Resultados mostram desempenho brasileiro praticamente estável, enquanto o uso de inteligência artificial avança mais rápido que a orientação das escolas
O Pisa 2025 expõe uma contradição que começa a atravessar a educação brasileira: a inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes, mas a escola ainda não estruturou como essa tecnologia deve participar da aprendizagem. Os resultados divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Em comparação com 2022, as variações não foram estatisticamente significativas em leitura e matemática.
A novidade desta edição aparece fora das três áreas tradicionais. O exame introduziu o domínio Aprendizagem no Mundo Digital e mediu, pela primeira vez, como adolescentes usam chatbots para atividades escolares. No Brasil, 48% dos estudantes disseram recorrer a essas ferramentas pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender, contra 46% na média da OCDE.
O problema não está apenas na frequência desse uso, mas na distância entre adoção e mediação. A TIC Educação 2024, do Cetic.Br, já havia mostrado que 70% dos estudantes brasileiros do ensino médio usuários de internet utilizavam IA generativa em pesquisas e atividades escolares. Apenas 32% afirmaram ter recebido orientação da escola sobre como utilizar essas tecnologias.
Os dados mais recentes sobre as escolas reforçam a lacuna. Na TIC Educação 2025, somente 22% das instituições tinham algum guia de orientação sobre inteligência artificial para ensino, aprendizagem ou gestão. A permissão formal para alunos utilizarem IA em atividades educacionais também permanecia limitada a 37% das escolas pesquisadas.
Para gestores, o resultado cria uma questão que vai além da escolha de ferramentas. O Pisa 2025 mostra que a escola precisa lidar simultaneamente com aprendizagens ainda frágeis e uma tecnologia que já chegou à rotina dos estudantes. A decisão passa a ser menos sobre permitir ou proibir a IA e mais sobre definir quando seu uso amplia o raciocínio e quando começa a substituí-lo.
Pisa 2025 mostra uma aprendizagem que não acompanha a tecnologia
O desempenho brasileiro ajuda a dimensionar o problema. O país alcançou 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências, permanecendo abaixo das médias da OCDE nas três áreas. Em matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível básico de proficiência, ante 69% na média da organização.
A comparação internacional também precisa ser lida com cuidado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) destaca que o Brasil está entre os países que mais avançaram desde 2006, ocupando a sétima posição entre os países comparados em crescimento acumulado em leitura e matemática e a oitava em ciências. O resultado de 2025, portanto, combina uma trajetória de avanço de longo prazo com estabilidade recente.
No cenário internacional, a pressão também mudou. A média da OCDE caiu 28 pontos em leitura e 22 em matemática desde 2015, segundo a organização. Um em cada cinco estudantes dos países da OCDE apresenta baixo desempenho simultaneamente nas três áreas, sinal de que a crise de aprendizagem não se restringe aos sistemas educacionais de menor desempenho.
A diferença é que a tecnologia já modifica a forma como os estudantes estudam antes de a escola consolidar respostas pedagógicas para essa mudança. O Pisa 2025 registrou 406 pontos do Brasil em resolução de problemas com ferramentas computacionais, numa escala em que a média da OCDE foi fixada em 500 pontos. A segunda dimensão de Aprendizagem no Mundo Digital, sobre processos de aprendizagem autorregulada, terá resultados divulgados apenas em 2027.
Ivan Pereira, CEO da Mind Lab, empresa especializada em desenvolvimento socioemocional e inovação para redes de ensino, identifica nessa mudança uma alteração importante no próprio desenho da aprendizagem. Ao comentar os resultados, ele destaca que a avaliação passou a observar a aplicação de tecnologias na resolução de problemas. “Vemos uma nova ênfase na aplicação de tecnologias para a resolução de problemas”, afirmou.
A questão, porém, não se resume a incorporar ferramentas digitais às atividades. O próprio Pisa encontrou diferenças associadas à maneira como os estudantes utilizam os chatbots. O uso frequente para pesquisar um tema, resumir textos ou produzir rascunhos aparece disseminado, mas a relação entre tecnologia e aprendizagem depende da finalidade e da mediação empregadas.
IA avança mais rápido que a orientação escolar
A distância entre uso e orientação aparece quando diferentes levantamentos são colocados lado a lado. O Pisa mostra que 48% dos estudantes brasileiros usam chatbots semanalmente para ajudá-los a aprender. Já a TIC Educação identificou que 70% dos estudantes do ensino médio usuários de internet recorrem à IA generativa em pesquisas e atividades escolares. São perguntas diferentes, mas ambas indicam que a tecnologia já ultrapassou a fase experimental para parte significativa dos alunos.
A estrutura escolar, entretanto, avança em outro ritmo. Apenas 22% das escolas pesquisadas pela TIC Educação 2025 declararam possuir um guia formal para orientar o uso de inteligência artificial. Entre as instituições que ofertam até o ensino médio ou educação profissional, a proporção chega a 28%. O Cetic.Br também identificou que 37% das escolas permitem o uso de IA por estudantes em atividades educacionais, percentual que chega a 52% entre as instituições que atendem até o ensino médio.
A diferença coloca o professor diante de uma tarefa que ganhou escala nos últimos anos. Não basta identificar se um trabalho foi produzido com auxílio de uma ferramenta. É preciso definir quais usos ampliam uma investigação, quais comprometem a autoria e quais atividades devem continuar exigindo esforço individual. O desafio passa a ser pedagógico antes de ser tecnológico.
Para Jaime Ricardo, presidente do Conselho Estadual de Educação de Goiás, os resultados do Pisa devem servir ao planejamento educacional, com atenção à formação docente e à recomposição das aprendizagens. Renato Casagrande, pesquisador em educação e presidente do Instituto Casagrande Social, chama atenção para outro ponto: respostas prontas podem reduzir o esforço necessário para ler, questionar e construir uma resposta própria.
A própria OCDE aponta que os efeitos do uso de assistentes de IA dependem da forma como essas ferramentas entram no processo de aprendizagem. O uso para determinadas tarefas pode apoiar o estudante quando combinado com orientação docente, enquanto a substituição do esforço cognitivo pela ferramenta cria riscos diferentes para a aprendizagem.
O Pisa 2025, portanto, coloca gestores diante de duas velocidades que já não podem ser tratadas separadamente: a evolução das ferramentas digitais e o ritmo de adaptação das escolas. O acesso à inteligência artificial avançou rapidamente, enquanto formação, regras e práticas pedagógicas ainda estão em construção. A questão deixa de ser apenas se a IA entra na escola e passa a envolver os limites e as condições desse uso.










