Skip to main content

Na Coluna Tecnologia que Humaniza, Guilherme Cintra analisa como a tecnologia pode ampliar inclusão quando atua como ponte para relações humanas

Na Coluna Tecnologia que Humaniza, costumo insistir em uma ideia simples, mas muito menos praticada do que o necessário: tecnologia só funciona em educação se for a serviço de relações humanas.

Por isso, quando li o texto do meu colega André Liboreiro, Coordenador de Articulação e Mobilização da Fundação Lemann, sobre sua experiência como professor em sua passagem pelo Ensina Brasil, vi alguém que pratica exatamente o que busco promover. E que traduziu isso em uma frase: “Tecnologia é ponte, não é destino”.

Convidei-o então para relatar sua experiência na coluna deste mês:


Tudo começa em 2019, em meu primeiro dia como professor de matemática em uma escola de ensino fundamental. Entre dezenas de alunos, estava Iasmyn, uma estudante surda, que não tinha acompanhamento de intérprete. Eu sabia Libras em nível básico, o suficiente para me apresentar, perguntar seu  nome, trocar algumas frases sobre as férias e o cotidiano. Porém, insuficiente para ensinar matemática com profundidade.

Esse detalhe importa. Porque, naquele primeiro encontro, conviviam duas sensações ao mesmo tempo: a alegria genuína de conseguir se comunicar e a frustração de perceber o limite dessa comunicação. É nesse atrito que nasce uma compreensão que muitos discursos sobre inclusão ignoram: acesso não é binário. Ele tem camadas. Você pode “incluir” alguém formalmente e, ainda assim, deixá-lo à margem da experiência real de aprendizagem.

Como descrito na frase da consultora de diversidade Vernā Myers: “Diversidade é ser convidado para a festa; inclusão é ser chamado para dançar”. Queria chamar Iasmyn para a dança, então fui pesquisar como faria isso.

Pesquisei, experimentei e rapidamente tornei o app “Hand Talk” parte da minha prática diária. Ele traduz português para Libras e foi uma ponte quando meu vocabulário não dava conta. Essa ferramenta me ajudou a planejar aulas, antecipar vocabulário antes mesmo de ir para o quadro.

No dia 24 de abril, Dia Nacional da Libras, interrompi o ensino de matemática em todas as minhas turmas. Em vez de equações, aprendemos o básico da Língua Brasileira de Sinais juntos: o alfabeto, saudações, frases simples da sala de aula. Depois desse dia, outros professores começaram a incluir sinais em Libras em suas aulas e, junto com a equipe gestora, passamos a defender a contratação de um intérprete e de um professor surdo de Libras. Em poucas semanas, todas as turmas da escola tinham uma aula semanal de língua de sinais. A cultura mudou: estudantes começaram a se cumprimentar em Libras no corredor; professores adicionaram sinais em suas aulas; famílias pediam aos filhos para ensinarem em casa.

No meu segundo ano, junto a outros participantes do programa Ensina Brasil, organizei um Grupo de Trabalho de Educação Inclusiva. Durante 12 meses, coordenei 30 educadores de diversas regiões do país. Começávamos cada encontro reconhecendo a realidade das nossas salas: os detalhes humanos, complexos e singulares que raramente aparecem em manuais de formação e construíamos nossas aulas a partir daí.

Ao longo do ano, oferecemos seis formações focadas e mantivemos um hub online com materiais. Mais de 200 educadores usaram esses recursos para planejar suas aulas para estudantes com deficiência e outros que costumam ficar às margens. O retorno mais significativo não foi sobre ferramentas, mas sobre segurança: professores se sentiam mais capazes de incluir todos os estudantes, todos os dias.

O que começou como uma “dança a dois”, tornou-se cultura em movimento.


Imagino que se você entendeu o espírito dessa coluna, tenha ficado nítido como essa história é potente e consistente..

Trabalhando em cima dos aprendizados relatados por André, alguns pontos são fundamentais para serem analisados. Por exemplo, a inclusão é uma escolha de design  –  André poderia ter focado em intervenções pontuais junto à aluna em questão e, ao invés disso, preferiu estender a comunicação para a comunidade inteira, modificando a cultura de toda uma organização. Outro ponto: a liderança é sobre coletividade, não posição – o processo se estabeleceu de forma sólida quando cada um assumiu sua posição de liderança em sua própria realidade, estendendo os efeitos para além das paredes de uma única sala de aula. E, por fim, o pertencimento acelera aprendizagem: a identidade dos estudantes no centro do processo permitiu aumento de participação e persistência no aprendizado

Com isso, ao pensarmos em como a tecnologia entra nessa história, ela tem um papel essencial e periférico. No centro estão as relações construídas. A tecnologia permite a ponte como comunicação, a criação de um repositório e as trocas.

Mas a comunidade foi criada a partir das reais relações humanas e das necessidades presentes naquele contexto.

Para mim, Guilherme Cintra, relatar o que o André fez não é celebrar um caso isolado. É usar um exemplo concreto para sustentar uma tese maior: não haverá educação inclusiva, nem “Tecnologia que Humaniza”, se continuarmos tratando acesso como uma questão individual a ser resolvida na margem. A experiência começa a mudar quando aceitamos que o desenho da experiência educativa é, ele mesmo, um ato profundamente humano.

*Com participação de André Liboreiro, coordenador de Articulação e Mobilização da Fundação Lemann

Compartilhe: