A colunista Lara Crivelaro reflete sobre como a educação global e a internacionalização se fortalecem com a inteligência artificial e as competências humanas
A educação do futuro não se define mais pela mera transmissão de conteúdos. Em um cenário cada vez mais permeado pela inteligência artificial (IA), formar competências, construir conexões significativas e interpretar os contextos locais e globais tornam-se os pilares centrais do processo educativo.
A presença crescente da IA no ensino e no mercado de trabalho revelou que o diferencial humano reside exatamente nas habilidades que a tecnologia não consegue simular: empatia, criatividade, pensamento crítico e adaptabilidade. Conforme aponta o relatório do World Economic Forum, as competências mais demandadas em 2030 incluem o pensamento analítico, a criatividade, a resiliência, a agilidade, a alfabetização tecnológica, a curiosidade intelectual, a aprendizagem contínua, a liderança social e a escuta ativa. Ou seja, serão habilidades profundamente ligadas à capacidade de agir com responsabilidade, criatividade e consciência em ambientes complexos e em transformação.
Neste novo paradigma, a educação precisa reformular suas práticas pedagógicas. O movimento de superação do modelo tradicional, centrado em provas e notas, já se fazia necessário antes da ascensão da IA, mas agora torna-se ainda mais urgente. A aprendizagem ativa, personalizada, contínua e orientada para o protagonismo do estudante – princípios como a heutagogia e a valorização de micro momentos educativos – passam a ser fundamentais para formar indivíduos capazes de navegar com autonomia e responsabilidade em sociedades cada vez mais interconectadas.
Educar com inteligência artificial é também educar para a cidadania global. Em um mundo marcado por fluxos intensos de informação, mobilidade e desafios transnacionais – como as mudanças climáticas, as crises sanitárias e as desigualdades sociais – torna-se imprescindível preparar os estudantes para atuarem como cidadãos do mundo. A cidadania global implica a capacidade de reconhecer a interdependência entre os povos, respeitar a diversidade cultural, agir com ética em escala local e global e contribuir para a construção de sociedades mais justas e sustentáveis.
Nesse sentido, a internacionalização da educação básica emerge como uma estratégia decisiva. Promover a internacionalização não se restringe à oferta de intercâmbios ou diplomas duplos; trata-se de integrar ao currículo competências globais, expandir repertórios culturais, desenvolver a consciência intercultural e fomentar a capacidade de dialogar e colaborar em diferentes contextos. A escola internacionalizada cria oportunidades para que os estudantes compreendam que seus atos possuem impactos além de suas fronteiras imediatas e que soluções para problemas globais exigem cooperação, criatividade e empatia.
Além disso, experiências de internacionalização — sejam elas curriculares, linguísticas, interculturais ou acadêmicas — contribuem para o fortalecimento das habilidades cognitivas e socioemocionais que serão mais valorizadas no mercado de trabalho global. Estudantes expostos a contextos internacionais tendem a desenvolver maior flexibilidade cognitiva, competência comunicativa em línguas estrangeiras, pensamento crítico aprimorado e uma postura ética diante das diferenças.
A presença da IA na educação, portanto, não representa uma ameaça, mas uma oportunidade. Exige, no entanto, que professores, gestores e estudantes assumam novos papéis: ensinar passa a ser cada vez mais orientar, acolher e cocriar trilhas de aprendizagem significativas, que preparem os estudantes para atuar no mundo digital e, ao mesmo tempo, preservem e desenvolvam sua dimensão humana e cidadã.
Educar na era da inteligência artificial é preparar para o futuro sem abrir mão da nossa humanidade. É integrar tecnologia, cidadania global e internacionalização em uma visão ampliada de educação — capaz de formar indivíduos aptos a contribuir para sociedades mais inovadoras, inclusivas e sustentáveis em escala global.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










