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Pesquisa Pearson e AWS mostra que estudantes e empregadores valorizam a graduação, mas apontam lacunas entre acesso à IA, currículo e prática profissional

A expansão da inteligência artificial não reduziu a percepção sobre a importância do ensino superior. No Brasil, 74% dos estudantes e 74% dos empregadores consideram que os avanços da tecnologia tornam a graduação ainda mais essencial. Ao mesmo tempo, a pesquisa identifica uma distância entre o contato com ferramentas de IA e a capacidade de aplicá-las em situações reais de trabalho.

Os dados fazem parte do estudo Prontidão para a IA: construindo a ponte entre o ensino superior e o mercado de trabalho no Brasil, realizado pela Pearson e pela Amazon Web Services (AWS). A pesquisa ouviu 500 participantes no país, sendo 350 estudantes de graduação, 100 líderes do ensino superior e 50 empregadores. O levantamento integra um estudo realizado em seis mercados e também contou com entrevistas qualitativas com especialistas.

O cenário brasileiro combina alta expectativa de transformação com percepção desigual sobre a capacidade das instituições de acompanhar esse ritmo. Enquanto 76% dos empregadores esperam que as mudanças provocadas pela IA acelerem nos próximos dois anos, apenas 17% dos estudantes dizem que suas universidades acompanham grande parte ou todos esses avanços. Entre líderes do ensino superior, esse percentual chega a 38%.

A diferença aparece também na relação entre formação acadêmica e experiência profissional. Para 42% dos empregadores brasileiros, a distância entre conhecimento acadêmico e aplicação prática dificulta a contratação de recém-formados. Outros 42% apontam a falta de experiência prática com ferramentas de IA no trabalho como uma barreira.

Os resultados sugerem uma mudança naquilo que se espera do ensino superior. O diploma mantém seu valor, mas precisa estar associado à capacidade de aplicar conhecimentos, utilizar tecnologias com responsabilidade e demonstrar competências diante de situações concretas. A questão passa, portanto, pela conexão entre universidade e mundo do trabalho.

Ensino superior mantém valor, mas precisa aproximar teoria e prática

O interesse por uma formação que combine universidade e experiência profissional reforça essa mudança. No Brasil, 53% dos estudantes, 52% dos empregadores e 49% dos líderes do ensino superior demonstram interesse por modelos híbridos. A preferência indica demanda por percursos que aproximem aprendizagem acadêmica e situações encontradas no cotidiano profissional.

A percepção dos empregadores também ajuda a dimensionar essa expectativa. Entre eles, 44% priorizam a capacidade de utilizar ferramentas de IA durante processos de contratação. Outros 44% consideram especialmente importante compreender os riscos e as limitações dessas tecnologias. O dado mostra que a familiaridade com ferramentas não esgota o que o mercado espera de um recém-formado.

A própria percepção sobre os novos profissionais apresenta sinais positivos. Segundo 54% dos empregadores brasileiros, os recém-formados atuais chegam mais preparados do que aqueles contratados cinco anos atrás. A agilidade para aprender aparece como ponto forte para 58% dos empregadores, enquanto 52% destacam a capacidade de utilizar ferramentas digitais e de IA.

Há, porém, uma diferença entre essas competências e outras capacidades valorizadas no trabalho. Apenas 18% dos empregadores classificam como excelente a criatividade e o pensamento inovador dos recém-formados. O percentual fica abaixo da média de 27% registrada nos mercados analisados pela pesquisa.

Esse resultado ajuda a deslocar a discussão sobre preparação profissional. A formação para um mercado impactado pela inteligência artificial não depende apenas de ensinar o funcionamento de novas ferramentas. Ela também envolve criar situações em que estudantes possam resolver problemas, tomar decisões, testar hipóteses e demonstrar competências que não se resumem ao domínio tecnológico.

Acesso à IA ainda não significa preparo para utilizá-la

A distância entre acesso e preparo aparece com força na experiência dos estudantes. Apenas 47% dos graduandos brasileiros estão satisfeitos com a quantidade de conteúdos relacionados à inteligência artificial presentes em seus currículos. Esse foi o menor percentual registrado entre os mercados analisados na pesquisa.

Ao mesmo tempo, entre 55% e 66% dos estudantes brasileiros utilizam ferramentas de IA obtidas por conta própria, fora das opções disponibilizadas pelas instituições. O dado revela uma experiência tecnológica que nem sempre passa pelas estruturas acadêmicas. A prática existe, mas pode ocorrer sem orientação institucional sobre limites, possibilidades e responsabilidades.

A falta de transparência aparece em outro indicador. Trinta por cento dos estudantes afirmam não se sentir confortáveis para contar aos professores que utilizam inteligência artificial. Foi o maior percentual de uso não declarado entre os mercados analisados. O dado sugere uma relação ainda pouco consolidada entre estudantes, docentes e instituições em torno das práticas de IA.

As diretrizes institucionais também apresentam lacunas. Apenas 15% dos estudantes brasileiros afirmam conhecer claramente as orientações de suas universidades sobre o uso da tecnologia. Outros 42% dizem não conhecer nenhuma orientação institucional. Para além da oferta de ferramentas, a questão envolve estabelecer referências que ajudem estudantes e professores a compreender quando, como e com quais limites utilizar a IA.

Entre os líderes do ensino superior, o investimento também aparece de forma desigual. Apenas 28% consideram significativos os investimentos de suas instituições em inteligência artificial, enquanto 16% os classificam como mínimos ou inexistentes. A diferença entre adoção individual e estrutura institucional coloca pressão sobre universidades que precisam responder a uma tecnologia em rápida transformação.

Governança passa a fazer parte da formação profissional

A pesquisa também chama atenção para os riscos associados ao uso pouco crítico da inteligência artificial no início da carreira. Entre os empregadores brasileiros, 34% apontam hábitos inadequados de utilização da tecnologia entre recém-formados. Dependência excessiva e aceitação sem análise dos resultados produzidos pela IA aparecem entre os comportamentos mencionados.

Esse ponto aproxima a preparação tecnológica de uma discussão sobre competências. Saber utilizar uma ferramenta não significa necessariamente saber avaliar seus resultados, reconhecer limitações ou decidir quando seu uso é adequado. Para o ensino superior, isso amplia a responsabilidade de formar profissionais capazes de combinar domínio técnico com julgamento e responsabilidade.

Cinthia Nespoli, CEO da Pearson no Brasil, relacionou esse desafio à necessidade de aproximar educação e empresas. Segundo ela, estudantes engajados, universidades mobilizadas e empregadores atentos criam condições favoráveis para uma nova etapa da formação. A executiva defendeu ampliar o uso responsável da IA e desenvolver competências como adaptabilidade, comunicação, criatividade e capacidade de julgamento.

Paulo Cunha, diretor para o Setor Público da AWS Brasil, também apontou a necessidade de aproximar diferentes atores. Para ele, o país precisa avançar em diretrizes de governança, formação prática e parcerias entre setor público, academia e indústria. A proposta coloca a infraestrutura tecnológica como apenas uma parte de uma mudança que depende também de organização institucional e formação.

A pesquisa identifica seis pontos de atrito nessa passagem entre educação e trabalho: ritmo, conexão, capacidade, governança, experiência e competências. Em conjunto, eles mostram que a preparação para a IA envolve mais do que ampliar o acesso às ferramentas. O desafio está em criar condições para que estudantes pratiquem, apliquem e demonstrem aquilo que aprenderam em situações próximas das exigências profissionais.

Nesse cenário, o ensino superior aparece diante de uma tarefa que combina permanências e mudanças. A pesquisa mostra que estudantes e empregadores continuam atribuindo valor à formação universitária, mas esperam uma conexão mais clara entre conhecimento acadêmico e realidade profissional. A inteligência artificial intensifica essa demanda ao acelerar transformações que exigem atualização curricular, orientação institucional e novas oportunidades de aprendizagem prática.

O dado mais significativo, portanto, não está apenas nos 74% que consideram a graduação ainda mais essencial. A pesquisa indica que esse valor precisa se traduzir em uma formação capaz de preparar profissionais para usar a inteligência artificial com domínio técnico, julgamento e responsabilidade. É nessa passagem entre acesso e aplicação que se concentra parte importante do desafio do ensino superior diante da tecnologia.

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