Na Coluna Educação Global, Lara Crivelaro analisa o que 2025 revelou sobre IA e inovação — e os desafios que 2026 impõe à escola brasileira
Encerramos 2025 com uma sensação nítida de mudança estrutural na educação. Um ano que ficará marcado pela consolidação da Inteligência Artificial Generativa (IAGen) como pauta central das escolas, pelos debates éticos e pedagógicos que atravessaram redes públicas e privadas, e pelo reconhecimento crescente de que a tecnologia já não é um acessório do trabalho educativo — mas parte constitutiva do cotidiano escolar.
Entre tantas transformações, vivenciei neste ano um dos momentos mais simbólicos da minha trajetória: ver o livro A Escola com Inteligência Artificial Generativa: uma jornada transformadora para um futuro_ que já chegou_ citado como referência oficial na consulta pública realizada pelo Ministério da Educação sobre os usos responsáveis de IA na Educação.
Para mim e para todos os autores que participaram dessa construção coletiva, foi uma honra ver a obra se transformar em documento nacional de apoio para a tomada de decisão educacional. Uma comprovação de que a escola brasileira está disposta a enfrentar, com seriedade, os impactos da IA.
O livro — organizado por mim e por George Stein — parte de uma constatação simples e inescapável: a IA generativa não entrou nas escolas por meio dos órgãos reguladores, mas pelas mãos dos estudantes e dos professores. Ela se espalhou antes de ser compreendida. Tornou-se ferramenta antes de virar política. E, por isso, exige hoje uma resposta institucional mais madura, capaz de equilibrar inovação com humanidade, entusiasmo com responsabilidade, possibilidade com prudência.
A obra reúne mais de 120 anos de experiência de educadores, pesquisadores e especialistas que analisam desde formação docente, currículo e avaliação até ética, segurança, mediação pedagógica e cidadania global.
Ela nos lembra, sobretudo, que nada substitui o trabalho humano — e que a IA, para fazer sentido educacional, precisa ser usada com intenção pedagógica, consciência crítica e compromisso social.
2025 também nos ensinou que inovação educacional exige presença, rede e visão global
Se por um lado avançamos na compreensão teórica e normativa sobre a IA, por outro ficou evidente a necessidade de ampliar nossas referências internacionais.
Em janeiro de 2026, darei um passo nesta direção ao liderar uma das maiores imersões educacionais brasileiras no Reino Unido: uma Missão Internacional em Londres com mais de 80 mantenedores, diretores e educadores, organizada em parceria com instituições que dialogam diretamente com inovação, IA e reconfiguração curricular.
Visitaremos escolas centenárias e modelos tecnológicos de ponta. Conheceremos programas de formação docente baseados em mediação aumentada por IA. Estudaremos experiências que combinam dados, equidade e personalização. E, claro, participaremos da BETT UK, que há décadas antecipa tendências educacionais globais.
Essa missão não é uma viagem. É um marco.
É o reconhecimento de que o Brasil só conseguirá avançar na integração responsável da IA se ampliar seu repertório, observar o mundo, dialogar com o que há de mais inovador e retornar ao país com ideias que respeitem nossa realidade — mas que não se acomodem diante dela.
O que esperar de 2026?
Se 2025 foi o ano da conscientização, 2026 será o ano da decisão. As escolas precisarão responder a perguntas urgentes:
- Como estruturar políticas internas sólidas para uso de IA?
- Como equilibrar autonomia dos professores e diretrizes institucionais?
- Como revisar currículos que já não conversam com o mundo pós-IA?
- Como tratar a desigualdade interna de competências digitais entre docentes e estudantes?
- Como garantir ética, segurança e uso responsável em ambientes tão diversos?
- Como integrar IA, internacionalização e cidadania global em um projeto pedagógico coerente?
O cenário exige coragem, planejamento, formação e abertura. Não será um ano de transição suave — será um ano de escolhas institucionais profundas.
O futuro da escola brasileira dependerá das perguntas que ousarmos fazer agora
Para fechar este último artigo de 2025, deixo ao leitor algumas provocações — as mesmas que levarei para meus debates e formações no próximo ano:
- Quem está definindo o uso de IA na sua escola: a instituição ou a ausência de políticas?
- Estamos preparando estudantes para usar IA — ou para pensar criticamente sobre ela?
- A inovação que buscamos tem sido pedagógica ou apenas tecnológica?
- A IA está ampliando a aprendizagem ou apenas acelerando processos?
- Que tipo de cidadão global queremos formar em um mundo mediado por algoritmos?
2026 promete ser o ano em que a escola brasileira deixará de reagir à tecnologia para começar a conduzi-la de forma consciente.
Estarei aqui, mês a mês, acompanhando, analisando e provocando esse movimento na minha Coluna Educação Global.
Porque, se a IA já chegou, cabe a nós decidir que futuro educacional queremos construir com ela.

Doutora em Sociologia pela Unesp, Lara Crivelaro foi diretora de cursos de graduação e pós-graduação, pró-reitora, coordenadora geral de educação à distância e consultora de diversas universidades do Brasil.
Fundou a Efígie ao identificar uma lacuna na educação internacional e atualmente é CEO da empresa e também diretora-executiva do Instituto Educbank de Educação e Cultura.
Lara é avaliadora do Ministério da Educação (MEC) para credenciamento e autorização de cursos a distância e autora de cinco livros, sendo o último “A educação básica no palco internacional”.










