Ao vivenciar outros sistemas educacionais, gestores retornam com repertório, discernimento e visão sistêmica para decidir melhor no Brasil
Débora Thomé
Liderar educação em 2026 exige mais do que acompanhar tendências, adotar tecnologias ou replicar boas práticas. É preciso capacidade de leitura sistêmica, discernimento e repertório para diferenciar o que é estrutural do que é circunstancial em um cenário global cada vez mais complexo. Nesse contexto, as missões educacionais internacionais ganham centralidade na formação de gestores, mantenedores e lideranças educacionais.
Diferentemente de cursos, eventos ou relatórios, essas experiências colocam o educador diante de sistemas vivos, em funcionamento, atravessados por cultura, governança, políticas públicas e escolhas de longo prazo. Por isso, nos últimos anos, as missões educacionais internacionais deixaram de ocupar um lugar periférico na formação de gestores para se consolidarem como experiências estratégicas de desenvolvimento de liderança.
Em um cenário educacional cada vez mais complexo, pressionado por inovação tecnológica, bem-estar, inclusão e resultados, observar outros sistemas em funcionamento tornou-se parte essencial do processo decisório. Mais do que conhecer boas práticas, essas imersões permitem compreender como e por que determinados modelos funcionam.
A vivência em escolas, universidades, centros de inovação e eventos globais desloca o olhar do gestor brasileiro, afastando-o da busca por soluções imediatas e aproximando-o de uma leitura mais estrutural da educação. “O maior ganho de uma missão internacional não está na novidade, mas na capacidade de interpretação que ela desenvolve”, resume Lara Crivelaro, CEO da Efígie Academy e líder da Missão UK2026. “Quando o gestor entende o contexto, ele passa a inovar com mais consciência e menos improviso.”
Da Inglaterra à Ásia, passando por experiências na América Latina e nos grandes fóruns globais. Líderes educacionais brasileiros mostram que o verdadeiro impacto dessas viagens não está no que se copia, mas no que se reformula ao voltar.
O repertório que nenhuma leitura entrega à liderança educacional
Relatórios, rankings e indicadores são instrumentos importantes para orientar decisões educacionais. Mas para líderes experientes, eles não dão conta de responder às perguntas mais complexas da gestão: como as decisões são tomadas, quais tensões atravessam a liderança e quais concessões sustentam um projeto educacional no longo prazo.
É nesse ponto que a imersão internacional se torna insubstituível. Para Sonia Simões Colombo, fundadora da HUMUS e coordenadora do GEduc, o valor da missão está justamente em acessar o que não está sistematizado. “Quando o educador caminha pela instituição, observa o clima, conversa com lideranças e entende o entorno, ele passa a enxergar a educação como sistema vivo, e não como um conjunto de boas práticas isoladas.”
Segundo ela, essa vivência muda o patamar da reflexão do gestor. “A missão ajuda a compreender os efeitos colaterais das escolhas: o impacto da governança, das políticas de inclusão, da pressão por resultados. Isso não aparece em relatório nenhum, mas define o sucesso ou o fracasso de uma instituição.”
Essa leitura é reforçada por Adriana Martinelli, diretora de Conteúdo da Bett Brasil, que vê nas missões um antídoto contra o uso superficial do discurso da inovação. “A imersão mostra que inovação não é ferramenta, nem tendência. Ela nasce de cultura, de visão estratégica e de decisões difíceis. Quando o gestor vivencia isso fora do Brasil, ele passa a questionar mais e copiar menos.”
Para Adriana, o maior ganho está no deslocamento de perspectiva. “O educador volta menos impressionado com soluções prontas e mais atento às perguntas certas. Ele entende que inovação precisa fazer sentido para aquele contexto, aquela comunidade e aquela liderança.”
As falas convergem para um ponto central: missões educacionais não entregam respostas prontas, mas ampliam a capacidade crítica do líder. E, em um cenário de alta complexidade, essa talvez seja a competência mais valiosa de todas.
O que líderes aprendem ao observar outros sistemas educacionais
Embora muitas missões tenham a tecnologia como porta de entrada, o aprendizado mais profundo raramente está nos dispositivos ou plataformas. Está nos modelos de decisão, na articulação entre Estado, mercado e sociedade, e na clareza de propósito institucional.
Experiências na Ásia e na Índia, por exemplo, evidenciam a força da escala, do planejamento de longo prazo e da centralidade da educação como política nacional. “Essas viagens ajudam o gestor brasileiro a entender o papel do sistema, não apenas da escola”, observou o colunista do educador21, Guilherme Cintra, diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann. “É um choque de realidade que amplia o pensamento estratégico.”
Já missões ligadas a grandes eventos globais, como o SXSW Edu, oferecem outro tipo de enriquecimento. Para Guilherme Alves, CEO da Explore, o valor está na linguagem e nas conexões. “Essas experiências ampliam o repertório cultural e colocam o educador brasileiro em diálogo com tendências globais. Mas o impacto real acontece quando isso é interpretado à luz da realidade local.”
O denominador comum entre essas vivências é claro. Líderes retornam menos ansiosos por soluções prontas. E mais preparados para fazer boas perguntas.
Não existe missão ideal, existe a missão certa para cada líder
Missões educacionais internacionais não são homogêneas, nem devem ser. Existem viagens focadas em eventos, outras em visitas técnicas profundas. Algumas privilegiam inovação tecnológica, outras governança, inclusão ou bem-estar.
Essa diversidade amplia o campo de possibilidades para gestores educacionais, que passam a escolher experiências alinhadas ao momento institucional de suas organizações. “A missão certa não é a mais famosa, mas a que dialoga com o desafio que o líder precisa enfrentar”, sintetizou Lara Crivelaro.
Ao vivenciar sistemas distintos, o gestor desenvolve uma competência cada vez mais necessária: a capacidade de traduzir contextos, e não de replicá-los. Esse aprendizado é um dos maiores ativos profissionais que uma missão internacional pode oferecer.
É a partir dessa convicção que o educador21 passa a olhar para as missões internacionais não como eventos pontuais, mas como territórios de investigação editorial. Espaços onde governança, inovação, cultura escolar e liderança se revelam em camadas que raramente aparecem em relatórios, rankings ou discursos oficiais.

Editora-chefe e cofounder do portal Educador21










