A esducadora Fernanda King alerta, neste artigo especial para o educador21, para os desafios da alfabetização e defende ações desde a primeira infância
Fernanda King*
Os números mais recentes divulgados pelo Ministério da Educação mostram que 59,2% das crianças brasileiras estão alfabetizadas na idade certa. O dado merece ser reconhecido como um avanço em relação aos últimos anos, especialmente após os impactos da pandemia. Mas também exige cautela. Afinal, quando quatro em cada dez crianças ainda não conseguem ler e escrever com a proficiência esperada ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, não há espaço para comemorações. Há espaço para trabalho.
A alfabetização é, talvez, a política pública mais importante de um país. Nenhuma nação se desenvolve de forma consistente sem garantir que suas crianças aprendam a ler, escrever e compreender aquilo que leem. Todo o restante da aprendizagem depende disso. E quando esse processo falha, as consequências não ficam restritas aos primeiros anos escolares. Elas acompanham o estudante durante toda a sua trajetória.
Como educadora, converso diariamente com professores de todas as regiões do Brasil. E uma frase se repete com frequência preocupante: “Recebemos alunos no 5º, no 6º e até no 9º ano que ainda não conseguem ler adequadamente.” Isso significa que o problema não começa no Ensino Fundamental II. Ele apenas se torna mais evidente ali. A dificuldade nasceu muito antes e foi sendo acumulada ao longo dos anos.
Quando uma criança não consegue acompanhar a aprendizagem, a escola deixa de ser um espaço de descobertas e passa a ser um lugar de sucessivos fracassos. É nesse contexto que muitos estudantes começam a desenvolver desinteresse, comportamentos de indisciplina, baixa autoestima e até abandonam a escola. Em alguns casos, dificuldades persistentes de aprendizagem também favorecem conflitos entre os pares, aumentando a vulnerabilidade ao bullying – tanto como vítima quanto como agressor. Nem toda indisciplina nasce da dificuldade de aprender, mas ignorar essa relação significa deixar de enfrentar uma das raízes do problema.
Por isso, sempre digo que discutir alfabetização é discutir a primeira infância. Existe uma tendência de associar alfabetização apenas ao momento em que a criança começa a juntar letras, formar sílabas e escrever palavras. Mas a ciência já demonstrou que esse processo começa muito antes.
Uma criança inicia sua alfabetização quando amplia seu vocabulário, quando ouve histórias, quando canta, brinca, manipula objetos, desenvolve coordenação motora, organiza seu pensamento, aprende a esperar sua vez, identifica padrões, faz perguntas e explora o mundo.
Cada conversa, cada livro lido, cada brincadeira simbólica e cada experiência concreta ajudam a construir conexões neurais que serão fundamentais para a leitura e para a escrita. É justamente por isso que investir na primeira infância nunca é um gasto. É um dos investimentos de maior retorno social que um país pode fazer.
Outro aspecto que precisa entrar definitivamente nessa discussão é o uso das telas. A frase mais verdadeira sobre esse tema é: “o Brasil se digitalizou antes de se alfabetizar”. Afinal, nunca tivemos tanto acesso à tecnologia. Também passamos cada vez mais horas conectados. Ao mesmo tempo, nunca foi tão comum encontrar crianças com vocabulário reduzido, dificuldades de atenção, baixa tolerância à frustração e pouco interesse pela leitura.
A tecnologia não é a vilã dessa história. Ela faz parte da sociedade em que vivemos e continuará fazendo. O problema aparece quando ela substitui experiências que o cérebro infantil precisa viver presencialmente.
Nenhum vídeo substitui uma conversa. Nenhum aplicativo substitui uma boa história contada por um adulto. Nenhuma tela substitui a riqueza cognitiva de uma criança construindo com blocos, desenhando, brincando de faz de conta ou resolvendo pequenos desafios do cotidiano.
A alfabetização também não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva do professor alfabetizador. Ela depende de uma rede inteira funcionando. Depende de políticas públicas consistentes, formação continuada dos docentes, materiais pedagógicos de qualidade, gestores preparados para acompanhar indicadores de aprendizagem, famílias participativas e intervenções precoces sempre que surgirem dificuldades.
Esperar que a criança “amadureça” para aprender costuma significar perder um tempo precioso do desenvolvimento cerebral. Quanto mais cedo identificamos dificuldades, maiores são as possibilidades de intervenção e melhores tendem a ser os resultados.
Também precisamos compreender que alfabetizar não significa apenas ensinar alguém a decodificar palavras. Uma criança plenamente alfabetizada lê, interpreta, estabelece relações, questiona, argumenta, produz sentido e utiliza a leitura e a escrita para participar da vida em sociedade. Esse é o verdadeiro objetivo da alfabetização.
Da mesma forma, não podemos esquecer que ela caminha lado a lado com o letramento matemático. Enquanto discutimos leitura e escrita, muitas crianças também chegam à escola sem experiências concretas com classificação, comparação, formas geométricas, sequências, espaço, quantidade e resolução de problemas. Essas habilidades começam a ser desenvolvidas muito antes da educação formal e influenciam diretamente o raciocínio lógico, a aprendizagem da matemática e até competências que hoje continuam desafiando a própria Inteligência Artificial, como a visualização espacial e determinados problemas geométricos.
Ensinar uma criança a pensar sempre será mais importante do que fazê-la decorar respostas. Os 59,2% mostram que avançamos. Mas mostram, principalmente, que ainda temos um enorme caminho pela frente.
Precisamos abandonar a cultura das soluções rápidas e compreender que a alfabetização exige continuidade, investimento, formação e compromisso coletivo. Nenhum país transforma sua realidade econômica, social ou tecnológica sem antes transformar sua educação. E nenhuma transformação educacional acontece sem uma alfabetização sólida.
O futuro do Brasil não será definido apenas pelos avanços da Inteligência Artificial, pela digitalização ou pelas novas tecnologias. Ele continuará sendo definido pela capacidade que tivermos de garantir que nossas crianças aprendam a ler, escrever, interpretar, pensar e compreender o mundo.
Quando falhamos na alfabetização, não comprometemos apenas o desempenho escolar. Comprometemos a autoestima, as oportunidades, a permanência na escola e o futuro de uma geração inteira. Alfabetizar continua sendo o investimento social mais inteligente e mais urgente que um país pode fazer.
***Gestora educacional, especialista em Educação, palestrante, neuropedagoga e CEO da **Petit Kids Cultural Center










