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Na Coluna LIV de outubro, a Equipe Pedagógica do LIV discute como escuta, autonomia e convivência ajudam a construir relações de confiança com os estudantes

O que faz um estudante sentir que pode contar alguma coisa para alguém dentro da escola?

A resposta provavelmente não está em um único momento, conversa ou atividade. A confiança é um processo que se constrói aos poucos: na forma como um professor reage a uma dúvida, na maneira como um conflito é conduzido, na possibilidade de cometer um erro sem ser imediatamente julgado e até na certeza de que o silêncio também será respeitado.

A escola é, afinal, um dos principais espaços de convivência durante a infância e a adolescência. É ali que estudantes conhecem diferentes formas de pensar, precisam lidar com frustrações, estabelecem amizades, enfrentam conflitos e descobrem, pouco a pouco, como ocupar um lugar dentro de um grupo.

Por isso, falar sobre pertencimento também significa pensar na qualidade das relações que construímos nesse ambiente. 

Confiança não significa falar sobre tudo

Quando pensamos em criar espaços de diálogo na escola, existe um cuidado importante: não transformar o convite à conversa em uma obrigação de exposição.

Um estudante pode precisar de tempo antes de compartilhar uma experiência pessoal. Outro talvez participe mais observando e ouvindo os colegas. Há ainda quem esteja chegando a uma turma nova e precise compreender primeiro como aquele grupo reage à vulnerabilidade antes de se sentir seguro para falar.

No Círculo da Confiança, atividade pedagógica desenvolvida pelo LIV para os Anos Finais do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio, esse princípio faz parte da própria dinâmica. Os estudantes se organizam em roda e, a partir de uma pergunta ou de um tema, um objeto de fala circula pelo grupo. Quem está com ele pode se manifestar, enquanto os demais exercitam a escuta. 

Mas a participação não é medida pela quantidade de coisas que um aluno revela sobre si. Isso ajuda a lembrar que pertencimento não depende necessariamente de falar, mas também de perceber que existe espaço para fazê-lo quando (e se) houver vontade.

Escutar é diferente de simplesmente ouvir

A construção dessa segurança também depende da maneira como recebemos aquilo que o outro decide compartilhar.

Muitas vezes, quando alguém conta uma dificuldade, nossa primeira reação é oferecer uma solução, dizer o que faríamos naquela situação ou procurar uma experiência semelhante para contar. A escuta ativa propõe um outro exercício: sustentar a atenção sobre aquilo que o outro está dizendo, sem assumir imediatamente a tarefa de corrigir, resolver ou julgar. 

Na escola, esse aprendizado ultrapassa os momentos destinados especificamente às rodas de conversa. Ele aparece nas relações cotidianas, como quando um estudante procura um professor depois da aula, quando surge um conflito entre colegas ou quando alguém consegue dizer que determinada situação o deixou desconfortável.

Escutar, nesses casos, também comunica algo: o que você sente e pensa merece ser considerado.

Quando o estudante também é filho de alguém da escola

Existem ainda situações em que a construção desse espaço pode ganhar outras camadas. É o caso de crianças e adolescentes cujos pais também são professores, coordenadores, diretores ou ocupam outras funções dentro da própria escola.

Para esses estudantes, os papéis podem acabar se misturando. Além de ser aluno, ele pode ser conhecido como “o filho da professora”, “a filha do coordenador” ou “o filho da diretora”. E, dependendo da dinâmica construída ao redor dessa relação, podem surgir expectativas diferentes sobre seu comportamento.

Esse é um ponto que aparece na experiência de Laís, filha de Raquel, diretora do Colégio Átilla Curumin. Desde pequena, ela relata ter convivido com a pressão de ser a “aluna perfeita” por ocupar também o lugar de filha da diretora. 

Durante uma experiência com o Círculo da Confiança, encontrou a possibilidade de dividir fragilidades com os colegas e perceber que algumas das inseguranças que carregava também estavam presentes na vida de outros estudantes. Nesse vídeo do canal do LIV do Youtube, você pode conhecer mais sobre essa história.

YouTube player

O relato chama atenção para uma pergunta que pode ser importante para quem trabalha na escola: será que esse estudante também encontra espaço para ser apenas estudante?

Isso significa poder errar, ter conflitos, pedir ajuda, discordar, frustrar-se ou demonstrar vulnerabilidade sem que cada experiência seja imediatamente associada ao cargo exercido por seu pai ou sua mãe.

O cuidado não precisa partir da suposição de que todo filho de educador viverá esse tipo de pressão. Mas vale observar se, naquele contexto específico, as expectativas dos adultos ou dos próprios colegas acabam criando uma exigência adicional sobre ele.

Autonomia também é saber que podemos contar com alguém

Outra ideia que atravessa a construção de relações de confiança é a maneira como compreendemos a autonomia.

Durante a infância e a adolescência, existe uma valorização importante do desenvolvimento da independência: aprender a resolver problemas, assumir responsabilidades e tomar decisões. Isso, porém, não significa ensinar crianças e adolescentes a dar conta de tudo sozinhos.

A autonomia também pode significar reconhecer quando é necessário pedir ajuda, identificar pessoas de confiança e compreender que determinadas dificuldades precisam ser enfrentadas coletivamente.

Os próprios adultos contribuem para esse aprendizado quando demonstram que também recorrem a redes de apoio, conversam com colegas e constroem soluções em conjunto. A escola, nesse sentido, não ensina apenas pelo que explica formalmente, mas também pelas relações que seus profissionais estabelecem entre si.

Conviver também envolve aprender a lidar com conflitos

Um ambiente de confiança não é um espaço em que conflitos deixam de existir.

As discordâncias, os incômodos, as frustrações e os pontos de vista diferentes fazem parte da convivência. O papel dos adultos não é eliminar toda situação desconfortável, mas ajudar crianças e adolescentes a desenvolver recursos para lidar com aquilo que pode ser mediado. Aqui, diferenciamos esses conflitos de episódios de violência, que exigem outro tipo de intervenção.

Nesse processo, criar acordos de convivência, garantir momentos de diálogo e permitir que os próprios estudantes participem da construção desses combinados pode aumentar o senso de responsabilidade coletiva.

O Círculo da Confiança trabalha justamente com essa lógica. Ali, cada pessoa possui seu espaço, mas também assume o compromisso de respeitar o outro. O estudante aprende que ser escutado e escutar fazem parte da mesma experiência de convivência.

O educador não precisa ocupar o lugar de profissional de saúde mental

Criar espaços de escuta também exige o reconhecimento de limites.

Uma conversa pedagógica não substitui acompanhamento psicológico e o educador não precisa e nem deve assumir sozinho a responsabilidade por demandas que ultrapassam sua atuação.

Caso apareçam situações que indiquem necessidade de maior cuidado ou risco à integridade física ou emocional de um estudante, é necessário preservar sua exposição, recorrer aos protocolos da instituição e articular o apoio da coordenação, da família e, quando necessário, de profissionais especializados.

A clareza sobre esses limites também faz parte de uma relação de confiança. O aluno precisa saber que será ouvido, mas também que os adultos responsáveis agirão quando sua segurança exigir proteção.

Que espaços de confiança existem na sua escola?

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas se os estudantes têm oportunidade de falar, mas o que acontece quando eles falam.

Eles encontram julgamento ou curiosidade? Uma resposta pronta ou disponibilidade para escutar? Sentem que precisam se expor para participar? Percebem que podem pedir ajuda? Têm espaço para errar sem que aquele erro defina quem são?

Construir pertencimento não depende de uma única atividade. Ele nasce das experiências repetidas que mostram ao estudante que existe lugar para suas dúvidas, diferenças, limites e vulnerabilidades.

E, às vezes, a confiança começa em algo bastante simples: perceber que existe alguém disposto a escutar.

Quer continuar essa conversa?

No Encontro com Especialista LIV, recebemos Nanda Perim, a PsiMama, para conversar sobre uma pergunta cada vez mais presente entre famílias e educadores: por que uma geração tão conectada também pode se sentir tão sozinha?

Ao longo do encontro, falamos sobre hiperconexão, convivência, pertencimento e sobre a importância das relações para o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.

A conversa completa está disponível. Acesse este link para garantir o seu acesso ao encontro com Nanda Perim.

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