Na Coluna Formação de Professores de agosto, Amábile Pacios defende uma formação continuada conectada à prática, à colaboração e ao desenvolvimento profissional
A formação de professores não termina quando o diploma de graduação é entregue. Ao contrário: é a partir da entrada na instituição de ensino que muitos dos conhecimentos construídos durante a formação inicial passam a ser confrontados com a complexidade da prática cotidiana. É nesse encontro entre teoria, experiência e reflexão que se consolidam os chamados saberes docentes.
Por isso, discutir formação continuada exige ir além da ideia de cursos, palestras ou capacitações pontuais. Essas iniciativas têm sua importância e podem contribuir para atualização profissional, mas o desafio atual é compreender que o desenvolvimento do professor não acontece em momentos isolados. Ele é um processo permanente, construído ao longo da carreira e relacionado diretamente aos desafios reais da escola.
Durante muito tempo, a formação continuada foi organizada a partir de uma lógica de transmissão: identificava-se uma necessidade, oferecia-se um curso e esperava-se que novos conhecimentos fossem incorporados à prática. Esse modelo, embora tenha produzido avanços importantes, apresenta limitações quando não existe acompanhamento, continuidade e conexão com o cotidiano dos professores.
Ensinar é uma atividade complexa. O professor precisa dominar conteúdos, compreender processos de aprendizagem, lidar com diferentes perfis de estudantes, tomar decisões diante de situações imprevistas e construir estratégias que façam sentido para sua realidade. Esses conhecimentos não são adquiridos apenas em manuais ou formações teóricas; eles também são construídos na experiência, na troca entre pares e na reflexão sobre a própria prática.
Esse conjunto de conhecimentos construídos pelos professores ao longo da trajetória profissional constitui uma dimensão fundamental dos saberes docentes. Valorizar esses saberes não significa reduzir a importância da formação acadêmica, mas reconhecer que a escola também é espaço de produção de conhecimento.
Essa compreensão muda o papel da formação continuada. O professor deixa de ser visto como alguém que precisa apenas receber novas informações e passa a ser reconhecido como um profissional que analisa sua prática, produz conhecimento e participa ativamente do seu próprio desenvolvimento.
Nesse novo modelo, ganham relevância estratégias como comunidades de aprendizagem, grupos colaborativos, mentoria, acompanhamento pedagógico e pesquisa sobre a própria prática. São experiências que aproximam formação e realidade escolar, permitindo que o professor estabeleça relações entre os conhecimentos estudados e os desafios que enfrenta diariamente.
Essa mudança também exige uma nova postura das instituições formadoras e das redes de ensino. Mais do que oferecer uma agenda de cursos, é necessário construir políticas de desenvolvimento profissional que garantam continuidade, acompanhamento e participação dos docentes.
O desafio torna-se ainda maior diante das transformações que atravessam a educação contemporânea. A inteligência artificial, as novas formas de acesso ao conhecimento, as mudanças no perfil dos estudantes e as demandas relacionadas à saúde mental e à convivência escolar exigem um professor em constante aprendizagem.
Nenhuma formação inicial, por mais sólida que seja, consegue antecipar todas as situações que o profissional enfrentará ao longo de sua carreira. Por isso, a atualização permanente não deve ser vista como uma correção de lacunas da graduação, mas como uma característica própria de uma profissão que lida diariamente com pessoas, conhecimento e transformação social.
É importante também reconhecer que o desenvolvimento profissional depende de condições concretas. Professores precisam de tempo para estudar, planejar coletivamente, trocar experiências e refletir sobre suas escolhas pedagógicas. Sem essas condições, a formação continuada corre o risco de permanecer distante da prática e de não produzir as mudanças esperadas.
O futuro da formação docente passa, portanto, por uma mudança de perspectiva. O objetivo não deve ser apenas oferecer mais cursos, mas criar ambientes em que os professores possam continuar aprendendo ao longo da carreira.
A formação continuada do século XXI precisa deixar de ser entendida como um evento e ser reconhecida como parte estruturante da profissão docente. É nesse movimento contínuo entre conhecimento científico, experiência e reflexão que se fortalecem os saberes docentes e se constroem professores mais preparados para os desafios de uma escola em permanente transformação.

Amábile Pacios é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e ex-conselheira Nacional de Educação, com atuação destacada na Câmara de Educação Básica. Educadora com mais de 30 anos de experiência, é autora de livros didáticos e presidente do Grupo Educacional Dromos. Reconhecida por sua liderança no setor educacional, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2022, em homenagem aos seus serviços prestados à educação brasileira.










