Psicólogo foi o palestrante principal do 6º Congresso LIV e defende quatro ações urgentes para proteger crianças no mundo digital
O psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York e uma das maiores referências mundiais em saúde mental infantojuvenil, tem sido uma voz cada vez mais presente no debate sobre os efeitos do uso de telas e das redes sociais no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Autor do livro recém-lançado A Geração Ansiosa, Haidt defende que a crise de saúde mental que afeta as novas gerações não é uma coincidência; é uma consequência direta da hiperexposição ao ambiente digital.
Esse alerta foi o centro da palestra que o autor realizou no 6º Congresso Socioemocional LIV, evento para convidados que celebrou, no dia 21 de maio, no Vivo Rio, os dez anos do programa dedicado ao desenvolvimento socioemocional. Diante de uma plateia lotada de educadores, Haidt reforçou que é urgente transformar a forma como a sociedade lida com a tecnologia na infância. “Deixamos as crianças sozinhas no ambiente mais viciante já criado, sem proteção, sem orientação. Isso não tem como dar certo”, afirmou.
- 6º Congresso Socieomocional marca os 10 anos do LIV
A tese de Haidt é embasada em uma série de estudos que correlacionam o aumento dos índices de ansiedade, depressão, automutilação e isolamento social entre adolescentes, especialmente a partir de 2010 — marco da popularização dos smartphones e das redes sociais. “As redes reconfiguraram a infância, trocando brincadeiras presenciais por telas, e conexões reais por validação digital”, explicou o especialista.
Mas, se o problema é complexo, Haidt também oferece caminhos. Seu trabalho tem sido um manifesto global por quatro ações concretas que podem proteger crianças e adolescentes dos riscos digitais — ações que dependem tanto de famílias, quanto de escolas, governos e empresas. Na visão de Jonathan Haidt, enfrentamos uma epidemia silenciosa que só poderá ser revertida com mudanças estruturais e culturais. Ele propõe quatro pilares:

Detalhes da proposta de Haidt para enfrentar essa crise
Jonathan Haidt e suas teses estiveram à disposição do público presente por mais de três horas ininterruptas. A sua palestra era uma das mais aguardadas do congresso — e não decepcionou. Com uma combinação precisa de dados, humor e sensibilidade, o psicólogo desenhou um cenário que é, ao mesmo tempo, alerta e convite. “Estamos vendo uma geração mais ansiosa, mais frágil e mais solitária. E isso não é culpa dos jovens. É consequência de um mundo que deixou a infância desprotegida”, provocou.
Além da palestra de cerca de 40 minutos para contextualizar suas teorias, Haidt ainda foi entrevistado no palco do evento pela jornalista e apresentadora do Fantástico, Poliana Abrita, em uma conversa que aprofundou os pilares apresentados minutos antes. O diálogo trouxe provocações importantes, mas também mensagens de esperança sobre como é possível reconstruir uma infância mais saudável no ambiente digital.
Entre as principais recomendações defendidas pelo psicólogo está a restrição do uso de smartphones até, pelo menos, o ensino médio. Haidt elogiou muito a Lei 15.100/2025, que proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais em escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Afirmou que é melhor que a lei americana.
“É urgente que as escolas de todo o mundo adotem políticas de proibição total dos celulares durante as aulas e que governos estabeleçam uma idade mínima mais elevada para o acesso às redes sociais. Atualmente, muitos aplicativos exigem 13 anos, mas ele propõe aumentar esse limite para 16”, pontuou o especialista.
Outra proposta central é incentivar que crianças e adolescentes tenham mais tempo livre para brincadeiras ao ar livre, sem supervisão constante, retomando aspectos fundamentais do desenvolvimento social que, segundo ele, foram perdidos nas últimas gerações.
Haidt também alertou que a chegada da inteligência artificial generativa tende a agravar os problemas já causados pelas redes sociais. “Com algoritmos mais sofisticados, capazes de prender ainda mais a atenção dos usuários, os impactos na saúde mental podem se tornar ainda mais profundos e difíceis de reverter”, disse.
Suas ideias, embora apoiadas por muitos especialistas, não estão livres de críticas. Pesquisadores como Candice Odgers argumentam que os estudos sobre os efeitos das redes na saúde mental ainda são inconclusivos e que fatores socioeconômicos, desigualdade e instabilidade global também devem ser considerados. Mesmo assim, Haidt mantém a defesa de que limitar o uso de telas é uma ação preventiva urgente e necessária.