Na Coluna Formação de Professores, Amábile Pacios reflete sobre como preparar docentes é condição para transformar a inclusão em realidade
A inclusão é um dos maiores desafios da educação brasileira contemporânea. Não apenas porque requer investimentos em recursos materiais, tecnologias assistivas e adaptações curriculares, mas, sobretudo, porque precisa capacitar professores preparados para acolher a diversidade em suas salas de aula. Nos últimos anos, o Brasil avançou em marcos normativos importantes. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores, homologadas em maio de 2025, reforçam a necessidade de que as licenciaturas, as segundas licenciaturas e os cursos de formação pedagógica incorporem conteúdos e experiências que preparem os futuros docentes para atuar em contextos inclusivos. O Programa Mais Professores para o Brasil, instituído em junho, também sinaliza a importância da formação continuada nesse campo, ao prever bolsas, programas de residência e apoio para quem está no exercício da docência.
Esses movimentos são relevantes, mas não suficientes. Há um descompasso evidente entre o que a legislação prevê e o que as escolas conseguem colocar em prática. Professores lidam diariamente com muitos alunos de inclusão, falta de profissionais de apoio preparados,
Em muitos casos, a inclusão ainda se restringe a uma intenção generosa, mas pouco viável sem condições estruturais mínimas. A matrícula, única e exclusivamente, não garante a inclusão. É preciso que haja acesso ao currículo, participação nas atividades cotidianas da escola, sentimento de pertencimento e resultado.
É nesse ponto que a formação de professores se revela como chave para a transformação. A formação inicial deve ser capaz de apresentar a inclusão não como um conteúdo periférico, mas como eixo transversal da prática pedagógica. Isso implica estágios em escolas inclusivas, análise de casos reais, metodologias que valorizem diferentes ritmos de aprendizagem e diálogo interdisciplinar. Já a formação continuada precisa ser vista como um direito e uma necessidade vital, pois é dela que o professor retira segurança, repertório e confiança para inovar em sala de aula. É a formação continuada que garante a sustentabilidade da escola.
A tecnologia pode ser uma aliada poderosa nesse processo. Ferramentas digitais e inteligência artificial oferecem caminhos para personalizar a aprendizagem, adaptar conteúdos, além de flexibilizar o currículo e ampliar a comunicação acessível. Mas, sem preparo adequado, o risco é que essas soluções sejam subutilizadas ou, pior, aprofundem desigualdades. Mais uma vez, o professor está no centro da equação: é ele quem decide como, quando e por que utilizar tais recursos.
A inclusão começa na família e em suas escolhas
A responsabilidade pela inclusão na escola, no entanto, não pode ser delegada apenas ao professor. A gestão escolar, as famílias, as secretarias de educação e a sociedade em geral precisam assumir seu papel nesse processo. Ainda assim, é o educador quem transforma as políticas públicas em realidade no cotidiano da sala de aula, tornando possível que o direito à inclusão se concretize de fato.
Falar de inclusão, portanto, é falar de formação docente. Sem professores bem preparados, nenhuma política será capaz de se sustentar. A escola para todos não se constrói apenas com decretos ou leis, mas com investimento consistente na valorização e no desenvolvimento profissional daqueles que têm a missão de ensinar. É preciso lembrar que a inclusão não é apenas um princípio legal: é um compromisso ético, e só se realiza plenamente quando encontra respaldo na formação e no reconhecimento de cada professor.
Assim, falar em inclusão é converter as práticas educacionais ao acolhimento desses estudantes.

Amábile Pacios é vice-presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e ex-conselheira Nacional de Educação, com atuação destacada na Câmara de Educação Básica. Educadora com mais de 30 anos de experiência, é autora de livros didáticos e presidente do Grupo Educacional Dromos. Reconhecida por sua liderança no setor educacional, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2022, em homenagem aos seus serviços prestados à educação brasileira.










