Novo estudo do Cetic.br mostra uso crescente da IA por alunos e professores, mas revela baixa formação, incertezas éticas e falta de orientação institucional
O uso de inteligência artificial (IA) na educação já faz parte da rotina de estudantes e professores do Ensino Médio, mas ainda ocorre sem formação adequada ou orientação institucional. Essa é a principal constatação do novo estudo do Cetic.br, apresentado no Seminário INOVA IA 2025, no Rio de Janeiro. A pesquisa qualitativa ouviu especialistas, docentes e alunos de escolas públicas e privadas de São Paulo e Recife, aprofundando como a IA generativa está sendo incorporada — e onde surgem suas lacunas.
O levantamento revela um cenário de forte expansão: a tecnologia já permeia desde o planejamento de aulas até tarefas cotidianas dos estudantes. Porém, sua adoção avança de forma desigual entre redes de ensino e sem critérios pedagógicos claros.
A ausência de diretrizes, apontam os autores, cria um “pacto silencioso” sobre quando, como e para quê usar ferramentas de IA. Durante a apresentação, Rodrigo Brandão, pesquisador do Cetic.br e Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (Nic.Br), destacou um paradoxo que identificaram no conjunto das entrevistas: “O uso indiscriminado da IA é um grande risco, mas não se adaptar a ela, também é”.
Para professores, a tecnologia representa ganho de tempo e ampliação de estratégias pedagógicas. Para os alunos, funciona como apoio na organização da rotina, na produção de resumos e até no suporte emocional — um dado que chama atenção pelo impacto sobre autonomia e bem-estar. Esse uso espontâneo, no entanto, convive com dúvidas, riscos éticos e dificuldades de compreensão sobre o funcionamento da IA.
O estudo também se conecta às percepções registradas pela TIC Educação 2025, que já havia mostrado que 70% dos estudantes do Ensino Médio utilizam IA generativa em atividades escolares. O novo recorte qualitativo aprofunda esse dado ao mostrar que, além de comum, o uso já é sofisticado e estratégico.
Como a falta de diretrizes molda o uso da IA no cotidiano escolar
A pesquisa “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro” mostra que alunos diferenciam claramente o que consideram “uso pontual” — resumos, ideias, explicações rápidas — de usos que “geram dependência”, como pedir a resolução completa de uma atividade. Há até estratégias para contornar detectores automáticos, como inserir erros ou pedir que a ferramenta “humanize” textos.
Entre professores, a principal motivação é reduzir a sobrecarga de trabalho: planejar aulas, criar atividades, adaptar materiais didáticos e explorar abordagens alternativas. Apesar disso, muitos relatam insegurança sobre como avaliar produções feitas com apoio de IA ou como discutir ética e autoria com os estudantes.
A falta de formação estruturada também aparece como barreira. Embora docentes expressem forte interesse por capacitação, apontam falta de tempo, infraestrutura limitada e ausência de apoio institucional. Já os estudantes afirmam querer aprender sobre algoritmos, vieses, riscos e responsabilidades — temas raramente presentes no currículo.
Nos dois grupos, há consenso: a IA é inevitável no ambiente escolar, mas seu uso precisa ser orientado por políticas claras, práticas consistentes e mediação humana qualificada.
Desigualdades digitais ampliam assimetrias no uso da IA
Outro ponto central do estudo é a diferença entre redes públicas e privadas. Alunos e docentes de escolas privadas relatam maior familiaridade, conectividade adequada e acesso contínuo a ferramentas de IA. Nas escolas públicas, as dificuldades incluem falta de dispositivos, limitações de internet e poucas oportunidades de formação.
Esse cenário, afirmam especialistas consultados, pode aprofundar desigualdades educacionais já existentes. Enquanto alguns estudantes se tornam usuários avançados, experimentando novas formas de aprender e produzir, outros permanecem restritos a práticas básicas ou irregulares.
Apesar das barreiras, o interesse é unânime: tanto professores quanto alunos querem aprender mais e desejam diretrizes que tornem o uso da IA transparente, ético e pedagógico.
Nos debates do estudo, especialistas reforçaram que políticas públicas precisam considerar equidade tecnológica, formação docente contínua e integração curricular. Também chamaram atenção para os riscos: redução da análise crítica dos estudantes, impactos no esforço de aprendizagem e possibilidade de desumanização em processos que envolvem cuidado e suporte emocional.
O que o estudo indica para o futuro da IA na educação
Ao projetar o futuro, alunos e professores convergem na necessidade de integrar a IA de forma crítica, responsável e humanizada. Entre estudantes, surgem expectativas positivas — como ampliação de repertório e apoio na organização da rotina — e preocupações reais, como impactos no trabalho e qualidade das relações humanas.
Especialistas reforçam que diretrizes claras são essenciais para transformar o uso espontâneo em práticas pedagógicas significativas. Para isso, apontam caminhos: formação continuada, regulação responsável, infraestrutura adequada e envolvimento de múltiplos setores.
Nas palavras do Cetic.br, o estudo oferece subsídios concretos para que redes de ensino construam políticas capazes de dialogar com a complexidade da IA e suas implicações éticas, cognitivas e sociais. Um debate que se torna cada vez mais urgente — e que já está colocado dentro das salas de aula do país.










