No Congresso SinepeRio 2026, especialistas relacionaram distração digital, funcionamento cerebral, propósito e avaliação às decisões que escolas precisam tomar
A atenção dos estudantes tornou-se um dos desafios mais estratégicos para a escola em um ambiente no qual telas, inteligência artificial e conteúdos hiperpersonalizados disputam continuamente o foco. Mais do que controlar dispositivos, porém, o problema exige compreender como o cérebro desenvolve atenção, motivação e capacidade de sustentar esforços cognitivos. Essa foi uma das principais discussões do Congresso SinepeRio 2026, realizado em 21 e 22 de agosto, no Rio de Janeiro.
Na palestra “Ensinar na Era da Distração: o desafio da atenção na Educação”, Carla Tieppo, doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), professora e pesquisadora, questionou a ideia de que a desatenção representa apenas falta de disciplina. Para ela, a atenção sustentada depende de funções executivas que precisam ser desenvolvidas desde a infância. “A rampa das funções executivas começa na Educação Infantil. Se não treinarmos a atenção na infância, cobraremos em vão a autonomia e a organização na adolescência”, afirmou.
A neurocientista também criticou a tendência de simplificar conteúdos para tentar competir com a velocidade das plataformas digitais. “Facilitar a matéria achando que está ajudando o aprendizado é dar o recado de ‘decore isso aqui para a prova e pode se distrair com outra coisa’”, disse. A provocação desloca o debate da simples restrição das telas para uma questão pedagógica: que experiências a escola oferece para tornar o esforço intelectual desejável?
Esse ponto ganhou diferentes interpretações ao longo do congresso. Claudia Linhares, neuropsicopedagoga, defendeu maior compreensão das funções executivas e da neurodiversidade. Bruna Bahiense, pedagoga, gestora e diretora de Eventos do SinepeRio, relacionou atenção, plasticidade cerebral e regulação emocional. Já Lúcia Helena Galvão, professora, filósofa e escritora da Organização Nova Acrópole, questionou uma educação reduzida à utilidade imediata do conhecimento.
As discussões convergiram para um diagnóstico que interessa diretamente à gestão escolar: não basta retirar estímulos concorrentes se a própria experiência de aprendizagem não desenvolver atenção, curiosidade, autonomia e capacidade de pensar. Em um cenário de respostas produzidas instantaneamente pela inteligência artificial, a escola precisa decidir quais capacidades humanas pretende fortalecer e como sua organização pedagógica pode favorecer esse desenvolvimento.



Atenção dos estudantes depende de cérebro treinado, emoção e propósito
Para Carla Tieppo, a dificuldade de concentração não pode ser analisada apenas pelo comportamento observável em sala. A professora e pesquisadora relacionou a perda de atenção ao ambiente hiperestimulante no qual crianças e adolescentes estão inseridos. Vídeos curtos, cortes rápidos e notificações fragmentam experiências que exigem escuta prolongada e processamento de informações complexas. Nesse contexto, a pesquisadora alertou para o risco de transformar toda dificuldade de atenção em diagnóstico ou resposta medicamentosa, sem investigar também as experiências cognitivas oferecidas aos estudantes.
Tieppo relacionou ainda atenção e desejo. “Proibir o celular é uma medida paliativa se não entendermos que a dopamina é o deus das escolhas comportamentais. O cérebro aprende pelo desejo, não pela imposição da força”, afirmou. A observação coloca um desafio concreto para gestores: políticas de uso de dispositivos podem reduzir distrações imediatas, mas não substituem uma estratégia pedagógica capaz de produzir envolvimento. A escola precisa criar situações em que o aluno encontre razões para permanecer diante de uma tarefa que exige esforço.
A inteligência artificial amplia essa questão porque desloca o valor da informação. Segundo Tieppo, enquanto sistemas digitais se tornam cada vez mais eficientes em sintaxe, repertório e produção de respostas, estudantes podem perder espaço para desenvolver abstração, formulação de perguntas e pensamento sistêmico. “O cérebro que não treina a pensar simplesmente não sabe pensar”, afirmou. Para as escolas, a consequência aparece especialmente nas avaliações: atividades baseadas apenas em respostas prontas tornam-se menos capazes de revelar aquilo que o estudante realmente compreendeu.
A neuropsicopedagoga Claudia Linhares levou esse raciocínio para a diversidade cognitiva. Segundo ela, planejamento, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva interferem diretamente na aprendizagem. “Nenhum cérebro é igual ao outro. Ensinar uma turma de 30 alunos é ensinar 30 formas diferentes de aprender”, afirmou. Para gestores, a questão envolve formação continuada e revisão de estratégias pedagógicas, especialmente diante de estudantes com TDAH, TEA e altas habilidades ou superdotação.
Bruna Bahiense aprofundou o debate ao mostrar como atenção e regulação emocional estão relacionadas. Na conferência “Desvendando a Mente: o que a Neurociência revela sobre como Crianças Aprendem, Sentem e se Regulam”, a pedagoga, gestora e diretora de Eventos do SinepeRio apresentou conceitos de plasticidade cerebral, funções executivas e atenção sustentada. Na segunda parte, defendeu a corregulação como prática institucional: “Educação emocional não pode ser uma aula de 45 minutos por semana. Precisa ser uma cultura que perpasse do inspetor de alunos ao diretor”. O alerta amplia a responsabilidade para toda a equipe escolar.



Da distração ao propósito, escola precisa mudar o que ensina e avalia
A discussão sobre atenção ganhou uma dimensão filosófica na palestra de Lúcia Helena Galvão, professora, filósofa e escritora com atuação na Organização Nova Acrópole. Ao abordar “Filosofia na Educação: a formação integral do ser humano e o papel do educador na construção de uma aprendizagem com propósito”, ela questionou a transformação do conhecimento em simples instrumento para aprovação, emprego ou prestígio. A crítica toca uma questão central para a escola: se aprender serve apenas para alcançar outra finalidade, por que o estudante deveria se envolver profundamente com o processo?
A filósofa também relacionou essa discussão ao avanço da inteligência artificial. Para ela, o professor não pode competir com máquinas pela quantidade de informações transmitidas. Seu papel está na experiência humana, na reflexão ética e na capacidade de provocar perguntas. “O professor não é uma jarra que despeja dados repetidos. Ele empresta sua experiência humana e representa a mente crítica enquanto a mente do jovem ainda está em formação”, afirmou. A mudança exige que a escola valorize capacidades que não podem ser reduzidas à recuperação rápida de informações.
A comunicação apareceu como outra dimensão do problema. Guilherme Miziara, especialista em comunicação e negociação, defendeu que o interesse depende da percepção imediata de relevância. “As pessoas não querem saber o seu tema, querem saber a relevância do seu tema”, afirmou. A ideia pode ser aplicada à sala de aula e também à gestão: apresentar primeiro o problema que uma reunião pretende resolver ou a situação que determinado conhecimento ajuda a compreender reduz ruídos e oferece ao interlocutor um motivo concreto para permanecer atento.
Essa lógica também vale para a própria linguagem utilizada pelas escolas. Miziara alertou para a chamada “maldição do conhecimento”, quando especialistas pressupõem que o público domina siglas, conceitos e termos técnicos. Para professores, isso significa selecionar melhor o que precisa ser explicado e adaptar a comunicação sem empobrecer o conteúdo. Para gestores, implica rever comunicados, reuniões e apresentações institucionais que acumulam informações sem deixar claro o objetivo ou a decisão esperada.
A avaliação completa esse movimento. Priscila Matos Resinentti, doutora em Educação, defendeu, na palestra “O Papel da Avaliação no Século 21”, situações que exijam investigação, colaboração e tomada de decisão. A proposta das chamadas “perguntas vivas” aproxima o estudante de problemas reais e reduz a centralidade das respostas prontas. “Uma nota sem rubrica é uma nota vazia”, afirmou. Em um contexto de inteligência artificial, critérios transparentes e tarefas que exigem argumentação tornam-se especialmente relevantes para diferenciar reprodução de conhecimento e aprendizagem efetiva.
A discussão do Congresso SinepeRio deixa, portanto, uma questão que ultrapassa a política de celulares. Recuperar a atenção dos estudantes depende de uma escola capaz de oferecer experiências que exijam pensamento, despertem desejo de aprender e deem sentido ao conhecimento. Para gestores, isso envolve decisões sobre currículo, formação docente, avaliação, comunicação e cultura institucional. A tecnologia pode disputar a atenção, mas a resposta da escola não precisa ser competir com ela em velocidade. Pode estar em oferecer aquilo que a lógica da gratificação instantânea não entrega: tempo para pensar, problemas que merecem ser investigados e experiências que façam aprender continuar valendo a pena.
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