Visita coletiva à Bett UK evidencia como políticas, indústria e escolas disputam os rumos da IA na educação
O terceiro dia da Missão UK 26 reuniu educadores brasileiros na Bett UK, maior evento global de tecnologia educacional. O grupo foi recebido com carinho e etenção redobradas no estande do Edify, na área da feira de expositores. Desde a abertura, ficou claro que a edição de 2026 marca um ponto de inflexão: a inteligência artificial na educação deixou de ser promessa futura e passou a ocupar o centro das decisões políticas, regulatórias e pedagógicas.
Logo no início da manhã, uma dinâmica interativa inspirada no formato do programa Taskmaster rompeu com o protocolo tradicional dos grandes eventos. A proposta, conduzida pela equipe do Taskmaster Education, envolveu o público em desafios rápidos, colaborativos e de baixo risco, espelhando práticas usadas em escolas e formações docentes para estimular engajamento, criatividade e resolução de problemas desde os primeiros minutos.
A escolha do formato não foi casual. Ao contrário, antecipou um dos principais temas do dia: como criar experiências de aprendizagem ativas, significativas e humanizadas em um contexto cada vez mais mediado por tecnologia.
Ao final do D-3 da Missão UK 26, a Bett UK se consolidou como um espaço onde inovação tecnológica, política educacional e prática escolar se encontram — nem sempre em consenso, mas em diálogo direto. A inteligência artificial na educação aparece menos como solução pronta e mais como território de disputa, escolhas e regulação.

Bett se posiciona como fórum global, não apenas feira
Após a abertura, a organização apresentou os rumos estratégicos da Bett. Duncan Verry, diretor do portfólio Bett no Hyve Group, destacou a ambição internacional do evento e confirmou a expansão para os Estados Unidos, com o lançamento da Bett USA em 2027, em Nashville.
O anúncio veio acompanhado de números que reforçam o peso político do encontro. Mais de 220 ministros e autoridades educacionais de mais de 50 países participaram do primeiro simpósio ministerial da Bett, com apoio de organismos internacionais.
Em três dias, a expectativa é a de receber de cerca de 60 mil visitantes e todas as sessões com certificação de desenvolvimento profissional. Com isso, a Bett reforça seu papel como ponto permanente de articulação entre políticas públicas, mercado e sistemas educacionais.
Governo britânico define direção para a IA nas escolas
A centralidade da inteligência artificial na educação foi consolidada no discurso da secretária de Educação do Reino Unido, Bridget Phillipson. Ao tratar a IA como uma das maiores transformações educacionais em séculos, a ministra reforçou, repetidas vezes, que a tecnologia deve apoiar o trabalho docente — nunca substituí-lo.
O pronunciamento apresentou uma agenda clara: ampliação do uso de IA nas escolas, acompanhada de padrões rigorosos de segurança, bem-estar e proteção de crianças e jovens. Entre os destaques, estão investimentos em testes controlados de tecnologias educacionais, novas qualificações em ciência de dados e IA, uso ampliado de tecnologias assistivas e parcerias com grandes fornecedores para garantir padrões éticos e técnicos.
A ênfase regulatória foi reforçada por lideranças do setor. Representantes da indústria educacional destacaram a importância de padrões comuns, fornecedores confiáveis e códigos de conduta claros para que escolas adotem tecnologia com segurança e previsibilidade, especialmente em um cenário de incertezas geopolíticas e expansão global do edtech britânico.
A discussão evidenciou que a inovação tecnológica, no contexto educacional, depende menos de velocidade e mais de confiança institucional, alinhamento regulatório e clareza de propósito pedagógico.

Entre o entusiasmo e o ceticismo informado
O debate sobre IA ganhou densidade em uma conversa pública entre a matemática e divulgadora científica Hannah Fry e o jornalista Amol Rajan. Em tom crítico e equilibrado, o diálogo buscou afastar tanto o alarmismo quanto o entusiasmo acrítico.
Ao mesmo tempo em que reconheceram avanços reais na capacidade das ferramentas de compreender linguagem e padrões complexos, os debatedores alertaram para exageros, promessas infladas e definições vagas que ainda cercam o tema. A mensagem central foi clara: a discussão sobre IA precisa de precisão conceitual, transparência e responsabilidade pública.
Para os educadores brasileiros, o aprendizado do dia não esteve nas ferramentas específicas, mas na compreensão de que o futuro da IA nas escolas será definido pela capacidade dos sistemas educacionais de equilibrar inovação, segurança, inclusão e valorização do trabalho docente.










