George R. Stein usa as propostas submetidas ao SXSW EDU 2027 para discutir por que liderar a inovação com IA exige conhecer a escola, desenvolver equipes e tomar decisões antes que a urgência determine o rumo
Um dos esportes da minha juventude foi a canoagem. Tive, por alguns anos (menos do que eu gostaria), o prazer e a sorte de remar em passeios e viagens: águas calmas, mar aberto, corredeiras de verdade. As sensações e os aprendizados daqueles anos voltaram com força quando comecei a pensar a liderança educacional como um guia de rafting enfrentando corredeiras com uma equipe em uma balsa inflável. Convido você a embarcar nessa descida comigo.
Um bom guia de balsa não aprende o rio durante a corredeira. Ele conhece o leito antes de entrar nele: a escola, a ciência da aprendizagem em que se apoia, as famílias que atende, a proposta pedagógica que pratica. Conhece também a própria equipe, o que exige trabalho contínuo, não só observação: quem tem qual competência, onde estão os pontos fortes, quem necessita de suporte, quem consegue trocar de posição quando o desafio exige. E só com essas duas coisas já maduras consegue fazer a terceira, a mais visível: ler o desafio que emerge no momento e coordenar a ação da equipe e o rumo do barco em tempo real. As três juntas, nunca uma isolada, são o que separa quem atravessa a corredeira de quem vira a balsa.
O rio, nesse caso, é o contexto de inovação educacional que toda escola já navega, com ou sem IA. Concorrência, expectativa da sociedade, pressão de fornecedor, exigência regulatória: essas corredeiras já existiam, sempre existiram, e já testavam a liderança antes de qualquer chatbot entrar em sala de aula. O que a IA generativa fez não foi criar um rio novo. Foi mudar o volume da água. E quando o volume muda de forma radical, o perfil de cada obstáculo que já estava lá muda com ele: a mesma corredeira que antes se atravessava remando com calma agora exige leitura, equipe e coordenação em outro nível.
Os números do catálogo do SXSW EDU 2027 mostram essa subida de volume com clareza. Quase um terço das 1.514 propostas submetidas (485) toca IA generativa de alguma forma: é a água subindo por toda a extensão do rio, não em um ponto isolado. Dentro dessas mesmas 485 propostas, pelo menos 50 tratam explicitamente de atravessar essa água sem se deixar arrastar por ela nem brigar contra a correnteza. São as propostas que cruzam IA com o que os organizadores vêm chamando de “tecnologia centrada no humano”. “AI Won’t Save Education. Human Connection Will” é só o título mais direto desse grupo. Em “Innovating Toward What? What is learning for?”, pesquisadores do Stanford Accelerator for Learning vão além da pergunta sobre como atravessar a água mais forte: perguntam para onde o barco deveria estar indo, afinal. Se o destino não for o florescimento humano, atravessar mais rápido não é atravessar melhor.
Vale caracterizar essa tripulação com mais precisão, porque a distribuição conta uma história por si só. Das 50 propostas, 21 estão classificadas pelos próprios organizadores na trilha “Future of Tech”, o que é, no mínimo, irônico: a trilha batizada de futuro da tecnologia é, na prática, onde mais se discute como não ser arrastado por ela. Doze estão em “Health & Wellbeing” e apenas 5 em “Leadership for Tomorrow”, mas esses 5 já bastam para confirmar que o próprio evento reconhece a dimensão de liderança dentro da travessia. No formato, o padrão ainda é majoritariamente reflexivo: 16 são talks solo de 30 minutos e 14 são painéis: a tripulação está discutindo a correnteza, não necessariamente remando nela.
É um contraste que aparece com nitidez quando comparo com as 39 propostas que cruzam IA com tags de administração, implementação ou desenvolvimento profissional, o lado mais operacional da liderança. Ali, 13 são workshops de 90 minutos, quase o dobro da proporção do outro grupo. A leitura que fica: quando o assunto é a dimensão humana do volume que subiu, o evento ainda está no estágio de discutir a correnteza; quando o assunto é liderança propriamente dita, já está no estágio de remar nela. É exatamente essa lacuna que o resto deste texto quer discutir.
A correnteza, por si só, não ensina ninguém a remar: ela só empurra. É o que me chama atenção em três propostas deste ano que, juntas, desenham o que venho defendendo há tempo: a adoção de IA não naufraga por falta de técnica de remada, naufraga por falta de trabalho interior de quem guia a balsa. Em “Ego, AI & Other Dangerous Things: Leading Out of the Shadows”, pesquisadores da Wharton e da Lumin Leadership argumentam que o maior desafio da IA para líderes não é técnico, é psicológico: ego, medo, escassez, a pressão de performar expertise em água brava. Em “Decide Before Urgency Does: A Leadership Framework for AI”, uma equipe do Teach For America propõe construir princípios de decisão antes que a urgência decida por você: escolher a linha de navegação antes da corredeira, não durante. E em “AI Took Over the Org’s Nervous System. Take It Back.”, uma clínica licenciada oferece algo raro em conferência de tecnologia: um diagnóstico de se a integração de IA está regulando a organização para a segurança ou para a ameaça: se a tripulação, debaixo de água brava, mantém a cabeça fria ou entra em pânico.
Já defendi, na coluna anterior desta série, que a resposta correta à era dos agentes de IA não é construir “organizações agênticas” nos moldes corporativos, mas cultivar o que chamei de liderança agêntica para aprendizagem: aquela que assume protagonismo em vez de reagir à correnteza. Conhecer o rio, conhecer e desenvolver a própria equipe, e ler os desafios que emergem quando o volume muda: as três coisas juntas são, na prática, o que essa liderança agêntica exige.
E é exatamente aí que quero trazer uma contribuição pessoal a essa conversa. Em 2023, publiquei o manifesto da Pedagogia de Prompt, defendendo que o prompt não é um comando técnico, é um ato de mediação entre a intenção humana e a força da máquina. No vocabulário desta coluna, o prompt é a leitura fina da correnteza: não é a força bruta da água, nem o barco parado na margem, mas o ponto exato de contato entre os dois, onde o rumo se decide. O que o catálogo de 2027 está me mostrando é que essa leitura não é só individual, de professor com sua turma. Ela é sistêmica. A liderança que hoje decide comprar, pilotar ou proibir uma ferramenta de IA está, sem perceber, lendo ou ignorando a correnteza de toda uma comunidade escolar. A pergunta que toda liderança deveria fazer antes de “qual ferramenta escolher” é: conheço meu próprio rio e minha própria equipe bem o suficiente para saber se essa é a leitura certa?
É também essa pergunta que me levou a submeter, para esta edição do SXSW EDU, a sessão “Leading the AI Shift: What Works (and Fails) in GenAI PD”. Depois de acompanhar a adoção de IA generativa em mais de 400 escolas brasileiras e consultorias em três escolas internacionais, o padrão que mais se repete não é tecnológico: é a distância entre o discurso de inovação e o conhecimento real que a liderança tem do próprio rio e da própria equipe antes de decidir remar. Formação de professores que trata IA como correnteza a ser bloqueada, ou simplesmente obedecida, fracassa. Formação que ensina a ler a água, que nomeia o medo antes de prometer produtividade, tem outro resultado.
Vale usar um exemplo concreto de como esse aumento de volume reconfigura uma corredeira que já existia. Toda escola brasileira sempre navegou a corredeira regulatória: currículo, avaliação, proteção de dados do estudante não são novidade. O que a IA generativa fez foi alterar o perfil dessa água específica. O Conselho Nacional de Educação (CNE) ainda aguarda homologação do Ministério da Educação para suas novas diretrizes sobre uso de IA nas escolas, mas as proibições específicas já valem, e a partir da publicação no Diário Oficial as escolas terão 12 meses para se adequar por completo. As diretrizes vetam IA corrigindo ou pré-avaliando provas (a palavra final precisa ser humana) e proíbem acesso direto e sem supervisão a ferramentas de IA na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Fundamental. No Rio Grande do Sul, o CEEd já emitiu parecer na mesma direção, reforçando que a tecnologia deve apoiar a docência, “mas nunca substituir o vínculo humano”, com limites de atividade remota por etapa e exigência de letramento crítico sobre viés de algoritmo.
Reparem: essa água ainda não tomou sua forma final; a corredeira regulatória, turbinada pelo novo volume, ainda está se reconfigurando. E é exatamente por isso que ela é o melhor teste da liderança que venho descrevendo. Quem já conhece o próprio rio e já sabe o que a própria equipe é capaz de fazer pode começar a se mover agora, refletindo, ajustando a formação de professores, revisando política de avaliação, sem esperar a corredeira terminar de se formar para só então reagir. Quem vive de olho em cada grito externo (o concorrente que lançou um app, o fornecedor que promete resultado, agora o órgão que regula) vai, de novo, remar tarde demais. A legislação em si não é o desafio novo. O desafio novo é o volume que a transformou.
O SXSW EDU 2027, então, não está dizendo que a água vai baixar. Está dizendo algo mais preciso: o rio da inovação educacional, com o volume que a IA generativa trouxe, só se atravessa bem quando a liderança já conhece o leito, já conhece e desenvolveu a própria equipe, e consegue ler os obstáculos quando eles mudam de perfil, coordenando as duas coisas em tempo real. Isso não aparece em nenhum dashboard de adoção, e não se aprende no dia em que o volume sobe.
Se sua escola ou organização está, neste momento, decidindo o próximo passo com IA generativa, ou se preparando para a próxima exigência regulatória, a pergunta não é se o volume vai continuar subindo. Vai. É se a liderança de vocês já conhece o rio e a própria equipe o suficiente para ler os obstáculos quando eles mudarem de perfil, ou se ainda está descobrindo o leito em pleno aumento de correnteza.
As sessões do SXSW EDU 2027 citadas neste texto são propostas submetidas ao evento; a seleção e a divulgação da programação oficial ainda ocorrerão nos próximos meses. Continuarei trazendo essas leituras gerais do catálogo para os leitores da coluna, e a curadoria individualizada da programação definitiva para quem participa da Missão Explore SXSWEDU2027.
E já deixo o convite informal para quem quiser embarcar em uma “jornada agêntica” para o SXSW EDU 2027: será um enorme prazer, além de podermos remar uma manhã por lá!

George R. Stein é diretor-fundador da Pedagog.IA – Inovação em Aprendizagem, mentor, palestrante internacional (SXSWEDU e innovationhub.school) e professor visitante da Faculdade de Educação da PUC-SP. Além de autor do livro “A Escola com Inteligência Artificial Generativa: uma jornada transformadora para um futuro que já chegou”, ainda atua como conselheiro da Labor Educacional e do doutorado em Liderança Educacional – MUST University.










