Às vésperas do Educador Global BH, lideranças discutem como currículo, tecnologia, formação e novas demandas das famílias estão mudando decisões nas escolas
A educação global começa a deixar de ser uma agenda associada apenas ao ensino de idiomas, aos intercâmbios ou às experiências internacionais e passa a alcançar decisões mais amplas dentro das escolas. Para gestores e mantenedores, a mudança envolve currículo, formação de equipes, relacionamento com famílias, parcerias, tecnologia e até a definição da proposta de valor da instituição. É esse movimento que estará no centro das discussões do Educador Global BH 2026, marcado para 2 de setembro, no Colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte.
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A transformação ocorre ao mesmo tempo em que as escolas enfrentam uma combinação de pressões: avanço da inteligência artificial, mudanças nas expectativas das famílias, novas demandas dos estudantes, necessidade de sustentabilidade financeira e busca por diferenciação em um mercado cada vez mais competitivo. Nesse cenário, incorporar uma perspectiva global não significa simplesmente acrescentar novos programas à oferta existente. Significa avaliar se a estrutura da escola está preparada para formar estudantes capazes de atuar em ambientes mais conectados, diversos e imprevisíveis.
Para Lara Crivelaro, CEO da Efígie Academy, doutora em Ciências Sociais e especialista em internacionalização da educação, essa mudança já pode ser percebida na própria natureza das decisões tomadas pelos gestores. “A principal mudança na forma como os gestores enxergam a educação global foi a passagem de uma pauta de posicionamento institucional para uma pauta de gestão curricular e operacional”, disse. Segundo a especialista, currículo bilíngue, certificações internacionais, parcerias com universidades estrangeiras e formação de equipes já integram uma agenda que ultrapassa a comunicação institucional.
Essa mudança também coloca uma questão anterior à escolha de qualquer programa ou solução: por que a escola quer se internacionalizar? Lara considera essa pergunta essencial para evitar que a educação global seja incorporada apenas como resposta à concorrência ou à demanda das famílias. “Qual problema de gestão essa escola está, de fato, tentando resolver quando fala em internacionalização?”, questionou. Na sua opinião, a resposta precisa estar relacionada ao propósito da instituição e aos resultados que pretende produzir para seus estudantes.
A discussão ganha outra dimensão quando observada por uma escola com trajetória consolidada. Zuleica Reis Ávila, diretora executiva do Colégio Santa Dorotéia, que receberá o encontro, considera que as lideranças educacionais hoje precisam lidar com desafios que ultrapassam a dimensão pedagógica. Inteligência artificial, formação e valorização dos educadores, saúde emocional, inclusão, sustentabilidade financeira, governança e uso de dados estão entre as questões que, segundo ela, já fazem parte da agenda dos gestores.
O desafio é transformar inovação em decisão de gestão
A ampliação dessa agenda muda também o papel da liderança escolar. Se a educação global passa a envolver currículo, formação profissional, tecnologia e relações institucionais, sua implementação não pode depender de um único departamento ou de iniciativas isoladas. Lara aponta decisões como a escolha de currículos e certificações, a criação de estruturas de aconselhamento acadêmico, a avaliação de parcerias internacionais e o planejamento de missões de formação como exemplos de questões que exigem visão estratégica e recursos próprios.
Esse processo também demanda uma mudança na organização interna. A internacionalização precisa dialogar com coordenação pedagógica, orientação acadêmica, formação docente e planejamento institucional para produzir efeitos consistentes. Para Zuleica, a resposta das escolas às novas demandas não deve significar abandono de sua história ou de seus valores. “A tradição não está na resistência à mudança, mas na fidelidade aos valores que sustentam a missão da instituição”, afirmou a diretora executiva do Santa Dorotéia.
A ideia é especialmente relevante para escolas tradicionais, que precisam equilibrar reconhecimento institucional e capacidade de adaptação. Em vez de tratar inovação como ruptura, Zuleica defende que a escola encontre novas maneiras de colocar sua missão em prática. “Inovar não significa abandonar a essência, mas encontrar novas maneiras de vivê-la”, disse. Essa perspectiva desloca a discussão da simples adoção de tendências para uma decisão mais complexa: quais mudanças realmente fortalecem a proposta educativa da instituição?
A mesma lógica vale para a educação global. Uma escola pode ampliar parcerias internacionais, oferecer certificações ou criar programas bilíngues sem necessariamente construir uma estratégia coerente de formação. O ponto, portanto, não está na quantidade de iniciativas, mas na capacidade de conectá-las ao currículo, às competências que a instituição pretende desenvolver e às necessidades de sua comunidade. Para o gestor, isso significa transformar uma tendência de mercado em uma escolha institucional consciente.
Lideranças precisam decidir que escola querem preparar para o futuro
É nesse ponto que os diferentes eixos do Educador Global BH se encontram. Inteligência artificial, personalização da aprendizagem, competências globais, formação humana, inovação pedagógica e internacionalização podem parecer agendas distintas, mas produzem uma mesma pressão sobre a gestão: rever modelos que funcionaram em outro contexto e decidir quais precisam evoluir. O encontro reunirá especialistas e lideranças justamente para discutir como essas mudanças podem ser traduzidas em práticas escolares.
A programação terá entre seus destaques o debate conduzido por Luciane Stallivieri, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e consultora em internacionalização da educação, sobre como a educação global está redesenhando a escola do século 21. Lara Crivelaro também participará das discussões, ao lado de especialistas como Gabriel Lobo, CEO da Lumni Educação, e Karla Vignoli, especialista em práticas pedagógicas e integrante da equipe técnica da Efígie Academy, em debates que aproximam tecnologia, personalização e experiências de aprendizagem.
O encontro também discutirá o chamado currículo invisível, reunindo Lara, Carlos Alberto de Freitas Junior, integrante do Conselho Diretor do Colégio Santa Dorotéia, Kátira Cristina Coelho, gestora educacional e representante regional do Instituto ELA, e Karla Vignoli. A discussão amplia o conceito de formação para experiências, protagonismo, cidadania e competências que podem influenciar a trajetória acadêmica e profissional dos estudantes.
Para Zuleica, o principal resultado de um encontro de lideranças deve aparecer depois que os participantes retornarem às suas instituições. “Que cada participante volte disposto a promover mudanças significativas, fortalecer sua comunidade educativa e renovar o propósito de formar cidadãos capazes de construir uma sociedade mais justa, solidária e humana”, disse. A expectativa traduz o desafio colocado à gestão: não apenas conhecer novas ideias, mas selecionar aquelas que fazem sentido para a realidade de cada escola.
À medida que a educação global passa a atravessar decisões de currículo, pessoas, tecnologia e posicionamento institucional, a questão deixa de ser se as escolas precisam acompanhar essa transformação. O desafio passa a ser definir como fazer isso sem perder coerência entre inovação, identidade e propósito educativo. É essa discussão que o Educador Global BH pretende colocar diante das lideranças em 2 de setembro, em Belo Horizonte.










