Constanza Hummel traz estratégias para transformar a área de T&D em protagonista da aprendizagem corporativa e manter sua relevância no futuro do trabalho
Tenho mais de 20 anos ajudando empresas a desenvolver pessoas. Se tem uma coisa que aprendi, é que o futuro não chega de repente. Ele é construído — ou desperdiçado — todos os dias, em cada decisão ou movimento que fazemos.
Nos últimos anos, participando de congressos como ATD (EUA) e CBTD (Brasil) e, mais do que isso, colaborando com times de educação corporativa em toda a América Latina, percebi que os profissionais de T&D mais relevantes são aqueles que já entenderam que não podem mais operar no modo “atendimento de pedidos” ou “treinamento como evento”.
O mundo mudou. A forma de aprender mudou. E, principalmente, as decisões que tomarmos agora vão definir nossa relevância até 2030.
Ao analisar tendências, dados e experiências de diferentes mercados, identifiquei cinco decisões estratégicas que vão determinar se T&D continuará sendo um motor de transformação ou se ficará preso ao papel de executor.
1.De Tático para Estratégico
T&D não pode ser o departamento que “atende pedidos de treinamento”. Precisa atuar como parceiro estratégico, conectado aos indicadores que realmente movem a organização.
Pergunta Guia:
Qual problema do negócio, dos times ou dos indivíduos da organização estamos resolvendo?
Exemplo:
Em um cliente do setor farmacêutico, conectamos um programa de liderança aos KPIs de produtividade e retenção de talentos. Em seis meses, o NPS interno subiu e a taxa de turnover reduziu.
Como fazer essa virada:
- Conecte o plano de T&D aos objetivos estratégicos da empresa (OKRs, metas, desafios críticos).
- Mapeie indicadores que precisam ser movidos (NPS, turnover, tempo de rampagem).
- Traduza problemas de negócio em hipóteses de aprendizagem.
- Fale com a liderança na linguagem de impacto e negócio.
2.De Grade para Fluxo de Aprendizagem
O profissional de T&D precisa deixar de ser representado por um calendário de eventos isolados para se tornar o líder de experiências de aprendizagem contínuas e integradas ao trabalho.
A aprendizagem deve acontecer no momento e no contexto certo, alinhada aos desafios reais.
Pergunta Guia:
Como criar jornadas que mantenham a aprendizagem viva e aplicada no dia a dia?
Exemplo:
Em uma empresa de varejo, substituímos um calendário fixo por microtrilhas contínuas com mentorias, desafios práticos e apoio de plataformas integradas ao fluxo de trabalho.
Como fazer essa virada:
- Ofereça jornadas híbridas e flexíveis (curtas, práticas, digitais, presenciais e integradas ao fluxo de trabalho).
- Personalize trilhas com base em dados, mapeamentos e escuta ativa.
- Use desafios reais, projetos e interações para promover aprendizagem aplicada.
- Planeje desenvolvimento como processo, não ponto único.
3.De Feeling para Inteligência de Dados
As decisões de T&D não podem mais se basear em feeling ou tradição. É hora de operar com diagnósticos sólidos e dados acionáveis — e gerar inteligência para o negócio.
Pergunta Guia:
Quais evidências sustentam nossas decisões e mostram o retorno da aprendizagem?
Exemplo:
Em uma empresa da área de saúde, após o lançamento de um novo modelo comercial, usamos dashboards, métricas de coaching, análises de impacto em clientes e resultados financeiros para comprovar o valor do programa.
Como fazer essa virada:
- Defina indicadores de aprendizagem conectados aos desafios reais do negócio.
- Implemente coleta e análise contínua de dados (feedbacks, KPIs, IA).
- Gere relatórios estratégicos para apoiar decisões de líderes e medir evolução.
- Transforme dados em inteligência aplicável e relevante.
4.Do Urgente para o Relevante
T&D precisa equilibrar demandas imediatas com ações de longo prazo.
O Future of Jobs Report 2023 (WEF) indica que 44% das habilidades atuais serão impactadas até 2027. Já o Global Skills Report 2024 (Coursera) reforça que empresas que investem continuamente em reskilling têm 2,4 vezes mais chances de reter talentos críticos.
Pergunta Guia:
Como garantir que a agenda de hoje não comprometa a estratégia de amanhã?
Exemplo:
Em uma multinacional de bens de consumo, equilibramos o portfólio com upskilling de curto prazo (resolvendo lacunas imediatas) e programas contínuos de reskilling com foco em IA, análise de dados e novas formas de liderança.
Como fazer essa virada:
- Monitore as transformações do mercado e conecte a agenda de T&D às tendências.
- Construa matrizes de priorização de projetos com base em impacto e visão de futuro.
- Mapeie competências emergentes e cruze com necessidades atuais.
- Equilibre programas de upskilling e reskilling.
5.De Executor para Arquiteto do Futuro
O papel de T&D vai muito além de organizar treinamentos. É construir cultura, criar ambientes de aprendizagem contínua e influenciar decisões estratégicas.
Pergunta Guia:
Estamos construindo um ecossistema de aprendizagem ou apenas entregando programas pontuais?
Exemplo:
Em um projeto latino-americano, criamos comunidades de prática, mentorias e hubs de conhecimento usando o MIRO, que continuaram ativos muito além do programa formal.
Como fazer essa virada:
- Projete experiências de aprendizagem como parte da cultura e da performance.
- Participe das discussões estratégicas da empresa.
- Crie ambientes, rituais e estruturas que sustentem o aprender contínuo.
- Atue como hub integrador entre áreas e conecte necessidades, competências e inovação.
Agora é a sua vez de decidir o futuro do T&D na sua organização
2030 não está longe. Cada decisão que você toma hoje define o papel que T&D terá no amanhã.
Essas cinco decisões não são teoria. Elas são ação. São um convite para assumir o protagonismo e posicionar o T&D como motor estratégico, capaz de transformar pessoas, negócios e resultados.
O futuro não vai esperar. E você?

CEO e fundadora da Building 8. Empreendedora com mais de 20 anos de carreira na área de treinamento e desenvolvimento, fundou em 2012 a Building 8 com o propósito de apoiar empresas e profissionais a alcançarem todo o seu potencial, por meio de estratégias e experiência de aprendizagem.