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Resultados da OCDE indicam que riqueza, gasto por aluno e vantagem socioeconômica não garantem, sozinhos, desempenho educacional

O Pisa 2025 expôs uma deterioração da aprendizagem que já não pode ser explicada apenas pela falta de recursos. O exame registrou os menores resultados médios da história da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em leitura, matemática e ciências. Mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram desta edição.

A leitura concentra uma das quedas mais expressivas. Entre 2015 e 2025, a média dos países da OCDE recuou 28 pontos, enquanto a matemática perdeu 22 pontos. Em ciências, a redução foi menor, e o desempenho permaneceu relativamente estável entre 2022 e 2025. Nos países e economias fora da OCDE, as perdas no período foram de 16 pontos em leitura e oito em matemática.

O resultado também relativiza a associação entre condição econômica e desempenho. Sistemas com maior renda nacional tendem a apresentar resultados superiores, mas essa relação perde força entre os países mais ricos. A própria OCDE afirma que a riqueza nacional explica apenas parte da variação dos resultados entre sistemas educacionais.

O mesmo aparece quando o indicador analisado é o investimento. O Pisa identifica associação positiva entre gasto acumulado por estudante e desempenho até aproximadamente US$ 85 mil. Acima desse patamar, gastar mais não aparece automaticamente associado a notas maiores em ciências. A questão passa, portanto, da quantidade de recursos para sua alocação e utilização.

Esse limite ajuda a explicar por que o debate sobre financiamento educacional precisa considerar também gestão, condições de aprendizagem, práticas pedagógicas e capacidade dos sistemas de transformar recursos em resultados. O Pisa não estabelece causalidade entre esses fatores, mas mostra que investimento elevado, isoladamente, não determina desempenho.

Vantagem social também perdeu força no Pisa 2025

A desigualdade socioeconômica apresenta outro paradoxo. Entre 2018 e 2025, a distância em leitura entre os estudantes dos quartos mais favorecido e menos favorecido da OCDE caiu de 88 para 77 pontos. A redução, porém, não representa uma aproximação produzida pela melhora dos alunos mais pobres. Os estudantes mais favorecidos tiveram uma queda maior de desempenho no período.

A mesma dinâmica aparece nos dados mais recentes de ciências. Entre 2022 e 2025, o desempenho dos estudantes favorecidos caiu oito pontos, enquanto o resultado dos desfavorecidos permaneceu estável. Em leitura, a queda foi de 20 pontos entre os mais favorecidos, contra quatro entre os menos favorecidos. Em matemática, os favorecidos perderam 14 pontos, enquanto a mudança entre os desfavorecidos não foi estatisticamente significativa.

Isso altera a leitura habitual sobre desigualdade educacional. Uma distância menor entre grupos não significa necessariamente avanço de quem parte de condições mais difíceis. Em determinados cenários, ela pode resultar da perda de desempenho entre estudantes que historicamente apresentavam resultados superiores. O indicador precisa, portanto, ser analisado junto com a trajetória de cada grupo.

O quadro ganha outra dimensão quando se observa a relação dos jovens com suas próprias expectativas. O material do Pisa aponta que, em países como Noruega, Finlândia e Dinamarca, cerca de um em cada quatro estudantes imagina alcançar um nível educacional inferior ao dos pais. O dado sugere que a discussão ultrapassa notas e envolve também expectativas de mobilidade social.

A experiência dos países ricos também impede uma explicação única para a queda. O relatório da OCDE destaca que o enfraquecimento do desempenho começou antes da pandemia em muitos sistemas. Entre os fatores associados ao cenário aparecem mudanças nos hábitos de leitura, maior exposição a telas e transformações na forma como os estudantes lidam com informação e aprendizagem.

O desafio passa da oferta para a qualidade da aprendizagem

A tecnologia entra nessa equação sem funcionar como explicação isolada. O Pisa 2025 mostra que a relação entre inteligência artificial e desempenho varia conforme a finalidade e a frequência de uso. Estudantes que recorrem à IA para tarefas específicas, como resumir textos, elaborar pesquisas preliminares ou redigir trabalhos, apresentam desempenho médio inferior em ciências aos que não usam essas ferramentas. A diferença média nesses usos específicos chega a cerca de 20 pontos.

O próprio relatório, porém, alerta contra uma leitura causal. Entre estudantes que utilizam IA para ajudá-los a aprender de maneira geral, o uso semanal aparece associado a desempenho semelhante ao de não usuários. O resultado muda conforme a finalidade, a intensidade e as oportunidades oferecidas pela escola para desenvolver competências de uso e avaliação das ferramentas.

Para Ivan Pereira, CEO da Mind Lab, a preocupação está no momento de formação das capacidades cognitivas. Na avaliação dele, estudantes podem passar a delegar à inteligência artificial etapas da compreensão de textos que deveriam desenvolver autonomamente. O desafio, portanto, não seria retirar a tecnologia da escola, mas preservar esforço cognitivo, leitura e pensamento crítico durante sua utilização.

A preocupação encontra paralelo na análise da própria OCDE. O relatório aponta queda justamente em habilidades relevantes para um ambiente informacional marcado pela inteligência artificial, como avaliar informações, estabelecer conexões entre fontes e pensar criticamente sobre aquilo que se lê. A proporção de estudantes classificados como “leitores apressados” quase dobrou entre 2018 e 2025.

O resultado internacional coloca uma questão que interessa também aos sistemas que ainda precisam ampliar investimentos. Recursos continuam sendo condição necessária para garantir infraestrutura, professores e acesso a oportunidades de aprendizagem. O Pisa 2025 sugere, porém, que a partir de determinados níveis de investimento o desafio passa a envolver com mais força a qualidade da alocação, das práticas e dos ambientes de aprendizagem.

A experiência dos países mais ricos reforça esse ponto sem reduzir a importância do financiamento. O que o Pisa 2025 coloca em discussão é a capacidade dos sistemas educacionais de transformar riqueza, infraestrutura e tecnologia em aprendizagem efetiva. Para gestores, a pergunta deixa de ser apenas quanto uma rede investe e passa a incluir o que esse investimento produz na capacidade dos estudantes de ler, interpretar, resolver problemas e formular julgamentos próprios.

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