Pesquisa mostra que 78% dos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial nos estudos, enquanto escolas ainda estruturam políticas, formação docente e novas práticas pedagógicas
A inteligência artificial já chegou à rotina de estudos dos brasileiros, mas a escola ainda busca definir qual deve ser seu papel diante dessa mudança. Uma pesquisa da Opera com mais de 2,4 mil estudantes mostra que 78% dos entrevistados usam ferramentas de IA para estudar. Ao mesmo tempo, apenas 5% afirmam ter recebido orientação formal da instituição de ensino sobre como utilizar a tecnologia.
Os dados ajudam a explicar a mudança de foco no debate educacional. Nos primeiros anos da IA generativa, a preocupação predominante estava relacionada à cópia, às respostas prontas e à integridade acadêmica. Com a popularização das ferramentas, a questão passou a ser outra: como formar estudantes capazes de usar a tecnologia sem delegar a ela o próprio processo de aprendizagem?
Para Alex Paiva, head do Educacional, a mudança representa um amadurecimento da discussão. “A discussão amadureceu. Hoje, a questão central não é mais se a IA estará presente na escola, mas como preparar os alunos para utilizá-la de maneira crítica, ética e produtiva”, afirmou. Na avaliação do executivo, proibir o acesso perdeu eficácia diante da presença da tecnologia no cotidiano de estudantes e profissionais.
A pesquisa da Opera reforça esse cenário. Entre os estudantes ouvidos, 34% afirmam iniciar pesquisas diretamente em ferramentas de IA ou consultá-las antes dos mecanismos tradicionais de busca. Para 71%, a tecnologia ajuda a compreender melhor os conteúdos, enquanto 52% apontam a confiabilidade das informações como o principal aspecto que precisa melhorar.
O comportamento dos estudantes também revela uma contradição. A IA é cada vez mais utilizada, mas sua aprendizagem ainda acontece principalmente de forma autodidata. Segundo o levantamento, mais da metade dos participantes aprendeu sozinho a utilizar as ferramentas, enquanto 40% nunca receberam orientação institucional sobre seu uso nos estudos.
O que a escola precisa ensinar na era da IA
A presença da IA muda também o valor atribuído a determinadas competências. Se sistemas conseguem produzir textos, responder perguntas e executar tarefas rapidamente, a escola precisa ampliar o espaço dedicado ao julgamento, à argumentação e à autonomia intelectual. Pensamento crítico, criatividade, comunicação, colaboração, ética e resolução de problemas ganham peso nesse cenário.
Essas competências não se desenvolvem apenas com transmissão de conteúdo. Projetos interdisciplinares, estudos de caso, problemas reais, debates e produção autoral criam situações nas quais o estudante precisa interpretar informações, formular hipóteses e justificar decisões. “A IA pode apoiar esse processo, mas não substitui a reflexão nem o desenvolvimento da autonomia intelectual”, afirmou Paiva.
A implementação da BNCC Computação também amplia essa discussão. Para Paiva, a política contribui para uma concepção de educação digital que vai além do domínio de ferramentas. O objetivo envolve compreender como as tecnologias funcionam, quais problemas resolvem e quais riscos podem produzir.
Esse conhecimento ganha importância diante dos próprios limites dos sistemas de inteligência artificial. Modelos podem reproduzir vieses, cometer erros e refletir escolhas presentes nos dados utilizados em seu desenvolvimento. Ensinar os estudantes a reconhecer essas limitações passa a fazer parte da formação para a cidadania digital.
A questão chega diretamente ao trabalho docente. Para Paiva, a IA potencializa a aprendizagem quando apoia o raciocínio, oferece perspectivas, organiza ideias ou fornece feedback. O problema surge quando elimina etapas essenciais da construção do conhecimento, como refletir, argumentar, resolver problemas e produzir uma resposta própria.
IA também coloca a avaliação escolar em xeque
A diferença entre apoio e atalho depende, em grande parte, da intenção pedagógica e da forma como as atividades são desenhadas. Se o estudante apenas copia uma resposta produzida por uma ferramenta, reduz o esforço imediato, mas também perde uma etapa de aprendizagem. Por isso, o avanço da IA pressiona a escola a observar não apenas o resultado final, mas o processo que levou até ele.
Essa mudança pode alcançar as próprias formas de avaliação. Registros de aprendizagem, justificativas, revisões e aplicações em situações reais tornam mais visível o percurso do estudante. O professor passa a ter mais elementos para identificar como uma resposta foi construída e quais competências foram mobilizadas.
O desafio, portanto, não se resume à infraestrutura disponível. Na avaliação de Paiva, uma escola pode ter acesso às melhores ferramentas sem produzir uma transformação educacional consistente. A maturidade diante da IA aparece quando a instituição revê objetivos de aprendizagem, avaliação e os papéis de professores e estudantes.
A pesquisa da Opera, realizada por meio de formulário online disponibilizado em seus navegadores, mostra que os próprios estudantes já percebem parte dessa necessidade. O levantamento ouviu mais de 2,4 mil estudantes brasileiros, de 14 a 35 anos ou mais, de instituições públicas e privadas. A coleta ocorreu entre 17 de abril e 5 de junho de 2026.
Além de buscarem respostas, eles demonstram preocupação com a confiabilidade das informações e interesse por ferramentas que apresentem o processo de aprendizagem. O dado sugere uma demanda que ultrapassa a simples velocidade na obtenção de resultados.
A inteligência artificial, nesse cenário, não retira a responsabilidade da escola pelo aprendizado. Ao contrário, amplia a necessidade de uma cultura pedagógica capaz de ensinar quando recorrer à tecnologia, como questionar suas respostas e onde termina sua utilidade. A maturidade institucional tende a aparecer menos na quantidade de ferramentas disponíveis e mais na qualidade das experiências de aprendizagem construídas com elas.










