No Summit Explore IA na Educação, especialistas discutem por que preparar professores para a era dos algoritmos é um desafio pedagógico, cultural e sistêmico
A formação docente em IA tornou-se um dos temas centrais do Summit Explore IA na Educação, refletindo uma preocupação crescente em todo o país: como preparar professores para ensinar, avaliar e orientar estudantes em um ecossistema informacional dominado por algoritmos, plataformas e conteúdos sintéticos. O encontro aconteceu no último dia 18 de novembro, no Insper, em São Paulo.
- Summit Explore discute IA na educação e novos rumos
O debate ganhou novas camadas ao mostrar que a discussão vai muito além da adoção de ferramentas — trata-se de revisar letramentos, práticas pedagógicas e a própria cultura escolar. No evento, essa discussão se entrelaçou com a urgência de repensar a formação docente inicial e continuada.
Em um dos painéis fireside junto com Rafael Parente, diretor-executivo do Instituto Salto, Claudia Costin, especialista em Educação e ex-diretora Global de Educação do Banco Mundial, destacou que o Brasil ainda forma professores com forte carga teórica e pouca prática, desconectado das realidades da sala de aula. Enquanto as escolas lidam com demandas que exigem análise, contextualização e feedback personalizado — áreas em que a IA pode ampliar o trabalho humano.
Para a especialista, o desafio é aproximar pedagogia, prática e digitalização. “Hoje há ferramentas que ajudam o professor a agir melhor, oferecendo feedbacks que seriam impossíveis de fazer manualmente”, resumiu Claudia Costin.

Legenda: Claudia Costin e Rafael Parente no fireside chat do auditório principal
Os especialistas defenderam que, para que a IA amplie as capacidades docentes, é preciso criar experiências de formação que incluam prática supervisionada, uso real de ferramentas e reflexão sobre tomada de decisão pedagógica. Parente reforçou, no mesmo painel, que a tecnologia deve assumir tarefas burocráticas para liberar o professor para o que é essencialmente humano. “A IA cuida do burocrático para que o professor se dedique ao que é humano”.
O Summit ainda posicionou a formação docente em IA como parte estruturante dos letramentos digitais e midiáticos contemporâneos. O desafio não está apenas no domínio técnico das ferramentas, mas na compreensão crítica de como elas moldam visões de mundo, influenciam processos de busca e interferem na construção de conhecimento dos estudantes.
A educação e os novos letramentos da era algorítmica
Mariana Ochs, do Educamídia, lembrou que educar com IA é apenas uma parte do desafio. O ponto decisivo, de acordo com a especialista, que ministrou um workshop no Summit, é educar para a IA, entendendo a presença dessas tecnologias no cotidiano e suas implicações para o acesso à informação, a produção de conteúdo e a construção da autonomia intelectual. “Toda introdução de tecnologia em larga escala é ecológica; ela muda coisas que a gente nem sempre prevê”, afirmou.
Essas transformações já são visíveis na convivência com a chamada mídia sintética — conteúdos produzidos por máquinas, alimentados por bases de dados incompletas, enviesadas ou naturalizadas. Os riscos associados vão de poluição informacional à padronização estética e cultural. Para a educadora, o maior perigo é invisibilizar as escolhas humanas embutidas nessas tecnologias, perdendo a capacidade crítica sobre o que é mostrado e o que fica de fora.



Mariana Ochs – Educamídia
Experimentos apresentados por Mariana Ochs com prompts para geração de imagens mostraram estereótipos persistentes e limitações profundas dos bancos de dados. O exercício expôs como a IA reforça padrões culturais hegemônicos quando não há intervenção educativa — e como crianças e jovens já utilizam essas ferramentas sem orientação adequada.
As normas brasileiras, segundo Mariana, começam a reconhecer esse cenário, integrando tecnologias inteligentes, preditivas e generativas às diretrizes de educação midiática. A proposta é avançar para um letramento algorítmico que envolva percepção, compreensão e apropriação crítica desses sistemas.
Nesse contexto, práticas pedagógicas situadas ganham protagonismo: explorar como algoritmos atuam em temas da própria disciplina, experimentar ferramentas com intenção didática e utilizar a pedagogia das perguntas — quem se beneficia, quem pode ser prejudicado, o que está invisível — como eixo estruturante da formação crítica.
Conforto tecnológico, cultura de aprendizagem e obstáculos reais
Se o debate conceitual é fundamental, o Summit mostrou que a implantação prática depende de condições muito concretas. O primeiro passo, apontou André Gusman, CEO do Grupo Raiz Educação, é garantir que o professor se sinta confortável em usar a IA para resolver tarefas cotidianas — e só então avançar para uma aplicação pedagógica mais sofisticada.

André Gusman, CEO do Grupo Raiz Educação
Para ele, discutir uso avançado sem domínio básico repete os erros de outras tecnologias introduzidas sem orientação. “A boa discussão pedagógica só vem depois do conforto com a ferramenta. O professor sai da faculdade, entra numa sala de aula e nunca mais acompanha uma boa aula de alguém”, afirmou durante um dos Talks do evento.
Painéis que trataram do “chão da escola” reforçaram que o tempo é o recurso mais escasso. Professores sobrecarregados têm pouco espaço para testar, errar e consolidar novos hábitos digitais. O professor, empreendedor e TEDx Speaker Albino Szesz Jr. sintetizou o cenário: “Muitos docentes fazem o básico porque não têm espaço para inventar mais”, disse o sócio-fundador da PiSigma.
Um ponto recorrente foi a necessidade de acesso — às ferramentas, à conectividade, às versões institucionais dos modelos de IA. E, para além da aprendizagem técnica, há entraves estruturais que impedem o professor de experimentar e incorporar a IA à sua rotina: falta de tempo, acúmulo de turmas, infraestrutura desigual e ausência de acesso consistente às ferramentas.

Mesa redonda formação do professor
Sem essas condições, a formação docente em IA se torna abstrata. Dentro desse contexto, Caio Camargo, formador de professor para tecnologias de apoio à aprendizagem no SESI, descreveu a IA como um copiloto que só funciona bem quando o piloto tem tempo para analisar o percurso e ajustar a rota. “Quem mantém a análise crítica e toma as decisões sempre será o professor”, afirmou Camargo.
Já Emerson Bento, diretor de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes, acredita que a barreira inicial é cultural: “O desafio é encontrar parceiros para abrir caminho e aprender a usar”. O especialista também chamou a atenção para a inevitabilidade desse acesso.“Se eu quero viver no mundo contemporâneo, eu não escapo de aprender a trabalhar com inteligência artificial”, afirmou.
A mediação destacou que políticas institucionais consistentes são essenciais para sustentar esse processo: jornadas revisadas, espaços de experimentação contínua e incentivo à observação entre pares. A formação, nesse contexto, passa a ser tratada como cultura organizacional. “O tempo para aprender e experimentar é um obstáculo central e precisa ser revisto”, pontuou Andreza Lopes, coordenadora do Comitê IA e Educação da I2AI.










