Especialista sugere ações práticas para abordar privacidade, golpes online e ética digital de forma crítica e contextualizada em sala de aula
Com a rotina escolar cada vez mais integrada ao ambiente online, discutir segurança digital deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade urgente. A escola, que historicamente prepara para a convivência social e o exercício da cidadania, agora também precisa desenvolver competências digitais para que os alunos saibam se proteger e agir com responsabilidade nas redes.
Comportamentos como o cyberbullying, que já afeta 13,2% dos adolescentes segundo o IBGE, são apenas parte de um cenário mais amplo de riscos. Vazamento de dados, golpes de phishing, exposição a discursos de ódio e desinformação estão entre os principais desafios que impactam diretamente crianças e jovens.
Nesse contexto, educar para o uso consciente da tecnologia significa, mais do que alertar sobre perigos, fomentar o pensamento crítico, a ética e a autonomia digital. É o que defende Daniel de Freitas, assessor pedagógico da Mind Makers, solução educacional da SOMOS Educação focada no ensino de pensamento computacional na educação básica: “O que está em jogo é a construção de uma postura ética e crítica em relação aos ambientes virtuais”.
Segundo o educador, é papel da escola promover debates, simulações e projetos que ajudem os alunos a identificar ameaças, proteger suas informações e reconhecer as implicações de seus comportamentos online — conectando teoria e prática de maneira significativa.
Educação digital exige mediação ativa e contextualizada
Mais do que trabalhar com técnicas e ferramentas, preparar os estudantes para o mundo digital passa pela construção de consciência e responsabilidade. “Tudo o que fazemos no digital deixa rastros, afeta outras pessoas e exige responsabilidade”, reforçou Daniel Freitas. Essa consciência deve ser desenvolvida desde cedo, com experiências que dialoguem com o cotidiano dos alunos.
Uma das estratégias é vincular o ensino de cibersegurança a temas familiares aos estudantes — como memes, trends, jogos online e hábitos de consumo digital. “É importante conscientizar os estudantes quanto às informações sensíveis que compartilhamos mesmo quando fazemos algo simples como efetuar uma compra pela internet”, explicou Freitas. Situações cotidianas são oportunidades pedagógicas valiosas.
Freitas sugeriu atividades mão na massa, como a simulação de uma rede onde alunos percebem que nenhuma conexão na internet é realmente anônima. A proposta ajuda a traduzir conceitos como rastreabilidade e identificação de dispositivos em linguagem acessível, visual e prática.
Outro caminho potente é trabalhar com casos reais retirados da mídia. A ideia é que os estudantes analisem notícias de fontes confiáveis sobre crimes cibernéticos, golpes e violações de dados, estimulando o debate crítico em sala de aula. Assim, o conteúdo ganha relevância e ajuda a formar cidadãos conscientes de seu papel no ambiente digital.
Como começar esse debate em sala de aula
Para apoiar os educadores que desejam iniciar ou aprofundar a discussão sobre segurança digital com seus estudantes, Daniel de Freitas reuniu três dicas práticas que ajudam a traduzir o tema em ações pedagógicas simples e eficazes:
- Propor atividades práticas
Por tratar de temas complexos, uma opção é pedir que os alunos “coloquem a mão na massa”. Freitas deu um exemplo para promover reflexão sobre privacidade e segurança digital: “Com vários computadores conectados, pedimos para um aluno enviar uma mensagem a um colega, mas só vai conseguir se o computador estiver identificado na rede. Com isso, demonstramos que nenhum computador conectado na internet é invisível — e que existem formas de identificar cada ação”, explicou. - Vincular o estudo ao cotidiano
É preciso que o estudo sobre cibersegurança seja contextualizado ao dia a dia. As atividades propostas devem dialogar com a forma com que os alunos utilizam o espaço digital, considerando memes, trends e outras linguagens atuais. “É importante conscientizar os estudantes quanto às informações sensíveis que compartilhamos mesmo quando fazemos algo simples como efetuar uma compra pela internet”, disse Freitas. “Compartilhamos dados pessoais, o endereço completo, CPF e números de cartões, mas se forem fornecidos a um site falso, a pessoa terá caído em um golpe.” - Promover discussões com base em casos reais
“É interessante apresentar casos e situações do mundo real, esmiuçando os tipos de crimes mais cometidos e violações de segurança que já foram praticadas dentro do ambiente cibernético”, recomendou Daniel Freitas. Uma orientação é conferir notícias em sites jornalísticos de confiança e, em seguida, realizar discussões a partir do conteúdo analisado.