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Com recorde de mais de 2,5 mil participantes, Bett Nordeste colocou inteligência artificial, inclusão, formação docente e aprendizagem no centro das decisões das escolas

A inteligência artificial já chegou à escola, mas a principal questão para os gestores deixou de ser se a tecnologia será usada. A discussão agora envolve como incorporá-la sem comprometer aprendizagem, autonomia, inclusão e relações humanas. Esse foi um dos principais sinais deixados pela Jornada Bett Nordeste 2026, que aconteceu nos dias 19 e 20 de agosto, no Recife Expo Center.

Realizada pela Bett Brasil em parceria com o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Estado de Pernambuco (Sinepe-PE), a Jornada reuniu mais de 2,5 mil participantes, crescimento de 20% em relação à edição anterior. O resultado colocou o encontro diante de um cenário que já ultrapassa a discussão sobre ferramentas: escolas precisam rever práticas, políticas e critérios para responder às mudanças tecnológicas e sociais.

Com o tema “Inteligências em Ação: Experiências que Transformam a Educação”, a programação reuniu gestores, mantenedores, educadores, especialistas, representantes do poder público e empresas. Os conteúdos foram distribuídos entre ação pedagógica, coletiva, digital e inclusiva, aproximando debates que muitas vezes aparecem separados na agenda educacional.

Na abertura, Adriana Martinelli, diretora de Conteúdo da Bett Brasil, defendeu uma visão mais ampla sobre o conceito de inteligência. Para ela, a transformação educacional depende do diálogo entre diferentes capacidades, e não apenas da inteligência artificial. “Quando essas inteligências dialogam e conversam entre si, elas conseguem transformar a educação. A transformação está na ação”, afirmou.

A fala ajuda a explicar o eixo que atravessou os dois dias de programação: a tecnologia não aparece mais como uma decisão isolada da área de inovação. Ela interfere no planejamento pedagógico, na formação dos professores, na relação com as famílias, nas políticas de inclusão e até na definição das competências que a escola pretende desenvolver.

Bett Nordeste amplia debate sobre IA, inclusão e aprendizagem

A inteligência artificial apareceu como uma das principais forças de transformação, mas os palestrantes evitaram tratá-la como solução automática para os desafios educacionais. Fernanda Bérgamo, professora e palestrante, destacou a necessidade de preparar professores e estudantes para compreender o funcionamento e os efeitos dessas ferramentas. “A IA pode facilitar, e muito, a nossa vida e melhorar a nossa capacidade profissional. Ela não vai tomar o nosso lugar”, disse.

Pedro Cortella, futurista e fundador do Saber Ampliado, levou a discussão para a relação entre algoritmos, autonomia e formação crítica. Segundo ele, a escola precisa ajudar os estudantes a questionar os caminhos sugeridos pelas tecnologias. “O papel do educador é sempre mostrar os dois lados, fazer perguntas e colocar desafios”, afirmou. Para os gestores, a questão desloca o debate da simples adoção de ferramentas para o desenho de experiências que preservem autonomia e pensamento crítico.

No segundo dia, Débora Garofalo, professora e especialista em educação da DG Educação, reforçou essa perspectiva ao discutir o papel da aprendizagem humana diante do avanço da IA. “A IA não substitui o planejamento, mas dá tempo ao professor para aquilo que só ele sabe fazer: cuidar, formar valores, dar sentido ao que está aprendendo e mediar o conhecimento”, ressaltou. A ideia coloca o uso da tecnologia em uma equação mais ampla de organização do trabalho docente.

A discussão também alcançou a própria infraestrutura cognitiva da escola. Luciano Meira, professor e integrante da CESAR School, afirmou que a IA deve ser compreendida para além de uma ferramenta. “Ela é uma infraestrutura cognitiva”, disse, ao defender que novos usos tecnológicos exigem mudanças nas estratégias educacionais. O desafio para as lideranças, nesse caso, passa por antecipar essas mudanças em vez de apenas reagir às ferramentas que chegam às salas de aula.

A inclusão foi outro eixo que ganhou espaço na programação e mostrou que inovação não pode ser dissociada das condições de participação dos estudantes. Maraína Fernandes, secretária de Educação de São Paulo, afirmou que a escola precisa transformar suas próprias estruturas para incluir. “Não é o estudante que se encaixa no padrão, é a escola que precisa entender quais barreiras precisam ser vencidas”, disse. Kadu Lins, CEO do Instituto do Autismo, acrescentou que compreender as necessidades de estudantes neurodivergentes é condição para transformar estratégias em ações efetivas.

Experiências escolares aproximam inovação das decisões da gestão

A relação entre escola e família também apareceu como parte dessa transformação. Joseph Freire, gerente pedagógico do Grupo Salta, apontou relacionamento, orientação e confiança como pilares para aproximar os dois lados. “Enquanto a família e a escola não estabelecerem uma relação de confiança, a criança sofre e o futuro sofre”, afirmou. A questão interessa diretamente à gestão porque conflitos e desalinhamentos entre adultos também repercutem sobre aprendizagem, convivência e permanência dos estudantes.

Bete Rodrigues, consultora educacional da Disciplina Positiva Brasil Consultoria, defendeu uma atuação conjunta entre os responsáveis pela formação dos estudantes. Para ela, quando adultos trabalham de forma articulada, o impacto alcança não apenas o desempenho acadêmico. “Quando os adultos responsáveis pela educação, pela criação, pelo desenvolvimento e pela segurança trabalham juntos, não só a aprendizagem pode aumentar, mas o desenvolvimento passa a ser integral”, afirmou.

Os cases apresentados no programa Escolas em Ação, realizado em parceria com o Sinepe-PE, trouxeram essa discussão para experiências concretas. Caíke Andrade, diretor do Colégio Motivo (PE), apresentou um laboratório de inteligência artificial; Carolyne do Monte, professora de História do Colégio Top (PB), mostrou o projeto A Bússola de Eleanor; e Rosane Galante, coordenadora pedagógica do Colégio e Curso Gauss (BA), compartilhou um método pedagógico desenvolvido pela instituição.

No segundo dia, Alena Nobre, diretora pedagógica do Colégio Saber Viver (PE), apresentou o uso de quizzes digitais para reforçar conteúdos e desenvolver metacognição. Sybele Barros Soares, diretora de unidade do Colégio CBV (PE), mostrou uma reconstrução da cultura escolar após uma crise institucional. Paula Carneiro Leão, diretora de Comunicação e Inovação da Escola Vila Aprendiz (PE), apresentou um hackathon criado para envolver professores e equipe pedagógica na construção da escola do futuro.

O conjunto das experiências mostra uma mudança importante para quem conduz instituições de ensino: inovação deixou de significar apenas incorporar tecnologia. Ela passou a envolver decisões sobre cultura, formação, inclusão, avaliação, convivência e desenho das experiências de aprendizagem. Para Adriana Martinelli, a Jornada cumpriu justamente o papel de aproximar esses diferentes atores. “Acho que a gente conseguiu boas conexões, bons encontros e reencontros”, avaliou.

A Jornada Bett Nordeste terminou com recorde de público e uma agenda que permanece aberta para as escolas: decidir quais tecnologias fazem sentido, quais competências precisam ser fortalecidas e quais condições humanas sustentam a aprendizagem. Em vez de colocar IA, inclusão e inovação em agendas separadas, o encontro mostrou que a gestão escolar terá de lidar com essas frentes de maneira cada vez mais integrada. A próxima edição da Bett Brasil será entre 4 e 7 de maio de 2027, em São Paulo.

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