Assim que comecei a estudar sobre o uso de tecnologia para resolução de problemas sociais em larga escala, me deparei com um conceito fundamental:
Um aluno não é só um aluno. Ele também é um paciente. E um beneficiário de programas de assistência. E um usuário de transportes.
Em resumo: ele é um cidadão.
Ao organizar governos em silos para facilitar a gestão, acabamos por dificultar a jornada dos nossos próprios cidadãos.
A entrevista de hoje é com um empreendedor que entende isso na prática. Tiago Giusti trabalha com dados que integram educação e assistência social, atendendo mais de uma centena de municípios.
Além disso, seu modelo de negócio parte de um software open source. Como ele mesmo diz, um código não é um produto. Um produto não é uma empresa. E é dessa maneira que ele começa a explicar como funciona um negócio baseado em código aberto.
A conversa é fascinante e percorre os desafios não só do open source como do setor público.
Vemos ainda soluções abertas e governamentais para problemas similares vindas de lugares como Austrália, Peru, Chile e até mesmo uma coordenada pela UNESCO.
1 – Conte a trajetória que te trouxe até aqui.
Gosto dessa pergunta, porque lembrar de quem estava ali em cada fase é o que me sustenta quando o trabalho fica difícil.
Nasci em Jacinto Machado, uma cidade pequena no interior de Santa Catarina, filho de duas pessoas que explicam a Portábilis melhor do que qualquer pitch que eu tenha feito nesses mais de 15 anos.
Minha mãe, dona Maria, foi professora da rede pública por 33 anos. Foi ela que me alfabetizou, na escola, e eu virei aquele aluno que os colegas achavam privilegiado por ter a professora em casa para ajudar na tarefa. Mal sabiam que a barra comigo era bem mais alta.
Meu pai, seu Hélio, assinava apenas como agricultor, e foi o maior líder que eu conheci. Passou a vida organizando gente: escola para alfabetizar agricultor adulto, cooperativa para mulheres empreenderem, cooperativa de crédito para o pequeno produtor se financiar. Depois virou vereador. Cresci vendo ele ir de propriedade em propriedade explicando por que valia a pena aprender a ler e se organizar como classe.
Hoje minha empresa trabalha em duas políticas públicas: Educação e Assistência Social. Levei muito tempo para perceber que eu não escolhi isso. Eu só continuei o assunto da minha casa.
A outra coisa que veio de lá, e que eu só fui enxergar muito depois, é que nunca teve dinheiro para comprar caminho. Então eu aprendi cedo a procurar a porta que já estava aberta.
Foi assim que cheguei na computação, aliás. Minha família é de músicos, mas aos 10 anos tive os primeiros contatos com um computador e aquilo me fascinou. Só que curso de informática custava caro. Aí eu descobri que quem entrava na orquestra municipal ganhava o curso de graça, e me esforcei para virar tecladista por causa disso. Não criei nada, não paguei nada: entrei numa estrutura que já existia e usei o que ela oferecia.
Meu primeiro emprego foi no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jacinto Machado, e foi ali que eu vi de perto o que uma política pública faz na vida de alguém. À noite eu dava aula de informática, e foi assim que juntei dinheiro para entrar em Ciência da Computação na UNESC. Mudei para Criciúma, onde moro até hoje, e ainda no começo do curso entrei na Betha Sistemas, uma das maiores empresas de tecnologia para gestão pública do país, onde aprendi a construir produto e serviço para governo.
Quando a Portábilis nasce, em 2009, eu faço de novo a mesma coisa do curso de informática, só que em escala de empresa. Não desenvolvemos software nenhum do zero.
Eu conhecia o Portal do Software Público Brasileiro e encontrei lá o i-Educar, um sistema de gestão escolar feito pela Prefeitura de Itajaí e publicado sob licença livre. Peguei aquilo e decidi construir a empresa, e não a tecnologia. Os primeiros clientes vieram em 2010, aqui no sul de Santa Catarina.
E aí veio a decisão mais estranha da minha trajetória. Naquele mesmo ano, com a empresa recém aberta, eu aceitei ser Secretário de Administração e Finanças de um município catarinense, e fiquei até 2012. Na Betha eu tinha aprendido a construir para o setor público. Ali eu aprendi como o Estado funciona por dentro: planejamento, orçamento, compra pública. Foi quase um MBA que eu paguei para entender o meu cliente, e com o tempo virou um diferencial da empresa para navegar a complexidade da compra pública.
De lá para cá foi código aberto e muita teimosia, porque nesse mercado uma coisa não anda sem a outra: são muitos anos atravessando troca de gestão, ciclo eleitoral e disputa de edital. Hoje somos cerca de 145 municípios em mais de 20 estados, e o i-Educar é o maior projeto open source de gestão educacional da América Latina.
Mas em algum ponto dessa curva eu bati numa parede que mudou a empresa.
A gente estava qualificando a gestão da rede: matrícula em ordem, Censo Escolar entregue em dias em vez de semanas, professor com menos papelada. Tudo isso importa e continua importando, mas é tudo o que acontece dentro da escola. E, no Brasil, cerca de metade do que explica o desempenho de um aluno acontece fora dela. É por isso que o resultado de uma criança ainda varia tanto conforme a cor da pele, o CEP e quanto dinheiro a família tem. Por melhor que seja a gestão, ela sozinha não alcança essa outra metade.
A conclusão foi incômoda: para a escola cumprir a função dela, alguém precisa olhar para o que acontece fora dela. E, na maioria dos municípios, alguém já olha. Só que esse alguém está na Assistência Social e não conversa com a Educação. A gente já atuava em Assistência Social desde 2011, mas foi essa constatação que mudou o que a gente faz com os dois lados juntos. É assunto da próxima pergunta.
Hoje o portfólio foi muito além do i-Educar, e o que mais mudou foi para quem a gente olha: além da secretaria e do professor, a decisão do gestor sobre onde construir a próxima escola, como zerar a fila da creche e quais alunos estão em risco agora, ainda dentro do ano letivo.
Na prática, hoje a gente organiza as rotinas da Educação de um município, organiza os atendimentos da Assistência Social e faz as duas conversarem. A ambição é virar infraestrutura pública digital de um município: a base que garante que nenhuma criança se perca no meio da trajetória escolar, e que a família que hoje é atendida pela proteção social consiga, a partir dali, caminhar sozinha.
E nada disso foi sozinho. Em 2018 veio o apoio do Instituto Lemann para abrir o código da nossa ferramenta do professor, e mais ou menos junto eu fui reconhecido como Talento da Educação pela Fundação Lemann. Cheguei lá do mesmo jeito de sempre, por relação: alguém que conheci em 2009 me apresentou a outra pessoa, que me apresentou a outra, que trabalhava na Lemann. Depois vieram a Yunus, que fez da Portábilis a primeira startup 100% B2G que investiram, e a Bossa Invest em 2025.
2 – Por que adotar o modelo open source? Quais suas vantagens e seus desafios?
Trabalhar com open source é passar sua vida empreendedora desfazendo mitos. Com o mercado e com o cliente.
A pergunta que eu mais ouvi nesses anos todos é essa: se o software é aberto, se está lá no GitHub de vocês, disponível para qualquer um baixar, por que vocês cobram e por que contratá-los?
Vou começar por ela, porque a resposta explica todo o resto. A questão aqui é liberdade, não preço. O Richard Stallman, que fundou o movimento do software livre, resume assim: free as in free speech, not as in free beer. Liberdade de expressão, não cerveja de graça.
Código não é produto, e produto não é empresa. O município pode baixar o i-Educar hoje e ele não vai rodar sozinho. Alguém precisa hospedar, cuidar da segurança, atualizar, corrigir, treinar professor, garantir que a matrícula do Censo Escolar feche certo em julho. Um secretário de educação de uma cidade do interior do Rio Grande do Norte adotou o i-Educar com outro fornecedor, não chegou no mesmo resultado, e desabafou com um cliente nosso do mesmo estado. A pergunta dele foi: como assim eu não consigo os mesmos resultados se estou usando os mesmos meios? Porque os meios são iguais e a implementação e as capacidades da rede não são.
E tem outra coisa que tenho mencionado: a gente não mantém o i-Educar aberto por romantismo, por defesa das quatro liberdades do software. A gente mantém porque existem vantagens concretas que só o modelo aberto entrega.
A primeira foi para a nossa própria fundação, e eu já contei: em 2009 o código aberto permitiu que uma empresa sem produto e sem capital chegasse ao mercado. A segunda apareceu depois, e é a que mais pesa hoje: código aberto é vantagem real na parte mais difícil do nosso mercado, que é a compra pública.
A terceira vantagem é do município, e é a menos comentada. Com código aberto, o ente público troca de fornecedor sem trocar de solução. Quem já viveu uma migração de sistema numa secretaria sabe o tamanho disso: paga a migração, paga o treinamento de centenas de servidores de novo, perde histórico e ainda quebra o serviço na ponta, para a família. É o que o mercado chama de custo de troca, switching cost, e no setor público ele é altíssimo. Com código aberto, ele praticamente desaparece.
E isso tem respaldo de sobra: tribunais de contas, TCU, BID, o movimento europeu Public Money Public Code, que pergunta por que software pago com dinheiro do contribuinte não é software público, e a agenda de bens públicos digitais da ONU.
Mas pra mim o maior ganho disso tudo ainda é a confiança.
A Fernanda Campagnucci, que dirigiu a Open Knowledge Brasil, tem uma formulação que eu adotei e parafraseei: primeiro a gente abriu o orçamento e as contas públicas. Depois abriu os dados do governo. Falta o último cadeado, que é o software, a infraestrutura que faz o Estado funcionar.
A gente vive uma crise crônica de confiança nas instituições, e instituição fica mais forte quando fica mais aberta. Num cliente nosso, qualquer pessoa pode auditar o algoritmo que decide a ordem da fila da creche. Agora imagina fazer isso com o cálculo do seu IPTU, ou com a concessão de um benefício social.
Agora os desafios, que são grandes.
O primeiro é cultural. Por muito tempo código aberto foi lido como software sem valor, e virou sinônimo de baixa qualidade. É injusto e é meio verdade ao mesmo tempo, porque existe open source péssimo como existe proprietário péssimo. E existem implementações mal feitas do próprio i-Educar que sujam o nome do projeto sem que a gente tenha controle.
O segundo é o desafio real, e é estrutural: sustentação e financiamento. Projeto aberto não vive de amor. Vive de gente usando, adotando, implementando e pagando alguém para manter. Quando isso falta, o projeto envelhece, ou o mantenedor decide fechar a licença e quem tinha adotado fica desassistido. Já aconteceu com projetos enormes, usados por meio mundo. É por isso que existem mecanismos como o GitHub Sponsors: alguém tem que pagar a conta da manutenção.
E é aqui que mora o paradoxo que eu defendo, e que soa estranho para quem olha só pela lente da competição e das barreiras de entrada: eu quero mais empresas dentro do ecossistema do i-Educar, não menos. Quanto mais município demandando, mais usuário, mais implementador, mais valor a comunidade tem e mais chance de futuro ela tem.
O que mata um projeto aberto é ficar sozinho. Estamos nisso desde 2009, e posso dizer com tranquilidade: cada linha de código que a gente devolveu para o projeto voltou para nós em resultado.
3 – Vocês já atuam há algum tempo integrando dados de áreas que vão além da educação. Por que?
Não foi diversificação de portfólio, mas também não foi um plano que já estava pronto no primeiro dia. A Assistência Social entrou em 2011, dois anos depois de fundarmos a empresa, assim que sobrou o primeiro dinheiro para desenvolver produto próprio. Na época era mais intuição do que tese. A tese veio depois, quando eu entendi que educação não é só o que acontece dentro da sala de aula, e que o pedagógico sozinho não dá conta. Foi aí que fiz uma pós-graduação inteira em Gestão do SUAS, para entender direito a política que a gente tinha decidido atender.
Eu comentei antes que metade do que explica o desempenho de um aluno acontece fora da escola. O Unicef coloca de um jeito que eu uso muito: a educação é a principal ferramenta de superação da pobreza, e a pobreza é justamente o que impede a criança de chegar na escola, permanecer nela e aprender. O que quase ninguém repara é que o município, na maioria dos casos, já sabe o que está acontecendo lá fora. Só que quem sabe não é a Educação.
O problema é operacional e é banal. A professora percebe que a criança sumiu. O CRAS já atende aquela família há meses, sabe que a mãe perdeu o emprego, que mudaram de endereço, que tem violação de direito dentro de casa. São dois serviços da mesma prefeitura, muitas vezes no mesmo bairro, com dois sistemas, dois cadastros e nenhuma conversa entre eles. A criança some no vão.
Em 2023 a gente rodou um experimento em Criciúma para atacar exatamente isso. O desafio que a prefeitura trouxe era específico: descobrir quais crianças a Assistência Social tinha atendido, encaminhado para a Educação, e que nunca chegaram na escola.
A gente costuma contar pela história da Maria e do João, mãe e filho imigrantes, invisíveis para o sistema educacional. O CRAS atende os dois e encaminha o João. A notificação aparece dentro do i-Educar, na tela de quem faz matrícula. O João é matriculado, e o CRAS recebe de volta a confirmação de que ele chegou.
Em poucos meses, esse canal garantiu o direito de acesso à educação para crianças e adolescentes de 15 famílias em situação de vulnerabilidade. Algumas dessas crianças estavam havia seis meses fora da escola.
É pouco em número absoluto, e eu faço questão de dizer que foi um experimento. Mas criou um protocolo de comunicação entre duas secretarias que não tinham nenhum, rendeu um atestado de capacidade técnica emitido pela própria prefeitura, e depois puxou o Conselho Tutelar e o Conselho de Direitos da Criança para dentro.
Foi daí que veio também o IDEA, uma iniciativa nossa para permitir análises que nenhuma das duas áreas consegue fazer sozinha. Juntando os dados da Educação com os da rede de proteção social, dá para ler como frequência e desempenho se comportam ao lado de fatores como trabalho infantil e outros marcadores de vulnerabilidade e risco social. É uma leitura sistêmica: os fatores aparecem conectados, e o gestor consegue decidir onde agir primeiro.
Hoje somos 72 municípios na Educação e 73 na Assistência Social: mais de 500 mil alunos, 24 mil professores da rede pública e 440 mil famílias em situação de vulnerabilidade social. É essa base que torna o cruzamento possível.
E é essa mesma lógica que está por trás do que estamos construindo agora, o Evasão Zero, com uma tese que nasceu em 2019 num laboratório de dados do Social Good Brasil. O sistema percebe a falta pela frequência, abre o caso, conversa com a família e tenta identificar qual é a barreira. Quase nunca a barreira é pedagógica: é saúde, transporte, trabalho, conflito dentro de casa. Quando o sinal é grave, o motor para e chama uma pessoa. E os dados dos nossos clientes mostram por que isso importa: redes que usam exatamente o mesmo processo de busca ativa têm taxas de retorno que vão de 12% a 87%. Mesmo sistema, mesmo roteiro, e um resultado sete vezes maior de uma cidade para a outra. A diferença não está na ferramenta, está em quantas famílias aquela equipe consegue ligar, procurar e visitar antes de esgotar.
E a resposta, no fim, é simples. Nenhuma escola resolve sozinha o que acontece fora dela. Mas a prefeitura não precisa descobrir nada de novo: a informação já existe, está do outro lado da rua, com outro servidor público, em outro sistema. Fazer esses dois lados conversarem é a coisa mais barata e mais rápida que um município pode fazer por uma criança.
4 – Quais os maiores desafios que uma edtech focada no setor público enfrenta?
Você mesmo trouxe o dado: quase 80% dos alunos da educação básica estão na rede pública, e só 4% das edtechs chegam neles. O setor que mais precisa é o que menos tem gente construindo para ele. E isso tem motivo.
O primeiro é que “vender para o governo” já é uma frase errada. Em govtech, é o governo que compra. Muda tudo, porque a decisão acontece dentro de um rito que você não controla.
São dois funis em série. O comercial leva de dois a três meses. O editalício, de sete a nove, e às vezes o ciclo inteiro passa de dois anos. Quando você acha que fechou, o bastão sai da sua mão e vai para a do Estado. É aí que a maioria desiste ou não faz ideia de como navegar.
Some a isso a instabilidade: o influenciador da decisão da semana passada pode não estar lá na semana seguinte. No nosso dado, em 2025, metade dos clientes que saíram saiu por decisão política. Produto foi 16%. E o contrato médio dura 4,3 anos, o que parece estabilidade, mas se sustenta em aditivos. Uma hora o ciclo fecha e você volta para a disputa, às vezes por outro instrumento, quando o que entrou por dispensa precisa virar pregão. Aqui você reconquista o cliente o tempo todo.
Mas se eu tivesse que apontar um desafio estrutural, seria a capacidade do Estado de comprar.
O município, principalmente o pequeno, tem dificuldade de traduzir um problema em especificação técnica. E isso é meio contraintuitivo quando você para para pensar: a gente espera que o Estado defina o problema e a solução ao mesmo tempo, sendo que isso é competência de gente de produto. Aí o processo sai frágil, entra fornecedor que não entrega, e o município fica anos com uma solução que não resolve.
A lei não é o problema. O arcabouço para comprar bem já existe e é pouco usado. O que trava mesmo é a insegurança de usar.
Mesmo assim, enxergo sinais positivos. Por exemplo, cada vez mais município usa o Marco Legal das Startups. O procurador Rafael Fassio publicou agora o levantamento do Observatório do CPSI: 293 contratos para solução inovadora mapeados desde 2021, e só 33 viraram contrato de fornecimento. É pouco, mas era 16 até o ano passado. É aprendizado institucional acontecendo devagar.
E depois de entrar vem o desafio de ficar. Você atende realidades muito diferentes com o mesmo produto. Já teve rede de 40 mil alunos pedindo que o sistema sorteasse vaga de creche, sendo que a legislação nacional já define os critérios de prioridade. A gente acabou apoiando a rede a traduzir aquilo na regra local, que é uma decisão de política pública. E tem rede de 2 mil alunos que quer produto sob medida sem pagar por isso. Segurar os dois lados sem virar consultoria ou fábrica de software é exercício diário.
E tem o desafio do qual quase ninguém fala. Vender para o governo do jeito que a lei manda, e não do jeitinho, é uma escolha que você refaz todo mês. Código de ética e compliance não deixam ninguém imune ao contato com o fisiologismo, que é quando o interesse pessoal passa na frente do interesse público.
O Anderson Morais, da AgendaEdu, que já passou por essa sua coluna, me chamou uma vez de papa das vendas para governo. Não soube o que responder, porque de dentro a sensação é sempre de que não estamos fazendo o suficiente. Mas hoje eu entendo melhor. O que a gente construiu nesses anos foi reputação, e reputação aqui é o único ativo que não dá para recomprar depois.
Resumindo: construir o produto já é difícil, e nesse mercado ele é só o começo do trabalho. Por isso são só 4%. E é por isso que eu acho que quem está à frente da escola pública deveria ser chamado de herói, porque faz isso com recurso limitado e incerteza extrema, todo dia.
5 – Alguma crença forte que sua experiência acabou por mudar?
Quando eu comecei, eu acreditava no que praticamente todo mundo acreditava: que era preciso construir o produto primeiro e ir ao mercado depois. Pouco tempo depois o Eric Ries popularizou o ciclo de construir, medir e aprender, e essa ordem virou quase consenso. Eu achava que teria que passar meses fazendo um produto para só então falar com cliente.
Eu pulei essa fase inteira. Não fiz uma versão mínima, não fiz nada: peguei o i-Educar, que eu já contei aqui, e fui direto falar com município.
Olhando de hoje parece estratégia, mas na época era só falta de opção: eu não tinha dinheiro nem time para construir nada, e aproveitar o que já existia era o único caminho que eu enxergava.
Só que essa decisão liberou justamente o que eu tinha de melhor. Programar nunca foi meu maior talento. Conversar com prefeitura, entender o problema da secretaria e chegar até o gestor, isso eu sabia fazer. Em vez de passar um ano escrevendo código, passei esse ano descobrindo o que o município precisava e montando o que faltava em volta do software: sistema rodando em nuvem, suporte com gente de verdade atendendo, formação para o professor.
E o mercado me respondeu uma coisa que eu não esperava. O cliente queria uma empresa. Queria alguém que resolvesse o problema dele e que estivesse lá quando desse errado. Se o código estava aberto num repositório público, se ele podia baixar de graça amanhã, isso não mudava a decisão dele.
Foi ali que a crença caiu. O gargalo nunca esteve em construir.
E eu acho isso muito parecido com o momento que a gente vive agora com IA. Construir ficou barato para todo mundo. Para mim já era barato em 2009, pelo mesmo motivo: eu não construí, reaproveitei. O difícil continua exatamente onde sempre esteve, que é colocar aquilo na frente das pessoas, fazer com que elas usem, e ser valioso o suficiente para alguém querer pagar.
É o princípio que eu repito até hoje, e que explica a nossa história inteira: escrever código é uma coisa, ter um produto que as pessoas usam é outra, e construir uma empresa que se sustenta é uma terceira. Eu tratei as três como se fossem uma só durante muito tempo, e a única razão de a Portábilis existir é que, no começo, sem querer, eu fiz na ordem inversa.
Edtechs
Portábilis
Sistema de gestão escolar e de assistência social para prefeituras
Brasil
A Portábilis foi fundada em 2009, no sul de Santa Catarina, e atende hoje cerca de 145 municípios com a gestão da Educação e o atendimento da Assistência Social. A empresa não nasceu de um software próprio. O i-Educar tinha sido desenvolvido pelo departamento de tecnologia da Prefeitura de Itajaí e publicado sob licença livre no Portal do Software Público Brasileiro, disponível para qualquer prefeitura baixar. O que a empresa passou a vender foi tudo aquilo que apenas fazer um download não entrega: hospedagem, segurança, atualização, migração de dados, formação de professores e alguém do outro lado quando o Censo Escolar precisa fechar.
Um dos grandes desafios de empresas focadas no setor público é o processo de compra. O fato de municípios publicarem editais cujo objeto é a implantação do software público i-Educar, faz com que a disputa passa a ser por quem presta o serviço em cima do sistema que a rede já escolheu. A vantagem para a prefeitura é poder trocar de fornecedor sem trocar de sistema, sem pagar de novo migração e treinamento de centenas de servidores. Como contrapartida a empresa não tem o “lock in” do software e deve garantir continuidade pela qualidade dos serviços prestados.
A segunda decisão da empresa foi olhar para fora da escola. A operação em Assistência Social começou em 2011 e ganhou tese depois, quando ficou claro que a informação decisiva sobre uma criança que sumiu da sala de aula costuma estar em outra secretaria da mesma prefeitura, muitas vezes no mesmo bairro, em outro sistema. Em 2023, um experimento em Criciúma fez o encaminhamento do centro de referência de assistência social aparecer como notificação na tela de quem faz a matrícula, com confirmação de volta quando a criança chegava. A partir desse piloto, foi criado um protocolo entre duas secretarias que antes não trocavam nada. Dali saíram o IDEA, que lê dados educacionais junto com os da rede de proteção social, e o Evasão Zero, que abre o caso pela frequência e tenta descobrir qual é a barreira, que quase nunca é apenas pedagógica.
OpenEMIS
Sistema aberto de gestão de dados educacionais para ministérios
França e Estados Unidos
O OpenEMIS nasceu de um pedido dos próprios países membros da UNESCO, que precisavam de ferramentas para planejar suas redes de ensino. A versão lançada em 2022 é descrita pela UNESCO como um sistema genérico de gestão educacional, de código aberto, entregue aos países sem condições ou restrições de uso. Ele cobre matrícula, dados de escolas, alunos e profissionais, avaliações e indicadores de acompanhamento das metas globais de educação.
O desenho separa quem mantém o código de quem implementa. A coordenação é da UNESCO, em Paris. A implementação e o suporte técnico ficam com o OpenEMIS Lab, programa da Community Systems Foundation, organização sem fins lucrativos sediada em Ann Arbor, nos Estados Unidos, que atua no projeto desde 2012. O software é gratuito, mas a assistência técnica é contratada e remunerada, e a própria organização informa aos países interessados que esse é o arranjo. Desde as primeiras versões havia um módulo para funcionar em escolas sem internet, pensado para redes com infraestrutura frágil.
O PNUD registra uso em quase 18 mil instituições de 15 países, entre eles Jordânia, Lesoto, Guiana, Belize e Maldivas. Entre as entregas recentes estão os primeiros boletins nacionais para mais de 20 mil alunos na Guiana e a implantação em todas as escolas públicas de Tonga.
É semelhante ao i-Educar, feito para operar em sistemas nacionais, e confirma o ponto do Tiago de que código não é produto. O software é idêntico para todos e está disponível sem custo, mas cada ministério ainda depende de alguém que configure, treine e sustente a operação. No OpenEMIS, esse papel ficou com uma organização sem fins lucrativos, e não com empresas.
Moodle
Ambiente virtual de aprendizagem de código aberto
Austrália
O Moodle é um dos ambientes virtuais de aprendizagem mais usados no mundo, presente em universidades, redes de ensino e empresas. Foi criado em 2001 por um ex-funcionário da Universidade Curtin, tem sede em Perth e soma mais de 300 milhões de usuários registrados. O código é aberto, e a instituição pode instalá-lo por conta própria ou contratar alguém para hospedar e manter o sistema.
O modelo de negócio funciona quase como uma franquia. Empresas de hospedagem recebem a certificação de parceiras e, em troca, repassam 10% da receita obtida com o Moodle. Esse dinheiro financia a equipe central que mantém o código, enquanto os parceiros competem entre si por clientes. O arranjo tem tensões: em 2012 a Blackboard, então maior concorrente proprietária, comprou duas parceiras certificadas, depois de fazer uma oferta verbal pela empresa inteira, que o fundador recusou.
O card mostra na prática o paradoxo que o Tiago defende, de querer mais empresas dentro do ecossistema, e não menos. No Moodle, cada implementador que ganha um cliente paga parte da manutenção do projeto comum. Mas o episódio da Blackboard mostra o outro lado do argumento: um ecossistema aberto também atrai quem gostaria de fechá-lo.
Infraestrutura aberta para plataformas públicas de educação
Índia
O Sunbird é um conjunto de peças de software abertas que governos e organizações podem combinar para montar suas próprias plataformas de educação. Foi desenvolvido pela EkStep, fundação sem fins lucrativos, como bem público digital, e qualquer pessoa pode baixar os componentes gratuitamente. A EkStep foi cofundada em 2015 por Nandan e Rohini Nilekani. Nandan Nilekani também liderou anteriormente o sistema de identidade digital indiano.
A principal aplicação é o DIKSHA, plataforma nacional de educação básica da Índia. Ele opera em parceria entre o Ministério da Educação, a EkStep e o conselho nacional de pesquisa educacional. Cada estado sobe e adapta o próprio conteúdo sobre a mesma base, o que permite que redes muito diferentes usem uma infraestrutura comum sem abrir mão de decisões locais.
O DIKSHA foi adotado por mais de 35 estados e territórios, ajudou a formar mais de 10 milhões de professores e tem QR codes impressos em mais de 600 milhões de livros didáticos.
É a versão nacional da ambição que o Tiago descreve para a Portábilis, de virar infraestrutura pública digital. A diferença está em quem sustenta. Na Índia, a conta foi paga por filantropia e pelo governo federal. No modelo da Portábilis, ela é paga município a município, contrato a contrato.
Alerta Escuela
Sistema estatal de alerta precoce contra o abandono escolar
Peru
O Alerta Escuela é uma ferramenta do Ministério da Educação do Peru que estima, para cada estudante, o risco de deixar a escola de um ano para o outro. Foi lançado em outubro de 2020 e atende escolas públicas e privadas. Fica dentro do sistema de gestão que os diretores já usam no dia a dia e foi construído com aprendizado de máquina.
O modelo cruza informações do próprio aluno, como desempenho, escolaridade dos pais, situação socioeconômica e idade, para apontar os fatores associados a uma possível interrupção dos estudos. Junto com o alerta, diretores e professores tutores recebem orientações pedagógicas e de gestão para agir sobre cada caso. Em 2024, o Ministério publicou a metodologia completa do modelo, construído principalmente com dados administrativos.
O caso conversa com o Evasão Zero e, ao mesmo tempo, traz uma diferença em relação à tese central do Tiago. O Alerta Escuela identifica o risco com os dados que a educação já tem, mas a resposta continua dentro da escola. Para Tiago, parte fundamental da informação costuma estar do outro lado da rua, no atendimento da Assistência Social, e nenhum modelo alimentado só por dados educacionais chega até ela.
EveryDay Labs
Programa de mensagens às famílias para reduzir faltas escolares
Estados Unidos
A EveryDay Labs trabalha com redes de ensino americanas para reduzir o absenteísmo crônico. Foi fundada em 2016 por dois pesquisadores de ciência comportamental, a pedido das redes que tinham participado dos estudos originais. O sistema acompanha a frequência diária registrada pela rede e, quando um aluno entra em faixa de risco, envia às famílias cartas e mensagens de texto personalizadas conforme a série, a escola e o número de faltas. As mensagens também ligam a família a uma equipe de apoio multilíngue.
O diferencial é a base de evidência. A empresa atende mais de 1.500 escolas e já rodou uma dúzia de ensaios randomizados replicando e ampliando os resultados iniciais. A empresa divulga uma redução de 10% a 15% no absenteísmo crônico. Um estudo recente com escolas públicas de Washington encontrou 6,3%, com custo por falta evitada muito menor que o de mentoria ou reforço escolar.
O card conversa com um dado trazido na conversa com Tiago. Ele mostra que redes com o mesmo processo de busca ativa têm taxas de retorno entre 12% e 87%, e atribui a diferença a quantas famílias cada equipe consegue alcançar. A EveryDay Labs aposta que o primeiro contato pode ser automatizado em escala. O próprio efeito medido, porém, mostra o limite dessa aposta: quando a barreira é saúde, transporte ou conflito em casa, a mensagem é um pontapé inicial, mas pessoas são essenciais para expandir os efeitos possíveis.
ConsiliumBots
Ferramentas de apoio às famílias em processos de admissão escolar
Estados Unidos e Chile
A ConsiliumBots é uma organização sem fins lucrativos que desenvolve, com governos, ferramentas para ajudar famílias a escolher e conseguir vaga em escolas e cursos. Foi fundada em 2018 pelo economista Christopher Neilson, hoje em Yale, que trabalha com os governos de Chile, Peru, Equador, Colômbia, Brasil e República Dominicana. Segundo ele, as ferramentas já atenderam mais de 2 milhões de famílias em 7 países da América Latina e do Caribe.
O trabalho mais visível é no sistema chileno de admissão escolar. A organização implementou o algoritmo de alocação para mais de 500 mil candidatos, em parceria com o Ministério da Educação, que registrava as famílias e colhia as preferências. Em 2022, o gasto declarado foi de cerca de US$ 0,40 por beneficiário.
O caso chileno complementa o argumento do Tiago sobre o algoritmo auditável da fila da creche. A abertura do algoritmo é necessária, mas não basta para gerar confiança. Uma pesquisa com famílias da Araucanía encontrou questionamentos à legitimidade do sistema, porque o componente de sorteio era percebido como opaco. Na admissão para 2026, o Congresso determinou a troca do sorteio por um algoritmo sem componente aleatório. Tornar a regra auditável resolve uma parte do problema. A outra parte é a família entender e aceitar o resultado.

O educador21 amplia sua parceria com Guilherme Cintra, colunista da Tecnologia que Humaniza, ao trazer para o portal os conteúdos do EdTech da Semana. A iniciativa realiza um mapeamento contínuo das principais tendências, tecnologias e empresas que transformam a educação no Brasil e no mundo. Todos os textos são reproduzidos do site original.










