Levar estudantes para ambientes naturais amplia atenção, bem-estar e resultados acadêmicos em um cenário escolar cada vez mais urbano
Anne Baldisseri*
No debate sobre educação, somos frequentemente confrontados com uma aparente dicotomia: de um lado, a urgência do rigor acadêmico e da fluência digital; do outro, a crescente necessidade de zelar pela saúde mental e pelo bem-estar. Como educadores, vivemos essa inquietação diariamente e buscamos preparar nossos alunos para um mundo complexo e tecnológico, mas, por outro lado, também vemos os índices de ansiedade e esgotamento crescerem em proporção direta.
Talvez o equívoco esteja na própria dicotomia. Não acredito que desempenho acadêmico e bem-estar sejam forças opostas. Na verdade, cada vez mais enxergamos que um sustenta o outro. E se a chave para a concentração, a empatia e a resiliência não estiver em mais horas de tela, mas em mais horas de céu aberto? E se o aprendizado for mais profundo exatamente quando nossos alunos estão em contato com a terra, com as plantas, com o movimento? Não se trata de uma suposição romântica, mas de uma constatação pedagógica. Um estudo recente do Instituto Alana (nov/2024), por exemplo, é categórico: o contato regular com a natureza favorece diretamente a atenção, a concentração e o desempenho escolar. No entanto, a mesma pesquisa revela uma realidade alarmante: 40% das escolas nas capitais brasileiras simplesmente não possuem nenhuma vegetação. Estamos construindo escolas em desertos de concreto e esperando que nossos alunos floresçam.
Lidar com tal complexidade exige mais que jardins contemplativos; demanda intencionalidade pedagógica. Por essa razão, na Avenues estamos transformando uma área de mais de 6.500 m² em uma extensão viva do campus. O propósito dessa iniciativa não se atém a um projeto paisagístico; sua finalidade é o currículo.
A aprendizagem ao ar livre é um recurso pedagógico essencial. Quando um aluno estuda ecossistemas não em um livro, mas em uma “floresta de bolso”, com espécies nativas da Mata Atlântica, ele aprende mais que ciências. Ou seja, ele desenvolve curiosidade, capacidade de observação e um senso de responsabilidade ambiental de forma prática e significativa. Quando um grupo de crianças resolve um desafio em um circuito de arvorismo ou aprende matemática medindo a topografia do terreno, está cultivando colaboração e raciocínio de maneiras que uma sala de aula tradicional não consegue replicar.
Essa vivência prática dialoga diretamente com as conclusões da COP 30, realizada este ano em Belém. O evento reforçou que a justiça climática e a preservação da biodiversidade dependem de uma nova geração “climaticamente letrada”. Ao trazer a natureza para dentro da escola, materializamos o que foi debatido na Cúpula: a necessidade de reconectar os jovens com o bioma local para que compreendam, valorizem e protejam o futuro do planeta.
Nosso novo espaço será concebido como um “laboratório vivo”, totalmente integrado ao nosso currículo Avenues World Elements. Cada elemento,desta extensão do campus, da arena de teatro ao ar livre à sala de aula conectada a uma estufa, é uma ferramenta para nutrir não apenas o intelecto, mas o desenvolvimento holístico do aluno — seu bem-estar físico, mental e emocional.
Investir em áreas verdes na educação não é um “custo adicional”, mas um investimento direto no futuro de nossos alunos. Em um contexto urbano que muitas vezes limita o contato com o natural, trazer a natureza de volta ao campus é oferecer uma resposta pedagógica poderosa. É criar um ambiente que estimula a curiosidade, promove a saúde mental e forma cidadãos mais resilientes, conscientes e preparados para moldar o mundo.
*Diretora da Avenues São Paulo










