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Em sua estreia como coautor na coluna STEAM, Leandro Holanda reflete sobre aprendizagem situada, justiça social e os sentidos da Educação STEAM no contexto brasileiro

Meu primeiro contato com a Educação STEAM aconteceu por volta de 2014, quando eu integrava um grupo de professores inquietos com a forma como as aulas de Ciências da Natureza vinham sendo conduzidas. Falávamos muito sobre aulas práticas, mas estávamos presos a um modelo previsível, quase uma receita pronta, em que os estudantes apenas confirmavam aquilo que já haviam visto na teoria ou nos livros didáticos.

Essa lógica começou a ruir para mim em uma aula, quando um estudante da segunda série do Ensino Médio perguntou, com visível desinteresse: “Por que estamos fazendo isso, se já sabemos onde vamos chegar? Não seria mais simples assistir a um vídeo no YouTube?”. Ele estava certo. O nome do experimento já entregava o desfecho. Não havia investigação possível quando o resultado já estava dado. Esse episódio marcou um ponto de virada na minha prática docente.

A partir daí, passei a estudar mais profundamente a investigação científica e a testar novas formas de organizar as aulas, ainda que em pequenas brechas do cotidiano escolar.

Nesse mesmo período, comecei a conhecer experiências ligadas à criação de espaços maker nas escolas. Visitei ambientes impressionantes, repletos de tecnologias, mas que, muitas vezes, careciam de intencionalidade pedagógica. Foi nesse contexto que me aproximei do movimento da educação STEM e, posteriormente, STEAM, que propõe a integração entre Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática como eixo da aprendizagem.

Ao participar de formações e conhecer experiências em outros países, ficou evidente que muitas iniciativas bem-sucedidas dependiam fortemente do esforço individual de professores altamente qualificados ou do apoio direto de grupos de pesquisa. Embora inspiradoras, essas experiências nem sempre dialogavam com realidades como a das escolas públicas brasileiras.

Essas inquietações me levaram a aprofundar os estudos sobre o tema. Em diálogo constante com a pesquisadora Lilian Bacich, percebemos que a Educação STEAM assumia significados distintos conforme os contextos educacionais e comunitários. Dessa reflexão nasceu o livro STEAM em Sala de Aula, lançado em 2020, com o objetivo de reunir experiências brasileiras, explorar diferentes definições e oferecer referências concretas para professores interessados nesse campo.

Para conhecer mais: Além do livro citado, criamos um podcast que pode te ajudar a explorar estas temáticas com a perspectiva dos autores envolvidos na obra.

A partir desse momento, especialmente no trabalho desenvolvido na Tríade Educacional, tornou-se ainda mais evidente que o que muitos professores brasileiros vinham construindo em STEAM se afastava do discurso dominante de preparação para carreiras.

A ideia de que a Educação STEAM existe, prioritariamente, para estimular carreiras em áreas como Engenharia, Matemática ou Tecnologia nasceu no contexto do norte global e está carregada de disputas de poder e dos investimentos que foram realizados. No contexto brasileiro, entretanto, o que se observa com frequência é outra lógica em operação, mais conectada à escola como espaço de formação cidadã.

E se a Educação STEAM não fosse, prioritariamente, sobre carreiras, mas sobre aprendizagem significativa, situada e socialmente relevante? Nessa perspectiva, o futuro da Educação STEAM não está apenas em tecnologias de ponta, plataformas digitais ou metodologias isoladas. Ele se constrói a partir de pedagogias culturalmente sustentadas, que reconhecem os repertórios, saberes e identidades dos estudantes, e da aprendizagem baseada em comunidades, que transforma o território em espaço legítimo de investigação e produção de conhecimento.

Pensar novos futuros para a Educação STEAM, portanto, exige deslocar o foco. Menos sobre preparar estudantes para um mercado distante e mais sobre ajudá-los a compreender, intervir e transformar suas realidades. Esses futuros passam por reconhecer a escola como parte viva da comunidade, por valorizar conhecimentos locais, por tensionar desigualdades e por afirmar a Educação STEAM como um caminho para a construção de justiça social, participação cidadã e sentido para a aprendizagem.

Ao longo do ano, quero aprofundar essas ideias em outras postagens, explorando exemplos, tensões e possibilidades concretas desse movimento, na tentativa de ampliar o debate sobre o que pode ser, de fato, uma Educação STEAM comprometida com os contextos, as pessoas e os territórios.

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