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Que tal os dois?


Essas últimas semanas, me peguei novamente maravilhado com os avanços tecnológicos que estamos vendo.


Novembro de 2022, tivemos um choque ao nos depararmos com chatbots que pareciam falar como humanos.
Esse efeito passou, para quem usa essas ferramentas todos os dias, um chatbot é só mais uma parte da vida cotidiana.


Só que agora, é possível conversar com uma ferramenta que programa por você, faz suas apresentações (com qualidade), parece ter uma personalidade que evolui…


Sinto que teremos esses ciclos de nos acostumarmos e nos surpreendermos com quanto as máquinas estão evoluindo. E aí a pergunta é: como garantir nosso espaço? Devo aprender competências técnicas ou focar no que é mais humano como diferencial?


Nosso convidado da coluna, Caio lo Bianco acredita que a resposta está no equilíbrio.


Precisamos, já, abrir espaço nos currículos para aprender profundamente sobre IA e aprofundar nossas habilidades socioemocionais.


Em nossa conversa, conta sobre a criação do Laboratório Inteligência de Vida e do novo currículo de IA, o Dia.Lab. Depois trago algumas outras edtechs que atuam nos dois temas!

1 – Conte sobre sua trajetória empreendedora. Como foi a criação do LIV?

O LIV vai fazer 11 anos. Ele nasceu dentro do Grupo Salta Educação, o que facilita muito o processo de empreender. Você tem uma estrutura robusta por trás, acesso a investimento e, principalmente, acesso a escolas para implementar o produto e testar MVP. Isso cria um tipo de empreendedorismo diferente, e que judou demais o LIV a se tornar o que ele é hoje.


Na criação do LIV, a primeira coisa que a gente fez foi viajar o mundo para pesquisar currículos socioemocionais. A gente visitou experiências nos Estados Unidos, na Europa, mas também olhou com cuidado para os currículos nacionais. Naquela época, praticamente não existiam produtos socioemocionais desenvolvidos no Brasil. A maioria era tradução de materiais estrangeiros, sem adaptação real ao nosso contexto.


E aí a gente identificou um gap claro no mercado. Os produtos que existiam tinham um foco muito comportamental. Faltava algo que trabalhasse mais a dimensão da fala e da escuta, da reflexão, do diálogo. Foi exatamente nesse espaço que o LIV se posicionou.


O que acabou diferenciando o LIV, principalmente, foi a construção de credibilidade de marca. Com o tempo, o LIV se tornou o maior programa socioemocional da América Latina.


A gente conseguiu se associar a nomes como Daniel Goleman, Jonathan Haidt e Edgar Morin, que participaram dos congressos que criamos. Isso fez com que o LIV se tornasse conhecido não só no mercado privado, mas também por organizações públicas e não governamentais, e admirado por pessoas de diferentes campos e por escolas de perfis muito diversos.


Hoje, o LIV já impacta mais de 1 milhão de alunos, está presente tanto no setor privado quanto no público. E, quando você pergunta qual é a grande referência de programa socioemocional no Brasil, o LIV costuma aparecer como essa referência.


Foi justamente por isso que a gente entendeu que agora era o momento de internacionalizar. A gente já está entrando no México esse ano, já fizemos um evento de lançamento, e agora estamos planejando uma expansão mais ampla para a América Latina como um todo.


2 – E agora, você está com o Dia.Lab. De onde veio essa ideia? E qual é a relação entre
os dois currículos?


O que a gente percebeu foi que tinham muitos grupos e organizações focadas em criar produtos educacionais que melhorassem o aprendizado, naeficiência da escola ou na criação de aulas a partir de IA, mas poucos estavam focados na criação e formação de currículos.


Então a gente começou a focar em um currículo de IA, mas pouco a pouco. E aí IA sobre qual a diferença de IA e humano, sobre alucinação, sobre engenharia de produtos, sobre em que a IA podia ajudar, mas também quais são os perigos e as questões éticas e as questões de segurança ligadas à IA, ligadas à IA.


Então a gente percebeu essa necessidade vindo dos próprios alunos, das próprias salas de aula. Existe uma relação com os dois currículos, justamente porque quando a gente está com um novo currículo socioemocional e a gente percebe que existe uma demanda dos alunos para lidar com questões de tecnologia.


Hoje boa parte das questões ligadas ao emocional, elas envolvem aspectos da tecnologia. Utilização de celular, cyberbullying, mídia social, enfim, tudo isso envolve tecnologia e envolve o socioemocional.


Os dois em algum momento vão passar por essa questão ética na utilização da tecnologia apesar de serem currículos completamente independentes.


O processo de criação desse novo currículo, veio a partir do estudo dos principais frameworks e currículos de inteligência artificial que hoje existem na educação, tanto internacionais, como experiências que já estavam acontecendo no Brasil, principalmente no setor público.


Então, a gente viajou para a Ásia, países como Hong Kong ou Coreia, e a gente, a partir dessa pesquisa, começou a criar um currículo que fosse adaptado à realidade brasileira. As aulas ocorrem uma vez por semana, uma hora-aula por semana. Pode ser dado por qualquer professor da escola. Tem um componente digital forte, com uma plataforma do aluno, mas também uma formação do professor intensa. Porque esse professor, ele também tem que ser alfabetizado em termos de IA.


A gente criou esse currículo em parceria com o Tiago Belotte, que é professor da PUC, mora em Lisboa e é um grande especialista em aprendizagem com IA focada para jovens. Começa do sexto ano do ensino fundamental até a segunda série do ensino médio, mas a gente já está criando o quarto e o quinto ano do ensino fundamental. Iremos começar com 65 mil alunos, e já estamos ampliando e oferecendo para escolas ao redor do Brasil.


Eu acho que quando você olha para os problemas que a escola enfrenta hoje, são sempre problemas ligados à tecnologia ou problemas ligados ao socioemocional. Então, o que a escola vive hoje é excesso de diagnósticos, medicalização, questões de saúde mental, questões diversas ligadas à violência, comportamento, à disciplina, questões ligadas à utilização do celular, a cyberbullying, questões ligadas a como que você está realizando o
seu trabalho, o ChatGPT.


3 – E por que devemos ensinar sobre esses temas?


O futuro da educação está nesses dois pilares: tecnologia e socioemocional. O mundo está cada vez mais digital. As pessoas estão cada vez mais viciadas no celular, nas mídias sociais, e as crianças já nascem nesse ambiente. E, ao mesmo tempo, a gente tem um mundo cada vez com mais depressão, um mundo cada vez mais ansioso. Hoje a gente tem um jovem que entra no ChatGPT para perguntar sobre questões de relacionamento, para entender o que está sentindo. Esse é um sintoma que a gente vive hoje na escola.Isso demonstra, claramente, que a gente tem que trabalhar duas questões fundamentais dentro da escola: inteligência artificial, tecnologia de uma maneira mais ampla. E questões ligadas a aspectos sociais, emocionais e saúde mental.


Com IA, o acesso ao conteúdo muda drasticamente, né? Então, as possibilidades deaprendizagem também. Então, a escola se torna principalmente esse ambiente que vai ter que lidar com a socialização desses alunos e lidar com as questões éticas que atravessam a tecnologia como um todo.


Agora, viajando, principalmente em algumas escolas que a gente visitou na Ásia, fica muito evidente que cada vez mais as escolas ao redor do mundo estão abrindo espaços na grade curricular em que o foco não são os conteúdos tradicionais.

Hoje você já tem escolas em que praticamente o currículo inteiro é focado em questões ligadas a tecnologia, empreendedorismo e questões ligadas ao socioemocional. Então, você vê essa tendência. Por exemplo, nos Estados Unidos, cada vez mais universidades aceitando os alunos não a partir de uma nota de prova, mas de um currículo que é criado ao longo dos anos. Isso é uma tendência: a gente abrir mais espaços para outros currículos que não são os currículos acadêmicos tradicionais.


4 – Qual o papel que tecnologia tem na formação dos alunos em sua visão?


Em educação, se gasta muito tempo pensando se tablet faz bem ou não faz bem, se celular faz bem ou não faz bem. E a gente gasta pouco tempo pensando como é que a gente vai fazer com que esses alunos se tornem agentes dessa transformação que a gente está vendo no mundo cada vez mais permeado por tecnologia.

Esses alunos já nascem no mundo digital, coisa que a gente não nasceu. E a gente fica sempre nessa discussão regulamentar, de proibir ou não proibir. Isso é uma discussão importante, tem um lugar fundamental, principalmente quando a gente fala do acesso de crianças, por exemplo, a celulares e redes sociais.
Mas a gente gasta pouco tempo pensando como é que a gente vai incluir tecnologia no currículo de maneira em que esses alunos possam ser agentes dessa transformação. E, para ser agentes dessa transformação, você precisa saber utilizar, dominar e entender de onde vem essa tecnologia. Qual é minimamente a história dela e quais são as questões éticas, as consequências, quais são os riscos envolvidos, as questões ligadas à segurança.


Então, se a gente não trabalhar isso com os alunos, a gente está perdido em relação a qual é o papel da educação. A gente fica discutindo se tecnologia é boa ou ruim, mas a gente não discute como é que a gente vai incluir a tecnologia no nosso processo de aprendizagem e, principalmente, como é que a gente vai fazer com que esses alunos sejam agentes e possam ser responsabilizados também nesse processo.

5 – Em sua trajetória existe alguma certeza que a realidade mostrou que estava errada? O que aprendeu com isso?


O processo de empreender é justamente você estar disposto a se confrontar com o fato de que as suas certezas vão ter que cair. Você só consegue melhorar o produto, você só consegue melhorar o currículo se você está disposto a reconsiderar as certezas que você tinha, porque quando você cria um produto, quando você cria um currículo, você tem várias certezas. E aí, na medida em que isso vai sendo colocado na escola, você vai vendo que não é muito bem assim, que aquilo que você achava que os alunos iam gostar, eles não gostaram, que aquilo que você achava que ia funcionar com uma determinada idade não funciona.

Então, você só vai conseguir melhorar esse produto, que é um processo essencial, imprescindível para que o produto melhore e um currículo melhore, se você estiver disposto a lidar com essas quedas de certeza. Essas quedas de certezas acontecem a todo momento. O currículo do LIV, há 10 anos atrás, era completamente diferente do que é o currículo hoje. E é somente por isso que o currículo hoje está onde ele está, porque a gente foi capaz de reescrever esse currículo diversas vezes e reconsiderar essas certezas que caem a todo

Edtechs

AI for The Future – Currículo e materiais prontos para escolas ensinarem fundamentos de IA
Hong Kong

A Universidade Chinesa de Hong Kong desenhou esses recursos e currículo buscando manter o país competitivo.
Para isso, integraram um currículo de 12 capítulos e 55 módulos que podem ser adaptados por escolas, uma plataforma digital, formação de educadores, estratégias de disseminação da temática e avaliações.

MIT Raise – Educação em IA responsável, conectando pesquisa do MIT a programas aplicáveis em escala
EUA

A iniciativa do MIT, cujo acrônimo significa “Responsible AI for Social Empowerment and Education” disponibiliza uma série de recursos e currículo gratuito para que IA possa ser aplicada ao redor do mundo.
Módulos sobre ética, desenvolvimento de aplicações com IA, formações sobre como “treinar seu robô”, workshops e ações de difusão de conhecimento como o Dia da IA, integrados a plataformas como o MIT App Inventor.

CODE School – Formação de educadores e currículo com foco em desenvolvimento de software e IA
Finlândia

A EdTech foi fundada na Finlândia em 2017 com o objetivo de preparar educadores para formarem alunos em desenvolvimento de código. Segundo seu site, desde então os professores formados em mais de 20 países pela plataforma já formaram 100 mil alunos.
Via assinatura, as escolas recebem 13 cursos em áreas como IA, robótica e desenvolvimento de software e formações para educadores.

STEMI Education – Ensino escalável de ciência da computação com suporte
intensivo de IA
Croácia

A plataforma ensina programação por meio de desafios práticos de múltiplas indústrias: aviação, eletrônica, drones, jogos, dentre outras opções. A ideia é preparar alunos do fundamental 2 e ensino médio para o mercado de trabalho de
tecnologia. Também é possível contratar apenas a plataforma tecnológica, especializada no ensino de STEM.
No Brasil, o BID financiou um piloto da solução na região Norte do país.

Beyond Education – Avaliações socioemocionais
França

A EdTech se baseia no framework do Center for Curriculum Redesign trabalhando com 12 competências divididas nas dimensões de metaaprendizagem, habilidades e caráter. A partir de uma avaliação de 30 minutos trazem relatórios e sugestões de como
desenvolver essas competências envolvendo alunos, educadores e famílias. Há um aprofundamento sobre essa edtech em uma postagem integralmente dedicada a ela no site edtechdasemana.com.br

ClassDojo – Ajuda escolas a promoverem competências socioemocionais de forma lúdica e conectada às famílias

EUA

Uma das edtechs mais usadas do mundo, alcança 50 milhões de pessoas. A funcionalidade original permite aos educadores criarem rubricas de comportamento para os alunos e os motivarem a apresentarem bons comportamentos (o que devemos admitir, pode ser mal usado).

Cada vez mais foram integrando a aprendizagem socioemocional de modo que hoje sugerem rubricas alinhadas aos frameworks sobre o tema. Passaram a trazer dentro da plataforma, gratuitamente, conteúdos sobre mentalidade de crescimento, empatia e gratidão.

Criaram o “Cantinho de Atividades” e as “Ilhas” que trazem respectivamente recursos para práticas em sala e jogos para os alunos, com as habilidades socioemocionais sendo trabalhadas de forma transversal.

Laboratório Inteligência de Vida – LIV – Oferece um currículo completo de educação socioemocional para escolas

Brasil

Confesso que sobre essa aqui sou suspeito para falar pois tive o privilégio de ajudar com seu desenvolvimento. Lá atrás, fui um dos primeiros professores desse currículo e ajudei a roteirizar e criar um aplicativo para tratar o tema por meio de storytelling.

Mas hoje, está muito mais avançado. Presente em mais de 600 escolas, constrói um espaço de fala e escuta desenvolvendo a educação socioemocional de mais de meio milhão de alunos. Não é uma edtech de origem mas tem integrado cada vez mais tecnologia em sua atuação.

Por meio do Portal LIV são oferecidas trilhas formativas sobre educação inclusiva, educação antirracista e convivência e mediação de conflitos, além de um material digital integrado que facilita o seu planejamento de aulas. 

Ao longo do ano os professores constroem, com auxílio do Portal, o Portfólio digital “Sentir é aprender” onde são registradas fotos, vídeos, áudios e falas de alunos ao longo das aulas.

Com isso, a evolução dos alunos é tangibilizada para educadores e famílias.

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