A colunista Lara Crivelaro traz orientações para observar os rankings universitários na hora de escolher a instituição internacional sem cair em armadilhas
O uso de rankings de universidades, especialmente para estudantes internacionais, apresenta tanto um ponto de partida quanto uma armadilha. No Reino Unido, nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil, muitos estudantes são tentados a basear suas escolhas inteiramente nos rankings – uma abordagem que, sem cuidado, pode levar a uma escolha mal informada e até incompatível com suas necessidades e aspirações.
Os rankings de universidades são onipresentes e podem ser úteis; no entanto, é essencial que alunos e orientadores compreendam suas limitações e nuances antes de tomar uma decisão baseada unicamente neles.
Rankings universais, como o QS World University Rankings e o Times Higher Education, frequentemente colocam universidades de ponta como Harvard, Oxford e MIT nos primeiros lugares. Embora essas instituições tenham inquestionáveis méritos acadêmicos, essas classificações não consideram aspectos fundamentais da experiência e das aspirações de cada estudante.
Como destaca a Utrecht University ao retirar-se ativamente de rankings, capturar a qualidade e a experiência completa de uma universidade em um único número é extremamente desafiador. Esse posicionamento serve de alerta: uma classificação isolada dificilmente abarca toda a realidade da instituição, especialmente porque cada ranking utiliza metodologias distintas e ponderações de fatores variados, como citações acadêmicas, reputação entre pares, infraestrutura e recursos financeiros, que podem não refletir as prioridades de um aluno específico.
Diferentes enfoques: Reino Unido, Estados Unidos e Brasil
No Reino Unido, o sistema de rankings é muitas vezes relacionado ao prestígio histórico das instituições. Entretanto, a escolha de uma universidade no país também envolve considerar fatores como a adaptação ao clima, o sistema de ensino mais tradicional e a ênfase em cursos teóricos.
A questão torna-se ainda mais complexa quando observamos os Estados Unidos, onde o sistema de ensino superior é altamente diversificado, abrangendo desde universidades de pesquisa de elite até faculdades comunitárias e institutos técnicos com forte enfoque prático. A Princeton Review, por exemplo, também analisa universidades nos EUA, mas prioriza elementos como a qualidade de vida do aluno, o apoio financeiro e a cultura no campus, aspectos que geralmente não são refletidos nos rankings globais.
No Brasil, rankings avaliam faculdades e universidades, dando peso significativo a fatores de infraestrutura, corpo docente e taxa de empregabilidade dos egressos. No entanto, esses rankings podem não captar as mesmas variáveis de universidades internacionais ou mesmo aspectos diferenciados de algumas instituições, como inovação curricular ou parcerias internacionais.
Alguns pontos que os rankings não cobrem incluem:
- Adequação pessoal: uma universidade de alta classificação pode não ser a ideal para todos. Fatores como o clima, o tamanho do campus, a cultura local e o suporte ao estudante internacional variam amplamente. Em particular, a taxa de evasão pode ser um indicador importante de compatibilidade, revelando se a instituição atende às expectativas e ao bem-estar de seus estudantes.
- Conexões com o mercado de trabalho: a empregabilidade de um graduado é frequentemente mais influenciada pela rede de contatos da universidade e pela experiência prática obtida, e não apenas pela classificação da instituição. Isso é especialmente verdadeiro nos Estados Unidos, onde estágios, programas cooperativos e feiras de carreira são componentes essenciais para a inserção no mercado de trabalho, especialmente em áreas como tecnologia e negócios.
- Desenvolvimento de habilidades transferíveis: muitos empregadores priorizam habilidades práticas e transferíveis, como liderança, comunicação e adaptabilidade. Mesmo uma universidade bem classificada pode não proporcionar oportunidades de desenvolvimento dessas habilidades se o aluno não buscar atividades extracurriculares ou envolver-se em projetos práticos.
- Diversidade de oferta acadêmica: algumas universidades, particularmente as universidades de ciências aplicadas, enfatizam cursos práticos em detrimento da pesquisa. Na Holanda, por exemplo, tais universidades não são classificadas em rankings globais, o que pode levar a interpretações equivocadas se o aluno não souber diferenciar o enfoque prático do teórico.
Os orientadores desempenham um papel essencial ao ajudar os alunos a enxergarem os rankings como um dos vários recursos na decisão de escolha universitária, e não o único fator. Com uma análise criteriosa, os conselheiros podem orientar os estudantes a considerar variáveis complementares, como a presença de programas específicos, estágios, oportunidades de desenvolvimento de habilidades, políticas de apoio à diversidade e redes de ex-alunos. A compreensão de que as classificações fornecem uma visão relativa da instituição é essencial; os rankings são indicadores úteis, mas devem ser analisados junto com outros fatores e informações complementares.
O prestígio dos rankings universitários não deve ser desconsiderado, mas tampouco deve ser a única base para a escolha de um estudante. Cada universidade possui uma dinâmica única que pode ou não atender ao perfil e aos objetivos de um aluno. É responsabilidade dos orientadores promover uma visão crítica e abrangente, incentivando os estudantes a se aprofundarem nas características e valores das instituições que consideram. Dessa forma, os rankings passam a ser uma das várias ferramentas no processo de escolha, servindo mais como uma referência e menos como uma definição absoluta de qualidade ou adequação.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.