a mudança acompanha a própria transformação do mercado de trabalho. “A profissão de professor está se reinventando na mesma velocidade que o mercado que ela ajuda a formar. Hoje, mais do que transmitir uma técnica, o educador auxilia o aluno a enxergar as possibilidades reais que aquele conhecimento pode abrir, seja para conseguir uma vaga, empreender ou simplesmente mudar de vida”.
A expansão da educação profissional coloca em evidência, portanto, uma questão que vai além do crescimento das matrículas: como preparar estudantes com trajetórias e objetivos diversos para aplicar o que aprendem em situações reais. Aproximar teoria e prática é parte dessa resposta, mas depende de planejamento, acompanhamento e mediação pedagógica. Nesse cenário, o professor não perde relevância diante do acesso ampliado à informação; sua atuação se torna ainda mais importante para transformar informação em conhecimento, prática em competência e formação em novas possibilidades profissionais.










