Na Coluna Formação de Professores, Amábile Pacios afirma que para formar bons professores, precisamos ir além do currículo: é preciso vivência, acompanhamento e inspiração
A qualidade da formação docente tem impacto direto na aprendizagem dos alunos. Essa constatação, embora recorrente em estudos nacionais e internacionais, ainda não se traduz com a força necessária nas políticas públicas e nas práticas formativas adotadas nas instituições de ensino superior. Uma das principais lacunas da formação inicial de professores no Brasil está na distância entre teoria e prática – uma desconexão que fragiliza a identidade profissional docente e dificulta sua inserção nas escolas. Nesse cenário, programas de mentoria e residência pedagógica se apresentam como estratégias eficazes para qualificar a formação e garantir maior articulação entre universidade e escola.
A vivência concreta do cotidiano escolar deve deixar de ser um complemento tardio na formação do professor para tornar-se elemento central, planejado desde os primeiros períodos do curso. Iniciativas como o Programa Residência Pedagógica, parte da Política Nacional de Formação de Professores, apontam um caminho interessante: a imersão gradual do licenciando na escola, com acompanhamento de professores experientes, amplia a compreensão do fazer docente e fortalece o compromisso com a aprendizagem dos alunos.
A mentoria, neste contexto, assume um papel transformador. Ao permitir que futuros professores caminhem ao lado de educadores experientes, cria-se um espaço de escuta, apoio emocional, troca de saberes e construção de repertório pedagógico. O mentor não é apenas um orientador técnico, mas também um modelo de profissionalismo, ética e paixão pela educação. Essa relação fortalece a autoconfiança do licenciando e contribui para sua permanência na carreira.
Diversos estudos mostram que programas estruturados de mentoria e residência pedagógica têm efeitos positivos não apenas sobre a formação dos professores, mas também sobre os resultados de aprendizagem dos alunos nas escolas envolvidas. Países como Finlândia, Coreia do Sul e Canadá, reconhecidos por seus sistemas educacionais de excelência, investem fortemente nessas estratégias – e o Brasil pode e deve se inspirar neles, adaptando-os às nossas realidades.
Apesar dos avanços, iniciativas como a Residência Pedagógica ainda são pontuais e dependem de editais temporários, o que dificulta sua consolidação como política de Estado. Para que esses programas tenham impacto duradouro, é preciso garantir financiamento contínuo, formação adequada dos mentores, articulação com as redes de ensino e avaliação permanente dos resultados.
A aproximação entre instituições formadoras e escolas de educação básica é essencial. Essa parceria deve ser baseada em confiança, diálogo e objetivos compartilhados: formar professores preparados para os desafios do século XXI. Isso significa envolver ativamente os sistemas de ensino na formação inicial, valorizar os professores que atuam como mentores e criar mecanismos para que a prática pedagógica seja constantemente refletida, aprimorada e integrada ao currículo dos cursos de licenciatura.
Formar um professor é formar um profissional capaz de inspirar, transformar e sustentar os pilares da sociedade. Não podemos mais aceitar que esse processo se dê de forma fragmentada e distante da realidade escolar. Mentoria e residência pedagógica não são acessórios: são fundamentos de uma formação docente robusta, comprometida e conectada com o mundo real. O Brasil precisa fazer dessa prática uma prioridade estratégica. A escola do futuro depende da coragem de investir nos professores do presente.

Amábile Pacios é vice-presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e ex-conselheira Nacional de Educação, com atuação destacada na Câmara de Educação Básica. Educadora com mais de 30 anos de experiência, é autora de livros didáticos e presidente do Grupo Educacional Dromos. Reconhecida por sua liderança no setor educacional, recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo em 2022, em homenagem aos seus serviços prestados à educação brasileira.