Fomos ao outro lado do mundo para trazer para vocês o que está acontecendo com educação e tecnologia no Japão.
O Japão é um país de paradoxos: um sistema público educacional que, apesar de estar em um dos países mais tecnológicos do mundo, mantém a tecnologia fora do seu centro.
Ao mesmo tempo, um sistema privado que usa tecnologia para alcançar resultados em exames.
Robótica de alta precisão convive com um país que preserva suas tradições; relações humanos-máquinas mais próximas que em qualquer outra nação.
A entrevistada desta semana é Julia Moura, fundadora do TEC Educação, que visitou o Japão e trouxe sua visão sobre esse país tão interessante e idiossincrático.
Na coluna, ela fala sobre a história da própria TEC, sobre o que a motivou a visitar o Japão, como tradição e tecnologia se mesclam no cotidiano japonês e a relação desse povo com a tecnologia, algo absolutamente distinto da nossa realidade.
Sistema paralelo privado como padrão regional
- O Japão faz parte de um grupo de países do Leste Asiático onde a cultura em que o sucesso na vida depende do desempenho em exames gera um sistema paralelo ao público
- 75% dos alunos do ensino fundamental frequentam aulas de reforço e preparação fora da escola (os chamados Jukus), contra 38% em 1976
- Isso gera trajetórias muito diferentes dependendo de quanto a família consegue investir no sistema paralelo
Escola pública tecnologicamente atrasada. E oportunidade para EdTechs
- Antes do programa GIGA School, apenas 12% das escolas tinham tablets suficientes para todos os alunos
- O Japão era o país da OCDE com menor percentual de professores que usam tecnologia em sala, apesar de ser uma das economias mais tecnológicas do mundo
- A causa: desalinhamento entre governo federal, que recomenda mas não obriga, e municípios com autonomia real mas sem capacidade técnica de implementação
- O programa GIGA School, concebido em 2018, acelerou a distribuição de dispositivos durante a pandemia, mas não trouxe formação adequada para os educadores
- Resultado: tecnologia presente, uso pouco efetivo
- Esse gap entre infraestrutura instalada e uso pedagógico real representa uma oportunidade ainda pouco explorada, já que as EdTechs japonesas têm atuado principalmente no mercado privado de reforço, não na escola pública
Entrevista
1 – Conte sobre sua trajetória como empreendedora
Eu nunca achei que fosse ser empreendedora. Na minha cabeça, empreendedorismo era coisa de rico. E tecnologia era pra quem era muito inteligente, um Stephen Hawking da vida. Eu vim de uma família emergente. Até a geração dos meus avós, a minha família era bastante humilde. Meu pai saiu do interior de São Paulo e se tornou médico. Eu vi de perto o que a educação consegue fazer na vida de uma família. Mas por muito tempo achei que tecnologia e empreendedorismo não eram lugares pra mim.
Fui mudando isso aos poucos. Fiz comunicação com bolsa parcial, queria ter feito engenharia mas achava que não teria competência. Depois me inscrevi em mais de 80 mestrados fora do país. Passei em um e consegui uma das maiores bolsas do meu ciclo. Fui para a Califórnia, numa turma com 47 nacionalidades, convivendo com donos de grandes negócios, filhos de líderes políticos, empresários internacionais. Por mais que existisse um gap social enorme, aquilo me mostrou que esses lugares existiam e que pessoas muito diferentes chegavam até eles.
A grande virada aconteceu no Quênia. Eu estava desenvolvendo um projeto de tecnologia de impacto e conheci um menino chamado John. Ele estudava mecânica sozinho numa biblioteca da comunidade e nunca tinha visto um motor de perto. Aquilo foi um momento de muita clareza. Eu percebi que aquelas pessoas não precisavam de alguém dizendo o que elas tinham que fazer. Elas já eram inteligentes, conscientes e capazes. O que faltava era oportunidade e acesso às ferramentas certas. Foi ali que decidi que precisava trabalhar com educação e que precisava construir isso no Brasil.
Voltei ao Brasil e abri uma ONG de ensino de tecnologia para adolescentes. Eu não tinha a menor noção de como funcionava uma ONG no Brasil. Fazia carreata, corria atrás de arrecadação, dava cursos imersivos em comunidades próximas de onde minha família morava. Foi um período muito intenso. E foi ali também que começou minha relação com a Eleva, antes mesmo de se chamar Salta. Alguns alunos que se destacavam nos cursos que eu dava em comunidades começaram a receber bolsas de estudo através dessa parceria. Foi uma das primeiras vezes que eu percebi uma ponte concreta entre educação tecnológica, mobilidade social e instituições privadas de ensino.
Anos depois essa relação evoluiu de uma maneira muito maior. O Grupo Salta acabou tendo um papel importante na institucionalização da TEC. Surgiu a oportunidade de transformar aquela metodologia, que ainda era muito artesanal, em uma estrutura curricular real, escalável e aplicada dentro de grandes escolas. Foi ali que a TEC deixou de ser apenas uma iniciativa de impacto e começou a se estruturar como empresa de educação tecnológica. Um amigo me disse: “você não pode ficar pedindo dinheiro pras pessoas pra fazer isso. Você precisa vender isso.” Era 2014. Ensino de tecnologia via metodologia prática ainda era algo muito distante da realidade das escolas brasileiras.
A primeira formação que dei para professores foi um fracasso absoluto. Ninguém prestava atenção. Eu era muito nova e não havia legitimidade no que eu estava falando. Pedi mais uma chance. Na segunda tentativa trouxe experiências práticas, tecnologias simples resolvendo problemas reais. E foi aí que entendi a coisa mais importante: o centro da transformação não era o equipamento. Era o professor. Sem trazer o professor pra dentro da construção, nada funciona.
Depois consegui uma bolsa para um programa de tecnologia em Nova York. Fui com uma proposta muito clara: desenvolver um material onde as pessoas aprenderiam tecnologia construindo suas próprias tecnologias com materiais simples. Passei meses trabalhando intensamente nisso. Desenvolvemos ferramentas, mecanismos e estruturas físicas com materiais ordinários. Foi ali que nasceu a visão mais forte que eu tenho até hoje: tecnologia não é tela. Tecnologia é ciência e produção de conhecimento. A criança precisa primeiro perceber que ela é capaz. Depois disso você aumenta a complexidade.
A pandemia acelerou tudo. Com as cadeias globais em colapso, a gente decidiu olhar pra dentro do Brasil. Foi aí que nasceu o TECBits, um circuito flexível sem fios e sem solda, desenvolvido e patenteado aqui. Isso mudou completamente a empresa. Hoje a TEC atua com materiais didáticos, hardware, formação docente, robótica e inteligência artificial, atendendo escolas do Brasil inteiro. Durante muitos anos a gente precisava convencer as pessoas de que ensinar tecnologia era importante. Hoje isso não precisa mais ser explicado. A gente treinou durante mais de uma década para uma onda que finalmente chegou.
2 – Que pontos mais te chamaram atenção na relação da sociedade japonesa com tecnologia?
O que mais me chamou atenção foi que a tecnologia no Japão é projetada para ser invisível. Não é pra as pessoas notarem. É simplesmente pra transformar o dia a dia numa coisa mais fácil. Você tem um banheiro incrivelmente inteligente, restaurantes onde você pede pelo tablet e um robô te serve, máquinas de conveniência em absolutamente todo lugar. Mas nada disso tem aquela coisa do espetáculo. Não tem o “olha como eu sou tecnológico”. Eu precisei ir ao Japão pra perceber que isso existe. Que é possível ter uma sociedade tecnologicamente muito avançada sem essa necessidade de mostrar isso.
Tem uma coisa que eu acho importante não confundir: quando os japoneses demoram pra adotar alguma tecnologia, não é porque não têm capacidade. O CPF digital, por exemplo, demorou um tempo pra ser adotado. Mas não era falta de tecnologia. Era uma questão de quebra de consenso, de todo mundo ter que mudar ao mesmo tempo. É resistência cultural, não limitação técnica. O Japão, em termos de eficiência tecnológica, é o país mais bem planejado que eu já estive. E eu já estive na China.
A relação com robótica me impressionou muito. Lá a robótica é pensada como solução pro envelhecimento populacional. E não estou falando só de substituir força de trabalho. Estou falando de como as máquinas podem ajudar as pessoas nas rotinas do dia a dia quando elas envelhecem. Quando você vê a comunicação de uma empresa de robótica japonesa, o robô é apresentado como um amigo, como um companheiro. Sem nenhum questionamento, sem nenhum estranhamento. É uma relação com a tecnologia completamente diferente da nossa.
O que mais resume o Japão pra mim é o Shinkansen. É o melhor sistema de trem do mundo, mas não é uma coisa nova. É uma infraestrutura aperfeiçoada durante anos e anos. E isso fala muito da filosofia deles: ser muito especializado em uma coisa e ser o melhor naquilo. Não tem essa coisa do Vale do Silício de escalar rápido e passar pra próxima. O foco é aperfeiçoamento. As coisas não davam defeito lá. A experiência do usuário era pensada em cada detalhe. É uma visão de tecnologia completamente diferente da nossa e que eu não esperava encontrar.
3 – Como o sistema educacional tem integrado tecnologia em seus processos?
O Japão me fez pensar em duas questões que bagunçaram bastante a minha cabeça.
A primeira é a relação entre robótica, envelhecimento populacional e cuidado. No Japão, isso já é uma discussão muito concreta. A robótica não aparece apenas como substituição de força de trabalho, mas como apoio à vida cotidiana de uma sociedade longeva. Ela entra como segurança para a família, como suporte para idosos e como ferramenta para preservar autonomia.
Isso aparece inclusive na educação. Crianças são expostas desde cedo a experiências que simulam o envelhecimento, seja por tecnologias imersivas, seja por dispositivos físicos que ajudam a entender limitações de mobilidade, visão, audição e coordenação. Ou seja, a sociedade prepara a criança para entender que ela também vai envelhecer. No Brasil, a gente ainda está começando a olhar para esse tema, e de forma muito tímida.
A segunda questão, talvez mais chocante pra mim, foi perceber o que acontece quando a inteligência artificial deixa de estar apenas na tela e passa a existir em objetos afetivos, físicos e cotidianos. Um exemplo discutido foi o de uma criança que interage com um bichinho de pelúcia com IA embarcada. Aquilo não é mais só uma ferramenta. É um objeto de vínculo, companhia e confiança.
Isso abre uma camada ética completamente diferente. Não estamos falando apenas de dados, processamento ou vigilância. Estamos falando de máquinas que entram em relações emocionais, especialmente com crianças e idosos. Quando a IA ganha corpo, voz, presença e aparência de cuidado, ela passa a ocupar um lugar social muito mais delicado.
O Japão está muito mais avançado nessa discussão porque já olha para robótica, IA e envelhecimento como parte da vida cotidiana. No Brasil, essa conversa ainda está distante. A gente discute IA muito pela ótica da produtividade ou da escola, mas pouco pela ótica do corpo, do cuidado, do afeto, da dependência e da vida longa.
Esse foi um dos pontos mais fortes da viagem: perceber que a próxima fronteira da inteligência artificial não é só cognitiva. É física, social e emocional.
4 – O que o Brasil pode aprender com o Japão? E o que o Japão pode aprender com o Brasil?
O que o Brasil pode aprender com o Japão é muita coisa. Senso de organização, de propósito, de respeito coletivo, de cumprimento das normas, de valorização do patrimônio coletivo. Especialização em assuntos. A gente às vezes vê um pessoal extremamente generalista, e o japonês tem uma cultura de profundidade. A nível de produtos, de robótica, eu gostei muito desse conceito de não ter essa cultura de espetáculo, que eu acho que todo o ocidente tem. A alta tecnologia é uma coisa tão distante da gente que a gente cria todo um espetáculo em cima daquilo. E isso é um comportamento de quem não tem acesso àquilo no dia a dia. Um país altamente tecnológico no seu cotidiano lida com aquilo como algo comum, normal, sem espetáculo. E isso se reflete também na pedagogia do ensino de tecnologia. O robô dançante é muito legal, mas o que ele faz? Resolve um problema prático? No Japão, a tecnologia existe para resolver um problema prático. Eu acho que isso é o mais importante que eu vi.
E também reconhecer os próprios erros. Eles foram implementar o GIGA em 2022, viram que os professores não se sentiam confortáveis, isso está amplamente documentado em pesquisas, e agora estão buscando estruturar toda a questão de treinamentos. Isso é interessante porque a gente está vendo muitos órgãos regulatórios dizendo o que deve ser feito, mas precisa ver a nível de ação como isso vai ser implementado. A capacitação do professor é essencial. As escolas no Brasil estão, em sua grande maioria, completamente despreparadas. E por estar despreparadas estão implementando ensino de tecnologia de forma esquizofrênica, que não funciona e que não respeita as normas regulatórias. Me arrepia quando eu vejo uma escola divulgando um vídeo de alunos dizendo que a principal ferramenta de pesquisa é o ChatGPT. O ChatGPT não é ferramenta de pesquisa. E fazer referência à inteligência artificial generativa no nome de um aluno menor de 14 anos é proibido pelo ECA. Se questionar e assumir quando precisa mudar a rota faz muita diferença. E isso a gente tem bastante dificuldade de fazer.
Em relação ao que o Brasil pode ensinar para o Japão, eu acho que o Brasil tem uma grande capacidade de domínio das primeiras etapas do método científico para desenvolver qualquer tipo de solução. Que é a gambiarra. A arte de enxergar as coisas não pelo que elas são, mas pelo que elas poderiam ser, e trabalhar dentro das circunstâncias que você tem. Eu vivenciei que os japoneses têm bastante dificuldade de fazer alguma coisa quando ela foge do protocolo esperado. A gente tem uma capacidade de adaptação e de flexibilidade que é muito importante, inclusive pra criança desenvolver, porque a vida não vai acontecer como a gente imagina sempre.
Em vez de olhar isso como uma coisa ruim, precisamos entender que isso faz parte da ciência. O Ernesto Oroza, designer latino, fala sobre a nossa capacidade de desobediência tecnológica. Se um professor usa um cabide como apoio para a aula digital, isso não é precariedade. É uma capacidade que poucas pessoas têm. Tem gente que quando a situação fica adversa simplesmente não consegue modificar. Então eu acho que a gente pode ensinar isso para o mundo inteiro.
EdTechs
TEC Educação – Brasil
Currículo de tecnologia com hardware proprietário, livro didático e formação docente para a educação básica
Fundada no Rio de Janeiro em 2014, a TEC nasceu como ONG de ensino de tecnologia em comunidades e evoluiu para uma empresa de educação tecnológica com soluções proprietárias desenvolvidas no Brasil. O ponto de virada foi a criação do TECBits, circuito flexível sem fios e sem solda patenteado durante a pandemia, quando cadeias globais de insumos entraram em colapso e a empresa decidiu olhar para dentro do país. O produto eliminou a dependência de laboratórios sofisticados: a aula de tecnologia passou a poder acontecer em qualquer lugar.
A TEC entrega uma solução integrada que vai do livro didático ao kit de robótica, com formação docente incluída. O currículo cobre da educação infantil ao ensino fundamental, com foco em eletrônica, pensamento computacional, programação e inteligência artificial, alinhado à BNCC Computação. A premissa central é que tecnologia não é sinônimo de tela: a criança aprende construindo, manipulando circuitos reais e entendendo o funcionamento físico dos sistemas antes de avançar para a programação.
A formação de professores é parte estrutural do modelo, não um serviço adicional. A TEC treina os docentes antes da implementação e oferece acompanhamento pedagógico contínuo via plataforma com vídeos passo a passo de todas as atividades. A empresa atende escolas privadas e públicas em todas as regiões do Brasil, com mais de 140 escolas parceiras e 33 mil alunos atendidos.
Quipper / Study Sapuri – Plataforma de videoaulas e preparação para exames do ensino médio
A Quipper foi fundada em 2010 em Londres e adquirida em 2015 pelo Recruit Holdings, conglomerado japonês. No Japão, opera sob a marca Study Sapuri, plataforma que oferece videoaulas com professores de referência nacional, exercícios e acompanhamento de desempenho para alunos do ensino fundamental ao médio. O produto nasceu para resolver um problema concreto: estudantes em regiões rurais sem acesso a juku de qualidade, os cursinhos privados que 75% dos alunos japoneses frequentam no contraturno para se preparar para os exames que determinam suas trajetórias acadêmicas e profissionais.
O modelo é por assinatura, com preço muito abaixo do juku presencial, e atende tanto alunos individuais quanto prefeituras que contratam o serviço para suas redes. Quando a Aichi Prefecture adotou a plataforma para todas as suas 183 escolas secundárias públicas, a equipe do Study Sapuri trabalhou escola a escola para formar professores e customizar o uso. A plataforma chegou a 1,57 milhão de assinantes em 2020, crescimento de 97% em um ano, acelerado pela pandemia. Fora do Japão, a Quipper opera com a marca própria, com presença nas Filipinas, Indonésia e México.
Atama plus – Plataforma de aprendizagem adaptativa por IA para juku e pré-vestibular
Fundada em 2017 em Tóquio, a Atama plus construiu seu modelo de negócio em torno dos juku, os cursinhos privados que formam o segundo sistema educacional japonês. Em vez de vender diretamente para alunos, a empresa vende para as instituições, que competem por resultados em exames de entrada e adotam tecnologia com critério claro: o que melhora a taxa de aprovação. A plataforma usa IA para construir currículos individualizados em tempo real, identificando onde cada aluno tende a travar antes que o erro apareça e sinalizando ao professor o momento certo de intervir.
A escolha de entrar pelo juku, e não pela escola pública, foi deliberada. O mercado privado tem incentivo direto de resultado e capacidade de implementação que o sistema público japonês historicamente não tem. A Atama plus está presente em mais de 3.000 juku, incluindo redes nacionais como Sundai Group e Z-kai Group. Captou US$ 74,6 milhões em duas rodadas, com participação da Temasek Holdings e da T. Rowe Price, investidores que raramente entram em edtechs de mercado local, sinal de que enxergam potencial de expansão da tese para outros países com sistemas similares de alta pressão por exames.
RareJob – Plataforma de conversação em inglês com professores online
Fundada em 2007 em Tóquio, a RareJob conecta alunos japoneses a professores nativos, principalmente filipinos, via videochamada. O modelo antecipou em uma década o que virou mainstream global: aulas online sob demanda, com professores disponíveis em horários que se encaixam na rotina dos estudantes, incluindo depois do juku, à noite. O preço por aula é uma fração do custo de professores nativos presenciais, concentrados nas grandes cidades.
O problema que a RareJob resolve é real e mensurável. Em 2023, o Japão foi ranqueado em 87º lugar entre 113 países em proficiência em inglês, e apenas 12% dos alunos do ensino médio respondeu corretamente à seção de expressão oral do exame nacional de habilidades. A plataforma chegou a mais de 1 milhão de usuários e receita em torno de US$ 64 milhões, com abertura de capital na Bolsa de Tóquio.
Compass (Qubena) – Plataforma de aprendizagem adaptativa por IA para escolas públicas
Fundada em 2015 em Tóquio, a Compass desenvolveu o Qubena com foco exclusivo nas escolas públicas regulares, o segmento que o mercado de juku não atinge. A plataforma usa IA para adaptar exercícios de matemática e outras matérias ao nível de cada aluno em tempo real, com reconhecimento de escrita à mão, compasso e régua, respeitando a forma como os alunos japoneses trabalham no papel.
O GIGA School Program, iniciativa do governo japonês lançada em 2019 e acelerada pela pandemia para 2021, distribuiu tablets e conexão de internet para quase todos os alunos do ensino fundamental e médio público do país, a um custo de US$ 3 bilhões. Com a infraestrutura instalada, a Compass estava posicionada para ser o software que aproveitaria os dispositivos. A plataforma chegou a mais de 1 milhão de alunos em 170 prefeituras e tornou-se um dos poucos casos em que o hardware do GIGA encontrou um produto pedagógico pronto para utilizá-lo.
Classi Sistema de gestão de aprendizagem para o ensino médio público
Criada em 2014 como joint venture entre a Sony e a Benesse, uma das maiores editoras educacionais do Japão, a Classi foi construída desde o início para operar como plataforma central do ensino médio público. Reúne portfólio de alunos, acompanhamento de desempenho, comunicação com famílias e gestão de tarefas em uma interface integrada.
A adoção chegou a mais de 1,2 milhão de alunos registrados, com forte presença em escolas prefecturais. A Classi levou anos para ganhar escala porque o ritmo de adoção tecnológica nas escolas públicas japonesas é estruturalmente lento: decisões de compra são descentralizadas por município, professores têm autonomia sobre o uso em sala e não há obrigatoriedade de adoção. A pandemia acelerou o processo ao criar urgência para plataformas de comunicação entre escola e família.
EduLab Plataforma de avaliação educacional com IA
Fundada em 2015 e com capital aberto na Bolsa de Tóquio, a EduLab opera no segmento de modernização de sistemas de avaliação, incluindo exames de admissão universitária e certificações profissionais. A plataforma usa IA para análise de desempenho, geração de questões adaptativas e processamento de respostas abertas. Receita em torno de US$ 42 milhões.
O contexto é determinante. O Japão tem um dos sistemas de exames de entrada mais determinantes do mundo, onde o resultado no vestibular define acesso a universidades que por sua vez definem trajetórias profissionais. Modernizar esses exames é simultaneamente um desafio técnico e político. A EduLab trabalha com instituições de ensino superior e governos locais para digitalizar processos que até recentemente dependiam inteiramente de papel e correção manual.
CoDMON – Plataforma de gestão para creches e educação infantil
Fundada em 2015, a CoDMON tornou-se a principal plataforma de gestão para creches e pré-escolas no Japão, com adoção em mais de 15 mil instituições. O produto digitaliza frequência, registros de saúde, comunicação com famílias e gestão pedagógica, processos que no setor funcionavam com cadernetas de papel.
O crescimento da CoDMON está diretamente ligado à crise demográfica japonesa. Com taxa de natalidade em queda e escassez crescente de educadores, a pressão sobre as instituições de educação infantil é alta. Automatizar a burocracia operacional não é conveniência, é condição de funcionamento. A plataforma é um caso de edtech que ganhou escala entrando pela gestão, não pelo conteúdo pedagógico, em um setor onde a dor operacional era mais urgente do que a demanda por inovação didática.
SmartEducation – Aplicativos educativos para educação infantil
Fundada em 2011, a SmartEducation desenvolve aplicativos para educação infantil, incluindo simuladores de instrumentos musicais e jogos colaborativos em grupo projetados para uso em sala de aula. Opera em parceria com a Gakken, uma das maiores editoras educacionais do Japão, o que garante distribuição em canais que uma startup dificilmente acessaria de forma independente.
O modelo é um caso recorrente no ecossistema japonês de edtech: empresas focadas em educação infantil crescem pela parceria com players estabelecidos da indústria editorial, aproveitando relações já construídas com escolas e redes de distribuição, em vez de disputar o mercado pela via do crescimento digital direto.
OriHime (OryLab) – Robô de telepresença para inclusão de alunos impossibilitados de frequentar a escola
O fundador da OryLab ficou três anos sem poder ir à escola por problemas de saúde durante a infância. Em 2012, fundou a empresa e lançou o OriHime, robô de telepresença colocado na carteira do aluno ausente. Controlado remotamente por computador ou smartphone, o robô tem câmera, microfone e alto-falante, e pode mover a cabeça e os braços para expressar presença e emoções em tempo real.
O OriHime é usado por crianças hospitalizadas, com deficiências físicas ou que não conseguem frequentar a escola por outros motivos, e está adotado por dezenas de governos locais no Japão. A OryLab expandiu o mesmo conceito para o mercado de trabalho: o Avatar Robot Cafe DAWN, em Tóquio, é operado por pessoas com condições severas como ELA que servem os clientes controlando robôs remotamente, recebendo por isso. O OriHime não é uma plataforma de conteúdo. É uma tecnologia de presença, construída para um problema que o Japão, com sua cultura de frequência obrigatória e alta pressão por comparecimento, torna particularmente urgente.
Space BD Plataforma de projetos educacionais reais lançados à Estação Espacial Internacional
Fundada em 2017, a Space BD opera como intermediária de missões espaciais comerciais e desenvolveu um braço educacional específico: o envio de experimentos reais desenvolvidos por alunos japoneses para a Estação Espacial Internacional. Escolas e universidades projetam os experimentos dentro das restrições reais de peso, temperatura e tempo de uma missão espacial. A Space BD cuida da logística de lançamento, acompanhamento em órbita e retorno dos dados.
O diferencial pedagógico é o compromisso com o real: o aluno não simula um experimento, ele o executa com as mesmas limitações que valem para qualquer missão profissional. Erros têm consequências. Resultados chegam de volta com dados reais de órbita. É aprendizagem baseada em projetos levada ao limite literal do que o conceito permite.
Artec – Robótica educacional com blocos de encaixe multidirecional
Fundada em 2011, a Artec desenvolveu o ArtecRobo, sistema de robótica educacional cujos blocos se encaixam em todas as faces, diferentemente dos sistemas convencionais que conectam apenas em eixos predefinidos. A diferença permite que os alunos construam estruturas tridimensionais mais complexas e desenvolvam raciocínio espacial de forma mais livre.
A Artec está entre os três maiores fabricantes de robótica educacional no Japão, com presença em escolas regulares, cursinhos de STEAM e competições nacionais de robótica. O produto compete diretamente com sistemas globais como LEGO Education, mas apostou em uma diferenciação técnica específica ao invés de replicar o formato dominante.
Sony Global Education – Kit de robótica e programação STEM da Sony
Criada em 2015 como divisão educacional da Sony, a Sony Global Education tem como produto principal o KOOV, kit de robótica e programação com blocos translúcidos e design premium voltado para o ensino de lógica e pensamento computacional no ensino fundamental. O posicionamento é explícito: ao contrário de kits utilitários, o KOOV investe em estética como parte da experiência de aprendizagem.
A relevância da Sony Global Education está menos nos números de adoção e mais no que representa estrategicamente: uma das maiores empresas de tecnologia do mundo apostando em educação não como responsabilidade social, mas como linha de produto. A Sony tem acesso a parcerias governamentais e distribuição em escala que startups não conseguem replicar, o que posiciona o KOOV diferentemente de outros kits concorrentes no mercado japonês.
CodeCamp – Plataforma de ensino de programação com tutoria individual online
Fundada em 2012 em Tóquio, a CodeCamp opera em dois mercados complementares: pessoas em transição de carreira para a área de tecnologia, e empresas que precisam desenvolver competências digitais em funcionários. As aulas são individuais, via videochamada, com professores que acompanham o progresso em tempo real.
Com mais de 50 mil alunos formados, a CodeCamp construiu presença no segmento de requalificação corporativa, que no Japão tem urgência estrutural: a previsão do governo é de escassez de 8 milhões de profissionais de TI até 2030. O modelo de tutoria individual posiciona a empresa entre o autoestudo por cursos gravados e o treinamento presencial, em um mercado onde a relação personalizada com o instrutor tem peso cultural significativo.
WonderLab Aplicativo de desenvolvimento de pensamento lógico para crianças
Fundada em 2014, a WonderLab desenvolve aplicativos focados em raciocínio lógico para crianças em idade pré-escolar e fundamental, com foco em “aprender a pensar” antes de aprender conteúdo específico. Com mais de 2,5 milhões de usuários globais, é uma das poucas edtechs japonesas com distribuição internacional relevante desde os primeiros anos.
O posicionamento vai na direção oposta à lógica dos juku: ao invés de preparar para exames, propõe desenvolver capacidade de raciocínio de forma independente do conteúdo curricular. É um produto voltado para pais que buscam desenvolvimento cognitivo fora da pressão por desempenho acadêmico imediato, um nicho pequeno mas crescente no Japão.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










