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Neste artigo exclusivo, Janes Fidélis Tomelin analisa por que a educação superior precisa formar pessoas inteiras, não apenas profissionais

Janes Fidélis Tomelin*

O início do ano letivo é um convite a ir além da volta às aulas e encarar uma pergunta essencial: o que, de fato, estamos construindo quando formamos um universitário? Em um mundo marcado por transformações aceleradas, a educação superior não pode se limitar à transmissão de conhecimento técnico ou ao atendimento imediato das demandas do mercado. Ela precisa ajudar o estudante a construir sentido para sua trajetória acadêmica, profissional e pessoal.

A universidade, nesse contexto, deve assumir um papel mais amplo na formação humana. Isso significa olhar para o estudante em sua totalidade, cognitiva, emocional, social e ética, e compreender que aprender não é apenas acumular conteúdos, mas desenvolver competências para lidar com a complexidade da vida contemporânea, marcada por incertezas, pressões e mudanças constantes.

É nesse ponto que a discussão sobre bem-estar e felicidade ganha relevância, especialmente quando tratada sob a perspectiva científica. A neurociência e a psicologia positiva demonstram que felicidade não é um estado abstrato ou um ideal inalcançável, mas uma habilidade que pode sim ser desenvolvida. Trata-se de uma competência essencial para qualquer trajetória pessoal e profissional, sobretudo em um cenário no qual cresce o número jovens que ingressam no ensino superior carregando desafios emocionais, insegurança, dificuldades de autogestão e fragilidades que impactam diretamente o aprendizado, a permanência e o desempenho acadêmico.

Esse cenário vai além da percepção empírica. Estudos recentes reforçam essa preocupação. O Global Flourishing Study, conduzido por instituições como a Universidade de Harvard e a Gallup, com cerca de 200 mil participantes em 22 países, aponta que pessoas entre 18 e 29 anos enfrentam níveis preocupantes de problemas físicos e de saúde mental, e que muitos desses jovens já se mostram insatisfeitos com a própria vida por longos períodos. Ao mesmo tempo, estamos falando de uma geração criativa, conectada ao propósito, atenta às questões sociais e disposta a transformar a realidade à sua volta.

Diante desse paradoxo, a universidade precisa assumir responsabilidade direta pela formação integral dos estudantes, repensando modelos acadêmicos, para que transformem esse campo do conhecimento, o da felicidade, em algo estruturado, acessível e integrado à formação universitária. A ciência da felicidade já é uma realidade na grade curricular de diversas instituições renomadas ao redor do mundo, como a própria Universidade de Harvard, e, nessa tendência, já começa a integrar o currículo do ecossistema das grandes empresas de educação no Brasil.

A lógica tradicional, centrada em disciplinas isoladas e na simples transmissão de conteúdo, já não responde plenamente às necessidades atuais. Avançar implica organizar a aprendizagem a partir do desenvolvimento de competências, da reflexão crítica e da construção de trajetórias acadêmicas e profissionais mais conscientes e sustentáveis, alinhadas também ao bem-estar.

Nesse processo, a inovação pedagógica e o uso de tecnologias devem seguir a mesma lógica. Tecnologias educacionais, quando bem empregadas, não substituem o professor. Elas amplificam suas competências, fortalecem a mediação humana, qualificam os processos avaliativos e permitem maior personalização da aprendizagem. O risco está em tratar a tecnologia como um fim em si mesma. Inovar, para nós, só faz sentido quando está a serviço do desenvolvimento humano e da qualidade das relações pedagógicas.

A inteligência artificial, por exemplo, tem sido incorporada de forma responsável e equilibrada para o processo acadêmico, apoiando dois pilares centrais da aprendizagem: a autonomia dos estudantes e o suporte qualificado aos docentes. Quando utilizada com critérios claros, sem esvaziar o papel central da relação humana no processo educativo, o uso da IA fortalece a prática pedagógica e qualifica a experiência de ensino e aprendizagem.

Formar profissionais competentes continuará sendo uma missão essencial da educação superior. Mas formar pessoas capazes de lidar com a complexidade, agir com consciência e construir sentido para suas escolhas é o verdadeiro desafio do nosso tempo. No início de ano, essa reflexão se torna não apenas oportuna, mas necessária para que a universidade siga cumprindo seu papel social de forma relevante e transformadora.

*Vice-presidente acadêmico da Ânima

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