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Para formar jovens de maneira integral, as escolas devem ter um olhar atento às competências intelectual, física, socioemocional e cultural

Luciana Allan*

Existe uma grande confusão no horizonte de quem quer melhorar a Educação brasileira: a falha na diferenciação entre Educação Integral e ensino em tempo integral. Não são conceitos equivalentes entre si. Pelo contrário!

Até mesmo o novo Plano Nacional de Educação (PNE) 2024-2034, que apresenta avanços e sobre o qual escrevemos uma Nota Técnica, ainda carece de um refinamento nesse entendimento.

Ensino em tempo integral é aquele oferecido pelas escolas em dois turnos, manhã e tarde. Ou seja, refere-se à carga horária ampliada (de 7 a 9 horas diárias) de permanência do aluno dentro da escola.

Já a Educação Integral refere-se a fornecer experiências pedagógicas para o desenvolvimento de múltiplas competências – intelectuais, físicas, socioemocionais e culturais – e de uma visão de mundo mais abrangente. Além da aprendizagem do currículo básico estabelecido no país, tem como objetivo formar pessoas para estarem no mundo de forma plena. Pessoas capazes de enxergar o seu entorno, sensíveis aos desafios globais, capacitadas para se comunicar e exercer a própria cidadania.

Nesse sentido, opto por defender em nível pessoal e institucional, o termo Educação Integradora como um elemento fundamental do processo educacional, para termos uma formação que incorpora diferentes áreas do conhecimento e aspectos da vida dos estudantes.

Como promover a Educação Integradora (ou Integral)

Formar integralmente implica em desenvolver as competências cognitivas básicas (leitura, escrita, raciocínio lógico, interpretação de texto, resolução de problemas), as socioemocionais e as digitais.

Na prática significa oferecer estímulos que transcendam o conteúdo específico das disciplinas obrigatórias como atividades e oficinas de esporte, cultura, voluntariado, novas tecnologias, aprendizado de línguas e, inclusive, usar outros espaços fora dos muros da escola: plantar uma horta numa praça, ir a um museu ou teatro, visitar um asilo… tudo que amplie a visão de mundo. Isso é extremamente enriquecedor.

Por exemplo, com acesso à internet, pode-se criar um projeto com uma escola em outro estado, ou até em outro país. Colocar jovens em contato com pessoas de realidades diferentes cria oportunidade de respeitar mais culturas e formas de se viver. Isso é formação integral.

É também viabilizar que meninas e meninos sonhem com uma nova realidade para si e seu entorno e, com isso, se tornem protagonistas na geração de impacto positivo.

A iniciativa de melhorar a si mesmo e a comunidade onde se está inserido – que pode ser a família ou o local onde se mora – exige conseguir pensar, ter equilíbrio emocional, entendimento do contexto e participação ativa.

A Educação Integradora proporciona, a um futuro próximo, adultos que gerenciarão bem suas vidas, farão escolhas conscientes, decidirão o que querem, terão iniciativa para correr atrás de um estágio ou emprego, e coragem de dizer o que pensam.

Logicamente, para se atingir isso, o trabalho em sala de aula tem que ser planejado a partir de outros princípios educacionais. E um novo paradigma que emerge. No Crescer, trabalhamos com sete princípios educacionais que dialogam bem com o entendimento que temos sobre uma educação integradora e que nos permitem colaborar para pulverizar boas práticas em ambientes educacionais diversos. São eles:

Fazer florescer o desejo de aprender

O encantamento por aprender potencializa nossa capacidade de agir e refletir sobre o mundo. Criar oportunidades de aprendizagem com significado parte de compreender os participantes e suas necessidades, proporcionando experiências personalizadas e engajadoras, que alcancem seus desejos de crescimento e transformação.

Atuar com múltiplas abordagens

Promover práticas educacionais transformadoras requer articular abordagens, áreas de estudo, metodologias e recursos. A integração de elementos, estratégias e aportes conceituais tem em vista contemplar a riqueza da diversidade humana, buscando que os participantes se envolvam nos processos de aprendizagem, nas tomadas de decisão e na resolução de desafios.

Praticar uma educação inclusiva e antirracista

Todas as pessoas devem ter condições de sonhar e transformar suas vidas. A construção de uma sociedade mais justa e equitativa exige a efetiva inclusão de grupos minorizados, povos tradicionais, comunidades periféricas ou em situação de vulnerabilidade e pessoas com deficiência em todos os processos educativos e espaços de decisão.

Contribuir para o desenvolvimento de competências

Pessoas com competências cognitivas, digitais e socioemocionais fortalecidas sentem-se mais seguras para produzir conhecimentos, solucionar problemas e conviver de forma criativa, respeitosa e solidária. Mais do que ensinar conteúdos, as práticas devem contribuir para o desenvolvimento de competências em uma perspectiva integral.

Encorajar usos criativos e responsáveis de tecnologias digitais

A intencionalidade na utilização de tecnologias digitais é um dos atributos fundamentais de práticas pedagógicas de sucesso. Isso significa que não devem ser vistas como um fim em si mesmo, mas como mobilizadoras de novas formas de aprender, criar, compartilhar e se relacionar, exigindo ética, segurança e responsabilidade.

Favorecer a aprendizagem a qualquer hora, em qualquer lugar

Repensar os tempos e espaços de aprendizagem é reconhecer a cidade, a natureza e os múltiplos espaços de convívio, incluindo o virtual, como ambientes com ricas oportunidades educacionais, disponíveis a todo momento, para qualquer idade, e que convidam à mediação para a construção e a partilha de saberes.

Educar para a sustentabilidade

A consciência e a responsabilidade socioambientais são centrais nos processos pedagógicos e devem resultar em ações que protejam a vida em todas as suas formas e espécies. Iniciativas locais podem inspirar respostas para desafios globais, destacando a interconexão do bem-estar social, da proteção ambiental e do crescimento econômico para um futuro saudável, removendo as distâncias entre a natureza e os seres humanos.

O objetivo mais amplo é produzir conhecimentos, solucionar problemas e conviver de forma criativa, respeitosa e solidária.

O professor é o ator principal desta jornada educativa

Para colaborarem de forma efetiva nesse processo, educadores precisam cultivar uma atitude holística e curiosa diante das transformações da vida moderna. Devem fazer parte da sua formação: estar atentos às questões climáticas, tecnológicas e de sustentabilidade; manter-se antenados com a discussão sobre equidade de gênero; promover a diversidade, a inclusão e uma educação antirracista; e acolher o fato de que as pessoas aprendem de maneiras diferentes.

Isso tudo precisa ser desenvolvido e acrescentado ao repertório deles! Por isso, é imperativo subsidiar educadores, desde a faculdade, para que entendam a importância e a relevância do conceito de Educação Integradora e criem boas oportunidades de discussão.

Os adultos que estão nas escolas com nossas crianças e jovens precisam ter comportamentos, discurso e práticas condizentes com o que propõem como conteúdo.

É indiscutível que instituições com ensino em tempo integral levam imensa vantagem na promoção da Educação Integradora, pois têm mais tempo com alunas e alunos para criar atividades e estratégias diversificadas muito mais conectadas com os problemas do mundo real, para além do momento regular de aula, em geral usado para trabalhar os aspectos do currículo básico.

Precisamos do ensino em tempo integral para colocar em prática a formação integral. Hoje, só com meio período dentro da escola, restringimos as oportunidades de abundância e prosperidade de toda a nação.

*Doutora em Educação pela USP e diretora do Crescer, onde, há 25 anos, lidera projetos nacionais e internacionais na área de educação

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