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Gigantes da tecnologia avançam silenciosamente sobre o setor educacional e desafiam edtechs locais, políticas públicas e a autonomia pedagógica

Coautoria de Guilherme Cintra*

Nas últimas semanas, os sinais ficaram mais evidentes: Google, Microsoft, OpenAI, Anthropic, Apple e Meta estão pisando fundo no acelerador para ocupar, de vez, o espaço da educação. O que antes era um movimento tímido de apoio a professores e oferta de ferramentas gratuitas agora ganha o contorno de uma disputa estratégica de longo prazo. E não é exagero dizer que essa corrida pode redefinir a forma como ensinamos, aprendemos e decidimos políticas públicas educacionais.

Mas por que isso importa para você, que está em uma escola, gerenciando uma rede, empreendendo em edtech ou pensando em inovação educacional?

Porque o que está em jogo aqui não é só acesso à tecnologia — é a centralização da influência pedagógica nas mãos de poucos.

A lógica é simples: dominar a educação é dominar o futuro.

Educação é onde se formam usuários. É onde se sedimentam comportamentos digitais. É onde se molda o pensamento crítico de uma geração inteira.

Google já colocou seus Chromebooks e ferramentas educacionais em mais de 170 milhões de usuários globais. Microsoft incorporou sua suíte de colaboração nas secretarias de educação ao redor do mundo. OpenAI e Anthropic entenderam que formar professores é formar clientes. E Apple, Meta e Amazon, ainda que mais silenciosas, estão com projetos em estágio inicial para capturar atenção de alunos e gestores escolares.

Todas elas sabem: quem ganha a sala de aula hoje, ganha o mercado amanhã.

A entrada das Big Techs na educação tem avançado de forma rápida e, muitas vezes, silenciosa. E embora a tecnologia traga inúmeras vantagens — como escala, praticidade e acesso, é importante prestarmos atenção aos efeitos colaterais desse movimento. Quando uma startup local tenta apresentar uma nova ferramenta pedagógica e ouve como resposta: “Mas o Google Sala de Aula já faz isso, e é de graça”, o sinal de alerta já está aceso. Aos poucos, o campo de jogo vai sendo nivelado por ferramentas globais que, embora eficazes, não necessariamente conversam com os desafios e contextos das escolas brasileiras.

Não se trata de rejeitar a tecnologia, longe disso. A questão central está em entender que essas plataformas carregam consigo uma visão de mundo — uma forma de ensinar, de avaliar, de estruturar o aprendizado — que nem sempre reflete nossas realidades. Em vez de apenas adotar tecnologia, será que não estamos, sem perceber, terceirizando o nosso próprio projeto pedagógico?

Esse movimento também levanta uma preocupação sobre a padronização do ensino em escala global. Quando os mesmos modelos e métricas passam a ser usados indiscriminadamente, perdemos a chance de valorizar as diferenças culturais, regionais e educacionais que tornam cada rede ou escola única. E junto com essa padronização, vem o risco de erosão da nossa soberania educacional — ou seja, da capacidade de definirmos com autonomia como queremos formar as próximas gerações.

É nesse cenário que as edtechs locais ganham ainda mais relevância. Diferente das soluções genéricas oferecidas por grandes corporações, elas têm a capacidade de ouvir o professor, entender a rotina da escola e criar ferramentas pensadas para resolver problemas reais do cotidiano educacional. Claro, é um desafio competir com plataformas consolidadas e muitas vezes gratuitas. Mas também é uma oportunidade: entregar valor onde os gigantes não alcançam — com mais sensibilidade, mais propósito e mais conexão com o que realmente importa.

Mais do que adotar soluções tecnológicas, precisamos assumir o protagonismo de moldar o futuro que queremos ensinar. Isso significa fortalecer educadores como agentes de transformação, valorizar as edtechs que conhecem o chão da escola e garantir que as escolhas sobre ensino, currículo e avaliação não sejam guiadas por métricas genéricas, mas por valores que dialoguem com a diversidade, a equidade e a autonomia pedagógica.

Se a sala de aula é o campo de disputa do século 21, então é hora de nos perguntarmos: de quem será a pedagogia do futuro — das Big Techs ou de quem vive e constrói a educação todos os dias?

A corrida começou. E o caminho que escolhermos agora vai definir muito mais do que o próximo app a ser usado em sala — vai definir o tipo de sociedade que queremos formar.

*Diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann


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