Na Coluna STEAM, Lilian Bacich analisa como as abordagens STEAM e CTS se complementam na formação integral e crítica dos estudantes
Em muitas das formações que realizo com educadores, uma pergunta costuma aparecer: “Qual a diferença entre STEAM e CTS?” e, principalmente, “Como essas abordagens se relacionam com o que fazemos na escola?”
A dúvida faz sentido. Ambas propõem uma educação mais integrada, contextualizada e próxima dos desafios do mundo atual. No entanto, embora compartilhem pontos de convergência, como em relação à sua origem, STEAM e CTS também partem de perspectivas diferentes sobre o papel da ciência, da tecnologia e da escola na formação dos estudantes.
A visão da abordagem STEAM?
Como já discutido por aqui, STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics) representa uma abordagem educacional que integra diferentes áreas do conhecimento, favorecendo o desenvolvimento de competências essenciais do século XXI, como a criatividade, o pensamento crítico, a colaboração e a resolução de problemas complexos.
No Brasil, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) reforça essa perspectiva ao destacar a importância de uma aprendizagem significativa e contextualizada, que leve o estudante a aplicar conhecimentos em situações reais e a atuar com protagonismo ao buscar resolver problemas do entorno, conectado a desafios como os inspirados nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A abordagem STEAM valoriza o aprender fazendo, o trabalho por projetos e a articulação entre ciência e arte. Como costumo afirmar, trata-se de olhar para a aprendizagem como experiência, unindo o rigor conceitual à criatividade na construção de protótipos, um equilíbrio fundamental para promover o desenvolvimento integral dos estudantes.
E o que é CTS?
O campo começa a se organizar na literatura com o nome Science, Technology and Society (STS), mais tarde traduzido e adaptado para o contexto ibero-americano como CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), caracterizando-se como reflexivo e crítico, vinculado à educação em ciências e à filosofia. Seu foco está em compreender as implicações sociais, éticas e ambientais do avanço científico e tecnológico.
Mais do que usar tecnologia, a perspectiva CTS busca formar cidadãos capazes de compreender, avaliar e participar de decisões sobre temas contemporâneos, como o uso ético da inteligência artificial, as mudanças climáticas ou as desigualdades de acesso digital.
Enquanto a abordagem STEAM enfatiza a inovação e a criação, o CTS enfatiza a reflexão e a responsabilidade social. Ambos, porém, reconhecem que aprender ciência precisa ter sentido para o estudante e relevância para a vida em sociedade.
Em que aspectos se diferenciam?
Embora STEAM e CTS compartilhem o propósito de aproximar ciência, tecnologia e sociedade da vida dos estudantes, seus pontos de partida e ênfases são distintos.
Enquanto STEAM nasce com foco no fazer criativo e na integração de saberes para promover inovação e resolução de problemas, valorizando o processo de criação e o uso das linguagens científicas e artísticas, CTS surge de uma perspectiva sociocrítica, interessada em compreender como a ciência e a tecnologia são construídas e quais são seus impactos éticos, políticos e ambientais.
Assim, STEAM tende a enfatizar a experimentação e o design de soluções, enquanto o CTS privilegia o porquê e para que fazer, convidando à reflexão sobre as consequências e as responsabilidades envolvidas nas práticas científicas e tecnológicas.
Aproximações possíveis
De acordo com essa reflexão, há muitos pontos de encontro entre STEAM e CTS, pois ambas propõem superar a fragmentação disciplinar e articular saberes; incentivam o papel ativo e a investigação na resolução de situações-problema reais; valorizam o papel do educador como aqeuel que cria contextos para investigar, debater e construir soluções.
Projetos STEAM podem ganhar ainda mais sentido quando incorporam discussões CTS. Um exemplo: um projeto de robótica educacional pode ir além da construção de protótipos e incluir reflexões sobre os impactos da automação no mercado de trabalho. Do mesmo modo, uma investigação sobre biotecnologia pode envolver debates sobre privacidade de dados genéticos e justiça social.
Nessa perspectiva, a escola se torna um espaço de criação, investigação e ética, formando estudantes capazes de pensar e agir de forma crítica e responsável.
Para uma formação integral
Integrar STEAM e CTS significa unir criação e reflexão, inovação e ética. É compreender que as competências do século XXI não se limitam a dominar ferramentas digitais ou programar, mas envolvem entender o impacto das escolhas tecnológicas na sociedade.
Como destaca a BNCC, é compromisso da educação básica formar sujeitos capazes de agir com autonomia, responsabilidade e empatia. Assim, articular STEAM e CTS é caminhar em direção a uma educação integral, que prepara para o futuro sem perder de vista o presente, enfatizando e o valor humano que sustenta toda aprendizagem.
Mais do que escolher entre uma ou outra abordagem, o essencial é compreender o propósito pedagógico que orienta o trabalho com cada uma delas. Em muitos contextos, o debate conceitual sobre o que é “mais STEAM” ou “mais CTS” acaba desviando o foco daquilo que realmente importa: por que e para que estamos propondo determinadas experiências de aprendizagem. O valor de cada perspectiva está na intencionalidade do professor ao planejar situações que despertem a curiosidade, a criatividade e a reflexão crítica dos estudantes.
Quando o objetivo é claro, seja promover a investigação científica, a produção criativa ou a análise ética de problemas contemporâneos, a escolha da abordagem se torna menos uma questão de definição teórica e mais uma decisão pedagógica orientada pelo sentido da aprendizagem que se deseja promover.

Diretora da Tríade Educacional. Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), com pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (USP), Mestre em Educação: Psicologia da Educação (PUC/SP), Bióloga (Mackenzie) e Pedagoga (USP). É organizadora dos livros “Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação”; “Metodologias ativas para uma educação inovadora” e “STEAM em sala de aula”.










