Betina von Staa discute como o repertório cultural amplia as possibilidades criativas da inteligência artificial e transforma formas de comunicar
Você já checou quantos gêneros textuais diferentes estão circulando nos seus feeds das redes sociais?
Deixa eu contar como vai o meu feed!
Tem piadinhas em vídeo com fantoches que representam as grandes lideranças globais e falam um monte de gracinha com sotaque, tem sketches em estilo de cinema-mudo com cenas com essas mesmas lideranças globais se afundando em lama, caindo do precipício, etc. Tem documentário de natureza com vídeo real de uma águia (símbolo dos Estados Unidos) lutando com um ganso (símbolo do Canadá) com uma narração rimada parecendo uma história de livro infantil. Hoje vi um resumo do discurso do Trump na ONU em forma de poema. Para mim, aparecem, também, vida de santas em formato de filme de época, filminhos com personagens de Lego e trilha sonora de country americano que explicam as guerras atuais. E – claro! – a onipresente reportagem de 30 minutos sobre um tema atual apresentada em um formato de piada que satiriza a linguagem do telejornalismo feita pelo Porchat.
Quando surgiu a possibilidade de se criar vídeos rápidos com IA, logo surgiram as preocupações típicas da última era da inovação tecnológica (a das redes sociais): “Imagine! Será fácil produzir mentiras com muita velocidade e distribuir em massa! Temos que proibir isso enquanto é tempo!” O problema incremental seria que o público poderia não distinguir imagens verdadeiras de falsas.
Na verdade, a possibilidade de criar mentiras não mudou com o advento da IA. A velocidade e o direcionamento da divulgação, também não. Essa ação continua sendo feita pelos velhos e bons algoritmos das redes que já eram turbinados por IA há muito tempo!
E, sim, é possível criar golpes de falsa identidade dos mais variados: pessoas que se passam por outras para pedir dinheiro, enganar reconhecimento facial, mostrar foto e vídeo de quem estava onde não estava ou tirar pessoas de cena, falsificar provas, burlar avaliações, mentir sobre autoria, etc.
No entanto, a criatividade humana acabou se valendo de uma outra possibilidade aberta pela IA: a de produzir imagens e vídeos com recursos gráficos sofisticados e criativos e de produzir linguagem e música complexa muito rapidamente. Aí surgem as peças criativas que estão atraindo a atenção das pessoas na rede (e aumentando o vício em telas, que já ocorria).
Vamos, agora, pensar: quem consegue criar essas peças? Alguém que pede para a IA “fazer um vídeo divertido”? Ou alguém que tem repertório cultural de cinema, arte, literatura, música, multiculturalismo, política e ciência? Certamente, as pessoas que têm um repertório cultural mais amplo conseguem fazer criações muito mais interessantes, que mesclam diferentes gêneros com alta intencionalidade comunicativa. Essas pessoas também precisam saber criar os inúmeros prompts necessários para produzir uma peça dessas e limitar o contexto de produção com referências relevantes. Pessoas com mais conhecimento próprio, têm mais capacidade de revisão das peças e clareza do impacto que querem causar.
O resultado são peças que informam de maneira cômica; que abordam temas complexos e repulsivos de maneira atraente; que divertem, entretêm, chocam, esclarecem, permitem visualizar situações e ultrapassam as barreiras comunicativas dos gêneros tradicionais mais sisudos como editorial, reportagem, artigo científico, entrevista, preleção, entre outros.
A produção dessas peças acaba sendo uma nova forma de comunicar e não se trata de mentira, mas sim de uma linguagem interessante que é visivelmente ficcional, mas é reveladora. Podem ser usadas para comunicação em massa, mas também em contexto educacional, por que não?
Se chegamos a achar que o problema da IA é que ela iria lotar nossos feeds de imitações de posts mais chatos e mais superficiais do que os posts chatos que qualquer um cria para manter o engajamento em suas redes, talvez os seus algoritmos logo percebam que, para atrair a atenção do público de verdade, será necessário ser mais criativo e menos repetitivo. E, para isso, precisaremos de IA e de muitos humanos cultos.

Betina von Staa é doutora em Linguística Aplicada e fundadora da BvStaa Tecnologia & Educação. Atua no desenvolvimento de práticas educacionais inovadoras e na gestão de relações B2B da RISE (Rede de Inovação em Saúde e Educação da UniCarioca), além de iniciativas internacionais. Foi diretora de Ética e Qualidade da Abed (2023–2024), coordenadora do CensoEAD.br (2016–2024) e responsável pela chegada da D2L ao Brasil. Também coordena o desenvolvimento de conteúdos para a Educação Básica e o ensino superior, com foco em inovação.










