Uso estratégico de dados na educação básica orienta decisões pedagógicas e fortalece a gestão escolar
A gestão de dados na educação básica deixou de ser uma discussão projetada para o futuro e passou a integrar, de forma concreta, o cotidiano de escolas brasileiras que buscam decisões pedagógicas e administrativas mais precisas. Em um país marcado por profundas desigualdades regionais e por diferentes ritmos de aprendizagem, o desafio central das instituições de ensino já não é acessar informações, mas transformá-las em ações que impactem, de fato, a aprendizagem dos estudantes.
Nesse contexto, o uso de dados se consolida como uma ferramenta estratégica para apoiar o trabalho de gestores e educadores. Além de acompanhar resultados de avaliações externas, as escolas passam a lidar com um conjunto ampliado de indicadores que ajudam a compreender a trajetória dos alunos, identificar fragilidades e orientar intervenções pedagógicas de forma contínua e contextualizada.
A consolidação dessa cultura de dados também acompanha um movimento de profissionalização da gestão educacional. À medida que as escolas ampliam sua capacidade de análise, cresce a possibilidade de alinhar decisões pedagógicas, curriculares e organizacionais a evidências concretas, reduzindo a tomada de decisões baseada apenas em percepções isoladas ou experiências individuais.
Esse processo não elimina o papel do educador, mas o fortalece. Ao transformar dados em instrumentos de leitura da realidade escolar, a gestão educacional cria condições para que professores e equipes pedagógicas atuem com mais intencionalidade, clareza de objetivos e foco no desenvolvimento integral dos estudantes.
Dados para além do desempenho acadêmico
No dia a dia das escolas, a gestão de dados educacionais se traduz no acompanhamento de indicadores que vão além das notas e dos resultados em provas. Engajamento dos estudantes, frequência, evolução por habilidades, participação nas atividades e até a estabilidade das equipes docentes passam a ser métricas relevantes para compreender o funcionamento da escola como um todo.
Esses dados permitem identificar padrões que nem sempre são visíveis na rotina acelerada da sala de aula. Ao analisar informações de forma sistemática, as equipes conseguem antecipar riscos de evasão, ajustar estratégias pedagógicas e acompanhar o progresso dos alunos com maior precisão, respeitando suas singularidades e contextos de aprendizagem.
Um exemplo desse uso estruturado de dados é o trabalho desenvolvido pelo Grupo Salta, que atua em diferentes regiões do país e lida com realidades educacionais diversas. A organização trabalha com um grande volume de informações, cruzando dados de avaliações de larga escala, como o Enem, com simulados internos e indicadores do cotidiano escolar, criando uma base consistente para orientar decisões pedagógicas e de gestão.
Segundo Erick Griep, gerente executivo de Inteligência Pedagógica do Grupo Salta, o valor dos dados está na sua capacidade de apoiar o olhar pedagógico. “O dado isolado é apenas ruído. O valor real surge quando ele é utilizado para apoiar o olhar do educador, permitindo que ele veja padrões que a rotina acelerada da sala de aula muitas vezes esconde”, afirmou.

Quando a tecnologia serve à personalização
Para Erick Griep, um dos principais aprendizados da gestão educacional em larga escala é compreender que a tecnologia deve estar a serviço da personalização, e não da padronização excessiva.
“Trabalhar com dados em escala nos dá uma perspectiva privilegiada sobre o que funciona. Hoje, conseguimos entender quais estratégias pedagógicas entregam melhores resultados em diferentes contextos regionais, e compartilhamos esses aprendizados para elevar a barra de qualidade de toda a nossa rede”, explicou Griep.
Nesse modelo, o papel do gestor educacional é traduzir dados em perguntas pedagógicas relevantes. A análise não se encerra nos relatórios, mas se desdobra em ações concretas na ponta, impactando o planejamento docente e a experiência dos alunos.
“Cabe ao gestor traduzir os dados em perguntas pedagógicas relevantes. Se a informação não vira ação na ponta, para o aluno, ela perde o sentido”, acrescentou o executivo.
Para escolas que desejam amadurecer sua gestão de dados na educação, o caminho envolve foco e simplicidade. O primeiro passo é definir objetivos claros e priorizar poucos indicadores estratégicos, organizados em três dimensões centrais: a rotina escolar, a aprendizagem dos alunos e a percepção de clima e satisfação da comunidade.
A criação de uma cultura de análise recorrente, com momentos estruturados de discussão e encaminhamentos claros, ajuda a transformar dados em ações pedagógicas consistentes. Ao integrar informações como boletins, frequência e indicadores de engajamento ao processo decisório, a escola passa a atuar de forma mais preventiva e orientada por evidências.
Ao tirar o dado do campo das projeções e trazê-lo para o centro da gestão cotidiana, a educação básica brasileira avança para um novo patamar de profissionalização. Nesse movimento, a gestão de dados deixa de ser um fim em si mesma e se consolida como um meio para fortalecer práticas pedagógicas mais equitativas, precisas e conectadas às necessidades reais dos estudantes.










