A abordagem STEAM oferece caminhos potentes para a recomposição das aprendizagens na educação básica, unindo projetos, bem-estar e avaliação diagnóstica
Na nossa coluna de estreia, apresentamos uma visão geral da abordagem STEAM, seu potencial integrador e sua relevância para o cenário educacional brasileiro. Avançamos agora para um dos temas mais urgentes para educadores em todo o país: a recomposição das aprendizagens. Diante de uma crise global de aprendizagem, agravada pela pandemia e por emergências climáticas, a recomposição se torna um esforço inadiável de redes públicas e privadas. O “Guia para Implementação da Recomposição das Aprendizagens”, lançado no âmbito do Pacto Nacional, nos oferece um caminho, defendendo que para recompor é preciso, primeiro, compreender o ponto de partida de cada aluno por meio de avaliações diagnósticas, para então priorizar conteúdos curriculares, habilidades essenciais, em um planejamento consistente e articulado.
Nesse contexto, a abordagem STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) surge como uma estratégia potente, capaz de transformar a necessidade de recomposição em uma oportunidade para engajar e inspirar. Vamos explorar alguns pontos que fundamentam essa conexão.
1. Diagnóstico e priorização como pilares da recomposição
Seguindo as premissas do Guia, toda iniciativa de recomposição deve se apoiar em eixos essenciais, como a reorganização curricular e as avaliações e mediações pedagógicas. Podemos estabelecer conexão entre a abordagem STEAM e esses pilares considerando que, ao implementá-la por meio de metodologias ativas, processos avaliativos contínuos são valorizados, o que pode favorecer um diagnóstico das defasagens. A partir daí, em vez de uma revisão de conteúdos desconexos, os projetos STEAM são planejados com foco na priorização de habilidades essenciais , aquelas que são indispensáveis para que os estudantes avancem no desenvolvimento de outras competências.
2. Projetos como estratégia de mediação pedagógica
A metodologia ativa por meio da qual a abordagem STEAM é implementada é a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), que se revela uma poderosa estratégia de mediação pedagógica. O Guia de Recomposição sugere práticas como a diferenciação pedagógica e o reagrupamento temporário de estudantes como formas de atender às diversas necessidades em sala de aula. Um projeto STEAM oferece o ambiente perfeito para aplicar essas ideias: os estudantes podem ser organizados em grupos flexíveis com base em seus interesses e níveis de aprendizagem, e o professor pode escolher estratégias que dê oportunidade para que todos possam aprender e contribuir. Ao colocar “a mão na massa”, o aluno não só revisita conceitos, mas desenvolve autonomia e se envolve com uma aprendizagem significativa.
Dentro de um mesmo projeto, por exemplo, o professor pode aplicar a diferenciação pedagógica de forma prática, variando os processos e os produtos finais de acordo com os perfis e interesses dos alunos. Enquanto um grupo pode se dedicar à construção de um protótipo físico, outro pode desenvolver uma campanha de comunicação digital e um terceiro focar na análise de dados para um relatório. Essa flexibilidade assegura a participação ativa de todos e fomenta a autorregulação dos estudantes em seu processo de aprendizagem. Dessa maneira, a recomposição transcende a simples retomada de habilidades e se torna uma oportunidade para que os estudantes sejam desafiados a criar soluções para problemas reais, contribuindo para uma formação mais completa e conectada aos desafios contemporâneos.
3. Ressignificando o papel de professores e estudantes
A recomposição dentro de uma proposta como os projetos STEAM demanda uma nova dinâmica em sala de aula. O professor assume o papel de designer de experiências, que provoca e orienta, enquanto o estudante desenvolve um papel ativo e protagonista. Essa parceria é fundamental, pois permite ao docente realizar intervenções pedagógicas personalizadas. Para que isso ocorra, a formação continuada, eixo transversal que perpassa todas as etapas da recomposição, é indispensável para que os educadores se apropriem das novas metodologias e se sintam seguros para implementá-las.
Essa transformação no papel do docente vai além da mediação. Ele se torna um planejador que analisa resultados de avaliações para estruturar as mediações pedagógicas necessárias e organiza ambientes de aprendizagem flexíveis, com agrupamentos e atividades que atendam aos diferentes ritmos dos alunos. Por essa razão, a formação continuada não pode se limitar a uma perspectiva instrumental sobre novas ferramentas. O objetivo é formar profissionais que compreendam e acompanhem as mudanças de maneira crítica, estimulando sua própria capacidade criativa e a dos estudantes. Dessa forma, a atuação do professor como designer de experiências visa, em última instância, ao desenvolvimento de um estudante que é sujeito crítico e criativo, capaz de atuar com autonomia frente às situações que enfrenta no mundo real.
4. O “A” de Artes como vetor de bem-estar e inclusão
A inclusão das Artes no movimento STEM reconhece a importância da sensibilidade, da criatividade e da ética. No processo de recomposição, o “A” ganha ainda mais força ao se conectar à necessidade de desenvolver a saúde psicossocial e o bem-estar dos estudantes, um dos pilares do referencial pedagógico internacional que inspira o Guia de recomposição das aprendizagens. Ao abrir espaço para múltiplas linguagens e formas de expressão, a abordagem STEAM valoriza a diversidade e promove um ambiente de acolhimento e segurança, aspectos fundamentais para que o estudante construa conhecimentos.
5. Tecnologias digitais como apoio ao processo
Recursos digitais, quando bem utilizados, são grandes aliados. Eles se inserem no eixo de materiais didáticos de apoio, que devem estar alinhados ao currículo reorganizado para fortalecer a prática pedagógica. Em um projeto STEAM, a tecnologia não é o fim, mas o meio para potencializar a criatividade e aprofundar a investigação, funcionando como ferramenta para que os estudantes desenvolvam as habilidades prioritárias.
Nesse cenário, a Inteligência Artificial (IA), em particular, desempenha um papel de suporte e inspiração, potencializando a resolução de problemas complexos. Em um projeto STEAM, ferramentas de IA podem ser usadas para gerar rascunhos de textos, imagens ou códigos, servindo como um ponto de partida para a criação dos estudantes. No entanto, seu uso deve ser intencional e crítico, a IA se torna um objeto de estudo, abrindo espaço para discussões sobre o funcionamento de algoritmos, vieses, o uso ético de dados e as implicações sociais de sua utilização. A adoção dessas tecnologias, portanto, também se alinha à necessidade de uma educação digital e midiática que forme cidadãos capazes de compreender e avaliar criticamente as ferramentas do seu tempo.
Encarar a recomposição pela lente do STEAM é, portanto, uma aposta em uma educação que faz sentido. É um caminho para transformar um desafio em uma oportunidade de revitalizar nossas práticas, tornando a escola um espaço onde todos os estudantes, com suas histórias e saberes, sintam-se capazes e motivados a aprender e a transformar o mundo.

Diretora da Tríade Educacional. Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), com pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (USP), Mestre em Educação: Psicologia da Educação (PUC/SP), Bióloga (Mackenzie) e Pedagoga (USP). É organizadora dos livros “Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação”; “Metodologias ativas para uma educação inovadora” e “STEAM em sala de aula”.