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George Stein propõe um novo perfil de liderança educacional para conduzir transformações responsáveis diante da inteligência artificial generativa

Em época de Inteligência Artificial Generativa (IAGen), o universo das organizações avança com ideias, processos, termos e modismos que acabam por influenciar as lideranças educacionais. Mas a realidade e as necessidades das instituições de ensino são bem distintas. Vivemos um período de potenciais transformações enormes, e lidar com elas é essencialmente diferente em organizações cujo objetivo é o desenvolvimento humano. Já não faz mais sentido nomear escolas e faculdades apenas de instituições de ensino: a IAGen está gerando tensões e rupturas que demandam um novo perfil de liderança, capaz de conduzir uma jornada que transforme instituições de ensino em instituições de aprendizagem.

A ideia da liderança agêntica para aprendizagem surgiu como resposta a essas tensões, a partir de uma análise crítica dos termos e propostas que emergem do mundo corporativo, e da necessidade de líderes educacionais protagonistas de uma jornada de inovação necessária, ética e coerente com nossos tempos.

O contexto atual

Além da minha atuação junto a escolas e faculdades, tenho acompanhado os desafios de organizações cujo objetivo final não é educacional diante da IAGen, que aparece de maneira ambígua e obrigatória na agenda da liderança.

De um lado, há promessas benéficas: melhores resultados, mais produtividade, processos mais responsivos. De outro, questionamentos sobre riscos, modismo e sustentabilidade da tecnologia no longo prazo. Apesar dessa dualidade, dois pontos já são consenso: a tecnologia já está presente na realidade organizacional, e a responsabilidade pelo seu uso é sempre humana: é preciso ter condições de avaliar e atuar sobre os resultados gerados pela IAGen antes de qualquer decisão. Isso vale também para escolas.

Uma organização cujo objetivo final não é a aprendizagem de estudantes pode decidir pelo uso arriscado da IAGen, desde que tenha profissionais aptos a criticar, avaliar e alterar as respostas geradas: adultos que já passaram por um processo de desenvolvimento que garantiu repertório para isso. E as escolas? Aqui está a grande diferença: o principal processo de uma escola é justamente proporcionar aprendizagem e garantir o desenvolvimento desse repertório e desses critérios nos próprios estudantes, que ainda os estão construindo.

A armadilha dos modismos corporativos e o chamado para uma liderança agêntica para aprendizagem

Desde a disponibilização pública da IAGen, as grandes organizações têm avançado mais rápido que as instituições educacionais na sua utilização, por terem processos mais baseados em sistemas de informação, benefícios mais tangíveis e maior clareza de riscos e formas de mitigá-los. A realidade de uma escola é bem distinta: o objetivo organizacional se dá por uma infinidade de interações humanas, os processos são pouco estruturados, os benefícios são menos tangíveis e os riscos menos mensuráveis. A aprendizagem, como resultado almejado, se transforma ao longo do tempo e só pode ser evidenciada em um futuro cada vez mais incerto.

Por conta dessas diferenças, tenho ficado preocupado com termos que começam a migrar do universo corporativo para o ambiente educacional. Escrevo este texto como alerta para lideranças educacionais, com atenção a três expressões: AI First, adoção de IAGen e Organizações Agênticas.

De AI First para Learning First (IAGen em primeiro lugar, para Aprendizagem em primeiro lugar)

O conceito de AI First coloca a IAGen no centro da estratégia e do modelo de negócios, pressupondo o redesenho de todos os processos para que a organização esteja centrada nela.

Na educação, porém, o resultado final se dá no ser humano: todo uso de IAGen com finalidade educacional é limitado pela interface humana. Motivação, ação intencional, metacognição, conexões cerebrais, transferência de conhecimento e habilidades físicas são essencialmente humanos.

Pessoalmente, acho o termo AI First “perigoso” até para corporações: uma organização que não considera a aprendizagem humana e “terceiriza” esse processo para seus algoritmos tende a se tornar refém da tecnologia, com cada vez menos capacidade humana de decisão.

  • O uso da IAGen deve estar a serviço da aprendizagem, e não em primeiro lugar.

Da adoção de IAGen para Jornada de Integração de Inteligências (Individual, Coletiva e Artificial)

Na maioria das organizações, o uso da IAGen começou de maneira errática e desalinhada dos objetivos institucionais, resultado da liberação pública do ChatGPT e de seus concorrentes, capturada individualmente por quem foi se desenvolvendo de maneira autodidata. Antes mesmo de revisar seus processos, as empresas já conviviam com competências e práticas muito diferentes de uso da IAGen.

É inegável o potencial da IAGen para melhorar processos, mas essa criatividade e essas oportunidades estão dispersas entre indivíduos e áreas. Os melhores resultados de aprendizagem e transformação com a IAGen que tenho visto surgem quando existe uma jornada de coleta, diálogo e aprendizagem que integre as inteligências individuais e coletivas dos educadores. 

  • Qualquer incorporação de IAGen que não consolide a inteligência humana (individual e coletiva) dificilmente será efetiva.

Antes da Organização Agêntica, a Liderança Agêntica

O avanço da IAGen popularizou os agentes: sistemas proativos capazes de agir conforme um objetivo e restrições predefinidos, como planejar uma viagem com datas, critérios e sites específicos. Uma Organização Agêntica leva esse conceito à estrutura de uma empresa: um modelo de negócios em que processos inteiros são executados por equipes de agentes que colaboram entre si e com humanos, funcionando como “funcionários virtuais” que assumem fluxos de trabalho complexos de ponta a ponta.

Esse modelo demanda líderes capazes de gerir um time híbrido, de agentes e humanos, focados na estratégia, na governança e no contexto. Mas o caminho até lá, se for o caso, passa por clareza, aprendizagem, decisões e uma jornada de transformação que exige um novo perfil de liderança.

Uma liderança com clareza e decisão para planejar uma transformação que seja Learning First, na qual desafios e oportunidades sejam considerados coletivamente, integrados a um processo de aprendizagem sobre, com, para e apesar da IAGen.

O que precisamos para novos modelos de escola, antes de uma organização agêntica, é de uma liderança agêntica para aprendizagem. Ela pressupõe: clareza dos objetivos e desafios da instituição; consciência dos riscos e oportunidades da IAGen; disposição para avaliar e priorizar esforços de desenvolvimento docente e institucional que consolidem conhecimento e experiência individual e coletiva; e competência para traçar um caminho de transformação responsável e efetivo.

  • A primeira decisão de uma liderança agêntica para aprendizagem é assumir o protagonismo para iniciar essa jornada, contínua, particular e única de cada instituição. O que falta para você dar esse primeiro passo?

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