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Na Coluna Educação Corporativa, Constanza Hummel reflete sobre as competências que sustentam o professor na era da IA e da reinvenção docente

Ser professor, hoje, é um ato de resistência e reinvenção.

Enquanto 21% do tempo de aula no Brasil é perdido com indisciplina — o equivalente a uma hora a cada cinco —, 44% dos docentes relatam interrupções constantes, mais que o dobro da média da OCDE (18%). Além disso, 52% afirmam que o excesso de tarefas administrativas é uma das principais fontes de estresse (TALIS, 2024). E, talvez o dado mais alarmante: 17% dos professores no mundo planejam deixar a profissão nos próximos cinco anos.

Esse cenário é urgente e revela uma ferida que não pode ser naturalizada. A sobrecarga é real, o nível de exigência é imenso e o entusiasmo — esse combustível invisível que sustenta a educação — está ameaçado.

Nos corredores das escolas e universidades, vemos profissionais exaustos, tentando equilibrar cuidado emocional, novas tecnologias, metas, relatórios e o desejo genuíno de ensinar.

Isso me faz pensar que precisamos urgentemente trabalhar sistemicamente, ou seja, em diversas frentes diferentes e complementares, como:

  • Combinados mais claros na sala de aula, trazer a disciplina como conteúdo e prática e repensar os tempos e movimentos do aluno em sala de aula.
  • Medir a carga de trabalho no âmbito administrativo e usando a inteligência artificial, melhorar a eficiência e diminuir o stress.
  • Reconhecer melhor esse profissional (salário, feedback e celebração) e cuidar da saúde mental desses professores.

Hoje, nesse artigo, dentro da minha expertise, vamos focar em quais competências sustentam um professor capaz de resistir, inovar e inspirar neste século. Vamos trazer 3 dimensões que podem trazer clareza e ao mesmo tempo reflexões quanto ao caminho do autodesenvolvimento.

Os indicadores: o retrato da docência hoje

Vamos começar compreendendo onde está a barra da docência hoje e como podemos medir seu impacto a curto e a longo prazo.

Diversos relatórios apontam que a efetividade docente — o impacto real do professor na aprendizagem — depende de fatores mensuráveis, como o tempo efetivo de instrução, o engajamento dos alunos e o clima de sala de aula.

Modelos internacionais, como o CLASS (Classroom Assessment Scoring System), avaliam a qualidade da interação entre professor e aluno, a gestão do tempo e o apoio ao desenvolvimento socioemocional.

No Brasil, há avanços na formação (a proporção de professores da educação básica sem graduação caiu de 23,8% em 2014 para 12,5% em 2024), mas desafios persistem — especialmente na Educação Infantil, onde 19,4% dos docentes ainda não possuem ensino superior completo.

Paralelamente, um dado positivo: 56% dos professores brasileiros já utilizam inteligência artificial em suas práticas, superando a média da OCDE (36%). Isso mostra que, mesmo sob pressão, há uma força de inovação pulsando na sala de aula.

A essência: o que nunca muda

A essência do bom educador segue inalterada — ela é o ponto de ancoragem em tempos de turbulência. Mais do que técnicas, trata-se de uma postura ética e humana diante do outro.

  • Empatia e sensibilidade relacional – o professor que escuta, acolhe e enxerga o aluno para além do conteúdo.
  • Domínio pedagógico e de conteúdo – aquele que transforma o conhecimento em experiência viva e significativa.
  • Reflexão e autocrítica – o educador que aprende com o próprio fazer, ajusta rotas e permanece curioso.
  • Gestão do ambiente de aprendizagem – o que cria espaços seguros e férteis para o aprender florescer.
  • Comunicação e escuta ativa – o que fala com clareza, mas também sabe ouvir com intenção.

Como mostram estudos do Instituto Ayrton Senna e da Edify Education, essas competências seguem sendo o núcleo emocional e cognitivo da docência — são elas que sustentam o vínculo, a confiança e a aprendizagem profunda.

A evolução: o que o tempo pede de nós

O professor contemporâneo é chamado a ir além da transmissão.
Ele precisa ser um designer de experiências de aprendizagem, um curador de sentidos e um tradutor do mundo.

Entre as novas competências demandadas estão:

  • Letramento digital e uso ético da IA – compreender a tecnologia como aliada criativa e crítica, não como ameaça.
  • Design de experiências de aprendizagem – planejar jornadas envolventes, integrando emoção, desafio e propósito.
  • Pensamento crítico e curiosidade investigativa – estimular o aluno a questionar, conectar e criar conhecimento.
  • Visão sistêmica e interdisciplinar – aproximar a escola da vida, conectando o local ao global.
  • Promoção da agência do aluno – ensinar a aprender, cultivando autonomia e responsabilidade.

Essas competências não substituem as anteriores — elas ampliam a potência do ensinar.

Como mostram estudos recentes sobre formação docente de 2025, o domínio ético da IA, a autorregulação da aprendizagem e a educação globalizada são agora pilares para o futuro da docência.

Entre o humano e as possibilidades infinitas

No fundo, ser professor em 2025 é caminhar sobre uma corda bamba entre o humano e o tecnológico.

É resistir ao cansaço, reinventar-se em meio à velocidade e continuar acreditando que cada aluno é uma possibilidade infinita de futuro.

Talvez o segredo esteja em uma equação simples:
preservar a alma e atualizar as asas.

Preservar a alma — aquilo que nos faz escolher essa profissão, apesar de tudo.
Atualizar as asas — as ferramentas, os métodos e as competências que nos permitem voar mais longe.

E não esquecer que o que mais transforma não é o conteúdo que entregamos, mas a presença que oferecemos.

“Educar é semear perguntas, não respostas.” — Paulo Freire

A pergunta que fica é: que professor o mundo precisa — e que mundo estamos ajudando a formar?

P.S. A coluna deste mês é dedicada a todos os professores que, em algum momento, iluminaram meu caminho com saber, generosidade e emoção. Em especial, à minha professora de Ciências, Rosemary Capp Rodrigues, e à minha amiga e inspiração, Julia Matias Moreira Simões — duas mulheres que ensinam com alma e fazem da educação um ato de amor.

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