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Dentro do Especial Mês do Professor do educador21, Adriana Martinelli discute como remuneração, condições de trabalho, participação nas decisões e qualidade das relações são essenciais para valorizar os professores e fortalecer a profissão

Adriana Martinelli*

Outubro chegou e, com ele, mais um Dia do Professor. É tempo de homenagens, mensagens de agradecimento e tantas palavras bonitas sobre a importância de ensinar. Tudo isso é merecido. Mas confesso que, neste ano, gostaria de propor uma conversa que fosse um pouco além das homenagens.

Uma conversa sobre a profissão docente. Sobre o que significa ser professor hoje, sobre as condições em que esses profissionais trabalham e sobre o reconhecimento que recebem. Afinal, passamos tanto tempo discutindo os desafios da educação, as novas tecnologias, a inteligência artificial, as competências que os estudantes precisam desenvolver e os novos modelos de aprendizagem…

Mas será que estamos dedicando a mesma atenção às pessoas de quem esperamos tantas transformações?

Existe uma contradição que me inquieta: esperamos cada vez mais dos professores, mas nem sempre avançamos, na mesma proporção, na construção das condições necessárias para que possam exercer sua profissão com dignidade, autonomia e reconhecimento. E talvez esteja mais do que na hora de conversar seriamente sobre isso.

Os sinais estão diante de nós

A dificuldade de atrair novos profissionais para a docência e a escassez de professores em determinadas regiões e áreas do conhecimento têm chamado a atenção de pesquisadores e especialistas em educação. São sinais de um problema que não podemos continuar tratando apenas como uma preocupação para os próximos anos. Precisamos olhar para o que já está acontecendo.

Por que a docência tem perdido atratividade para as novas gerações? E o que estamos fazendo para que aqueles que escolheram ensinar encontrem motivos e condições para permanecer?

Sabemos que as respostas não são simples. Envolvem remuneração, condições de trabalho, valorização social, perspectivas de carreira, saúde emocional e tantos outros fatores.

Os resultados da pesquisa TALIS 2024, realizada pela OCDE, ajudam a dimensionar essa questão. No Brasil, apenas 14% dos professores participantes consideram que a profissão é valorizada pela sociedade e somente 22% estão satisfeitos com seus salários. Ao mesmo tempo, 87% afirmam estar satisfeitos com o trabalho docente.

Esses números revelam uma contradição que merece nossa atenção. Mesmo diante de uma baixa percepção de valorização social e salarial, muitos professores continuam encontrando satisfação na profissão que escolheram.

Mas será que podemos continuar contando apenas com o compromisso e a dedicação de quem ensina?

A valorização docente não pode depender somente do sentido que os professores encontram no seu trabalho. Precisamos tratá-la como prioridade, com políticas públicas consistentes que contemplem remuneração adequada, condições de trabalho, reconhecimento e perspectivas reais de desenvolvimento profissional.

E há outra dimensão dessa conversa que considero igualmente importante: a forma como os professores vivem e se desenvolvem dentro das instituições em que trabalham.

Embora as políticas públicas sejam fundamentais, é no cotidiano das escolas que muitas dessas condições também se concretizam. É nas relações, nas oportunidades de participação e na maneira como cada profissional é reconhecido que se constrói, ou se enfraquece, o desejo de permanecer.

Afinal, uma carreira não se sustenta apenas pela escolha que fazemos no início. Ela precisa continuar fazendo sentido ao longo do caminho.

E quem ensina também encontra espaço para aprender?

Costumamos dizer que o professor precisa ser um aprendiz permanente. E concordo plenamente. A educação muda, o conhecimento avança, os estudantes se transformam, novas tecnologias surgem. Ser professor exige curiosidade, abertura e disposição para continuar aprendendo.

Mas precisamos ampliar nossa compreensão sobre o que significa essa aprendizagem contínua. Aprender não pode ser apenas participar de mais cursos, conhecer novas metodologias, dominar ferramentas e responder a demandas que não param de crescer. Também significa ter tempo e espaço para experimentar, compartilhar dúvidas, conversar com colegas e refletir sobre a própria prática.

Ao longo do meu trabalho com formação e desenvolvimento de educadores, uma questão tem se tornado cada vez mais evidente: não basta oferecer oportunidades de aprendizagem. É preciso construir ambientes onde as pessoas se sintam seguras para aprender, questionar, experimentar e contribuir.

Isso vale para os estudantes. E vale também para os professores. Como esperar que um professor desenvolva autonomia nos seus alunos se ele próprio tem pouca autonomia para tomar decisões?

E como pedir que promova colaboração e pensamento crítico se trabalha em um ambiente onde quase não existem oportunidades de construção coletiva e suas perguntas nem sempre encontram espaço?

Essas contradições, muitas vezes silenciosas, dizem muito sobre a cultura das nossas instituições. E nos lembram de algo fundamental: a escola também precisa ser um lugar de aprendizagem para os adultos que nela trabalham.

Talvez precisemos conversar mais. E escutar melhor.

Há algum tempo venho dedicando parte importante do meu trabalho a compreender como nossas conversas influenciam as relações, as decisões e a cultura das organizações. E uma das questões que mais me mobilizam é perceber quantas oportunidades de desenvolvimento e transformação podem estar nas conversas que acontecem no cotidiano. E também naquelas que deixamos de ter.

Quando foi a última vez que perguntamos a um professor como ele está vivendo sua profissão? O que o preocupa? O que precisa para trabalhar melhor? Não me refiro apenas às pesquisas de satisfação ou às reuniões destinadas a comunicar decisões já tomadas. Estou falando de conversas genuínas, em que existe disposição para escutar, compreender diferentes perspectivas e, principalmente, considerar o que foi ouvido nas decisões.

Isso exige também uma mudança na forma de liderar. Lideranças que não apenas cobrem resultados, mas criem condições para o desenvolvimento das pessoas. Que compreendam o feedback como uma oportunidade de aprendizagem e reconheçam que confiança e pertencimento são parte essencial de um ambiente profissional saudável.

Talvez estejamos falando menos de novas ferramentas de gestão e mais de uma nova qualidade nas relações.

Valorizar também é dar voz e espaço para participar

Os resultados da TALIS 2024, da OCDE, trazem outro dado que merece nossa atenção: no Brasil, apenas 14% dos professores pesquisados acreditam que suas opiniões são valorizadas pelos responsáveis pelas políticas educacionais.

Como podemos construir políticas educacionais consistentes sem considerar a experiência e o conhecimento de quem vive diariamente os desafios da educação?

Não podemos continuar tratando os educadores apenas como responsáveis pela implementação de mudanças pensadas e decididas por outros.

E aqui existe uma diferença importante: participar não significa apenas ser ouvido. Significa ter a possibilidade real de influenciar decisões. Não podemos defender o protagonismo dos estudantes e, ao mesmo tempo, limitar o protagonismo dos professores.

A valorização docente exige, portanto, mais do que reconhecimento. Exige participação efetiva e responsabilidade compartilhada entre poder público, redes de ensino, instituições e sociedade.

Uma conversa que não pode esperar

Neste Dia do Professor, gostaria de fazer mais do que uma homenagem.

Gostaria de deixar um convite à reflexão. E, principalmente, à ação. A valorização docente precisa sair dos discursos e se traduzir em políticas públicas consistentes, condições dignas de trabalho, oportunidades de desenvolvimento, reconhecimento e participação efetiva nas decisões. Isso exige compromisso de governos, redes de ensino, instituições, lideranças e de toda a sociedade.

Mas exige também algo que deveria ser simples e que nem sempre praticamos: escutar os professores e reconhecer seu conhecimento, suas necessidades e suas contribuições.

Porque não basta dizer que os professores são fundamentais para a sociedade. Precisamos demonstrar isso nas escolhas que fazemos todos os dias.

Se queremos uma educação melhor, precisamos começar por valorizar, de verdade, quem a torna possível.

E essa é uma conversa que não pode mais esperar.

***Diretora de Conteúdo da **Bett Brasil, educadora, consultora e mentora

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