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No retorno da coluna Transformação Continuada, George R.Stein reflete sobre autoconhecimento, acaso e aprendizagem significativa

Um começo de ano diferente

“Um ótimo final de 2025 e um começo de 2026 ainda melhor!”: foi assim que finalizei a coluna de dezembro/26.

Mas 2026 começou de um jeito diferente, em certos aspectos. Na mesma semana, recebi a notícia que pessoas que cruzaram meu caminho de maneira valiosa fizeram a passagem para uma outra dimensão. Sim, fiquei bem surpreso (não estava a par da situação de saúde de ambos), chocado e triste. Mas fiquei especialmente tocado ao relembrar de situações que tive o privilégio de vivenciar com ambos e refletir sobre como estas situações foram, anos depois, momentos de aprendizagem preciosos.

Este texto é um misto de homenagem, relato pessoal e proposta de ação educativa intencional (veja a coluna de Dez26 para maiores detalhes) para começar o ano.  Nos próximos parágrafos você terá a chance de conhecer um pouco de Valente, Paulo, das situações que vivemos, do impacto que me causaram e de como o conceito de “teachable moments” (traduzindo diretamente do inglês como “momentos ensináveis”) se transformaram em uma sugestão de criação intencional de Momentos Oportunos para Aprendizagem (MOAs), trazendo a combinação de autoconhecimento e acaso.

Valente

era o “nome de guerra” pelo qual a maioria chamava o querido Professor José Armando Valente. Tive o prazer de conhecê-lo em 2009, na época que eu cursava as disciplinas do Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo na PUC-SP. Valente, dentre tantas outras atividades, era professor colaborador do programa. 
Na época eu mal sabia das atividades, reflexões e contribuições à Educação que Valente já tinha feito.  Não irei me estender na lista (quem quiser ter uma visão mais detalhada pode consultar o cv lattes aqui), mas para o leitor que nunca ouviu falar dele, alguns fatos relevantes.

Ele foi um dos pioneiros e mais destacados pesquisadores no campo de tecnologias educacionais, quando ainda falávamos de Informática na Educação. Entre 2000 e 2005 ele já desenvolvia projetos como “O papel da informática na aprendizagem ao longo da vida” e “Qualificação de profissionais para oferta de cursos à distância. Em 2009 foi coautor de ” Educação a Distância: O Estado da Arte” 3.o lugar no Prêmio Jabuti. Além de colaborar na PUCSP, era Doutor pelo Massachusetts Institute of Technology – MIT (1983) e Livre Docente pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (2005). Professor Titular do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes, e pesquisador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED, UNICAMP).

É muito pouco provável que qualquer pessoa que esteja na área de Tecnologia Educacional no Brasil não tenha sido influenciada de alguma maneira por Valente. É praticamente impossível que qualquer pessoa ligada à tecnologias educacionais no MIT, na Unicamp e na PUCSP não tenha ficado tocado com a partida dele em janeiro.

Mas foi como orientador parcial do meu Doutorado em Educação que tive a chance de conhecer melhor Valente (Isto mesmo, foi meu orientador parcial: durante a orientação, por questões burocráticas Valente teve que se aposentar na Unicamp e consequentemente, deixar sua colaboração na PUCSP).

Valente orientava pelo exemplo:  tanto pelas instruções quanto pelas atitudes. Sempre pontual, com pauta previamente definida, chegava com o sorriso e olhar de quem sabia que a pesquisa e a escrita eram processos pessoais e que cada orientando tinha seus desafios.  Leitor atento aos detalhes, seja das normas e referências, seja das teorias e conjecturas acadêmicas, nunca deixava passar uma oportunidade de explicitar pontos de melhoria.

Do alto das suas mais de sete dezenas de anos de vida e duas dezenas de anos de pesquisa e inovação educacional, Valente intercalava momentos de energia e curiosidade para desenvolvimentos acadêmicos e projetos, com um certo nível de inconformismo da nossa capacidade social de transformar conhecimento educacional em prática efetiva no chão da escola.

Envolto na tristeza da passagem de Valente, recordei destes momentos, e percebi que foram valiosos momentos de aprendizagem.

Paulo,

ou Floriano para alguns, é Paulo Floriano: jovem que teve uma presença relativamente mais curta e menos conhecida que Valente, mas tão profundamente impactante para aqueles que o conheceram. Durante seus 45 anos de vida, teve uma trajetória profissional que impressionava todos pela maturidade, habilidade em se relacionar, trabalhar e liderar os mais diversos perfis de profissionais.

Conheci Paulo em 2008, quando trabalhávamos juntos na Terraforum Consultores: eu como consultor associado, ele como consultor e futuro sócio. Introvertido, Paulo não era de conversar muito, mas toda vez que conversava, era algo de valor. Por vezes insights e análises relevantes para projetos, questionamentos pertinentes para um melhor entendimento do contexto e/ou ironias e comentários hilários sobre o cotidiano.

Tínhamos pouco contato, mas eu acompanhava de longe a sua trajetória de sucesso como sócio da consultoria, diretor de grandes empresas, empreendedor e professor.  Ultimamente ele havia consolidado toda a experiência em trabalhar com produtos e serviços digitais em uma escola de estratégia e negócios (Produtos para Humanos Escola de Estratégia**)**, pensada para os desafios de pessoas e times de produto e design. Nos últimos 15 anos devemos ter nos falado umas 2 vezes para potenciais parcerias que infelizmente não se concretizaram.

A notícia da passagem de Paulo veio por meio de um grupo de Whatsapp dos ex-colaboradores da Terraforum: uma surpresa muito triste e avassaladora. Na sequência da notícia, chegaram também depoimentos, homenagens e histórias significativas e tocantes que, além de me emocionar, me teletransportaram para 2009. De repente lá estava eu, trabalhando em um projeto ao lado dele (um jovem profissional, 12 anos mais jovem que eu, 16 anos atrás).

Ao pedir sua opinião sobre uma apresentação que preparei, ele foi cauteloso:” — Se eu estivesse no lugar do cliente e lesse essa frase, talvez o impacto não fosse o que desejamos.” E completou, logo em seguida: “— Sei que sou introvertido, detalhista e estou fora do contato direto com a conta… mas, de qualquer maneira, acho que vale a pena você pensar a respeito.”

E ao recordar deste episódio, percebi mais um momento de aprendizagem.

Recebi a notícia da passagem de Paulo alguns dias depois de saber do Valente. Estava em férias com a família e, na noite seguinte, enquanto a família já dormia e a agitação do dia deu lugar ao silêncio e a reflexão, surgiu a semente para este texto.

De “Teachable Moments” para Momentos Oportunos de Aprendizagem (MOAs)

Surpreendi-me com a tristeza que se instalara e comecei a refletir sobre as respectivas causas. A proximidade e efeito cumulativo dos dois eventos com certeza era uma delas, mas percebi que as palavras das homenagens me tocaram e me fizeram resgatar os momentos que narrei nos parágrafos anteriores. Percebi que a surpresa e a tristeza relacionadas a ambos foram um “teachable moment”. E lembrei do conceito: situações, planejadas ou inesperadas, nas quais o interesse por parte das crianças traz uma relevância especial para a aprendizagem. Pode ser uma pergunta espontânea, um erro que explicita um caminho de compreensão, uma interrupção da vida real. Quando acontecem de forma inesperada e encontram uma pessoa educadora consciente e atenta não são distrações, são convites para aprendizagem. Naquela noite de férias não havia crianças envolvidas, a situação foi inesperada e o “teachable moment” virou um momento oportuno de aprendizagem autodirigida para mim mesmo.

Valente e Paulo eram diferentes, mais de 30 anos de diferença os separavam; um acadêmico, outro empreendedor; um de carreira duradoura e títulos em instituições de ensino, outro de empreitadas de liderança e transformação em empresas inovadoras. Mas ambos tinham algo em comum: um autoconhecimento declarado que aparecia não somente nas atitudes, mas também de forma explícita nas interações.

O fato de ambos adotarem atitudes transparentes e coerentes em momentos de troca e orientação fazia toda a diferença. Além de serem conhecedores do assunto que abordavam, conheciam e declaravam a perspectiva que estavam adotando, as razões para agir de tal maneira e o resultado esperado. Aos poucos transformei surpresa e tristeza em aprendizagem. Mas, faltava transformar a aprendizagem em transformação continuada…

Em busca dos MOAs

Como educador e colunista me permito basear em fatos e insights para compartilhar ideias, deixando em segundo plano o “rigor acadêmico” para produção de conhecimento científico: e é esta a intenção aqui.

Depois daquela noite de férias, fiquei me perguntando como seria possível criar MOAs intencionalmente. Mas se o acaso é elemento crucial de um MOA, será que existe alguma forma de educadores estarem melhor preparados para identificar e aproveitar? Sim, e os próximos parágrafos são uma parte da resposta!

MOAs são fruto do acaso. São momentos nos quais algo que não estava planejado previamente se intromete na realidade de uma atividade didática. O desafio é como identificar e lidar com o acaso: será que aquele fato é digno de uma intervenção, um reposicionamento para se tornar algo que vá compor uma situação de aprendizagem mais significativa e engajadora?  Como lidar com esse tipo de oportunidade? Creio que o primeiro passo é autoconhecimento.

Autoconhecimento para MOAs: nem todo docente tem perfil, atitude e/ou condições de se manter atento para identificar, decidir e atuar sobre situações inesperadas que possam ser significativas, caso devidamente aproveitadas. Reconheço que tenho perfil de um tipo psicológico extrovertido, criativo e positivamente conectado com situações ocasionais, especialmente favorável e identificar e lidar com MOAs. Mas sei que nem todo docente tem as mesmas características.  Neste sentido:

  • Esteja consciente das suas potências e desafios em lidar com o acaso em situações de aprendizagem
  • Decida previa e conscientemente se você tem pré-disposição e desejo para lidar com fatos não previstos como situações para aprendizagem.

Se não tiver, aproveite as próximas linhas como um convite ao desafio de tentar.

E o acaso? Se por um lado é impossível prever o que o acaso trará, por outro lado é perfeitamente possível ter claro alguns critérios para lidar com situações inesperadas, quando for necessário. Alguns elementos essenciais:

Elementos para lidar com o acaso

O objetivo de aprendizagem: idealmente a sua aula / atividade existe em função de um objetivo de aprendizagem a ser atingido. Quando o acaso acontece, é fundamental identificar “se e como” ele pode auxiliar a dar mais significado à sua atividade, conectando a ocorrência com a realidade da turma.

  • Tenha clareza do objetivo de aprendizagem que está sendo endereçado na atividade.
  • Mediante o acaso, busque uma relação possível entre o objetivo de aprendizagem e a situação inesperada que surgiu. Conecte a situação com o objetivo.

A realidade da turma de estudantes: o benefício de uma aprendizagem mais significativa e um maior engajamento se concretiza quando a situação se conecta de alguma maneira com a realidade da turma.

  • Conheça o contexto da turma no que diz respeito à interesses, realidade cotidiana, perfil dos alunos.
  • Mediante o acaso, busque uma relação possível entre o objetivo de aprendizagem, a situação inesperada que surgiu e a realidade da turma de estudantes. Conecte a situação com a realidade da turma.

A realidade do seu plano: a situação inesperada e a transformação da mesma em um MOA não podem comprometer o atingimento dos objetivos de aprendizagem que você já considerou de alguma maneira em um plano macro de atividades.

  • Lembre-se no tempo que você tem disponível no seu plano.
  • Mediante o acaso, reflita com pode ser possível investir um tempo adicional não previsto, ou ainda, alterar o plano das atividades futuras.  Crie um momento para explicitar e lidar com a situação inesperada.

É evidente que estes elementos por si só não garantem um MOA, mas a intencionalidade de pensar previamente em cada um deles, estar atento à sua disposição de lidar com o acaso e estar consciente experimentar MOAs de maneira responsável, pode ser um elemento importante de transformação continuada na sua prática.

Por fim, nunca conversei sobre “teachable moments” ou MOAs (que até este momento nunca havia surgido como uma ideia) com Valente ou Paulo e fiquei muito triste com a notícia da passagem de ambos. Mas a situação inesperada com as respectivas notícias, as memórias pessoais valiosas que tive com ambos, as férias com a família e a intencionalidade desta coluna, acabaram por moldar este texto.

Espero que você tenha muitas oportunidades de criar seus próprios MOAs!

(E muito obrigado por mais esta Valente e Paulo!)

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